

Like a virgin, touched for the very first time...
Quando eu canto essa musica saindo da area de lavagem de equipamentos (onde ficam assadeiras, panelas, etc...) algumas pessoas ja sabem de uma coisa - vale saber que as assadeiras e demais utensilios estao sempre em falta e sao disputados a tapa pelos cozinheiros - que em minha pressa, peguei a primeira assadeira abandonada e joguei na pia de agua quente porcamente, dei um tapa e sai com ela nas maos "like a virgin... huh.. " mas ate me deu o que pensar hoje, sobre como estamos sempre recomecando tudo do zero. Entrei nesta cozinha e tive que aprender a andar com um navio em movimento, falar o idioma local (que definitivamente nao eh so ingles, varias palavras e girias internas) e saber o que sao as coisas e onde encontra-las assim como um bebe descobre o mundo, e da pior maneira possivel, caindo, batendo e balbuciando sem conseguir se comunicar.
Aos 32 anos, recomecar tudo e decidir por uma (nao muito promissora) profissao eh simplesmente muita bravura ou burrice, talvez um pouco de ambos, confesso. Mas hoje em dia, estou mais integrado ao navio e nao tenho mais acessos de depressao tampouco tenho vontade de pular na agua e alimentar os felizes tubaroes (nem tao felizes, pois perdi dez quilos durante estes meses e tive um reencontro inesperado com minhas costelas) mas agora eu consigo ver possibilidades e para falar a verdade, nao me mato, nao corro sem necessidade nem estou nem ai para as advertencias que levo diariamente (as vezes nao estou devidamente barbeado,esqueci alguma coisa de minima inportancia..) mas foda-se, a bronca eh a mesma entao tocarei minha vida nessa carruagem louca e desenfreada que e a cozinha.
Meu relacionamento com meu Chef de Partie melhorou, hoje em dia estamos em lua-de-mel com ocasionais episodios de furia (era o oposto) estou mais disciplinado e minha atitude em relacao as coisas aqui esta mudando tambem, estou menos combativo e mais paciente e na verdade nao dou uma merda para o que pensam de mim - realizei que o meu sozinho, a solidao que sentia aqui e uma solidao boa, um tempo para me conhecer melhor e para aprender a aturar as agruras da vida, essa puta ingrata que vezes te acaricia com uma leve brisa, ou outras com uma lixa metalica no traseiro.
Hoje, paramos em Malta de novo e desta vez decidi descer e andar, tudo que queria era andar e andar assim como Forrest Gump, sem destino e sem uma so pessoa perturbando minha cabeca (que ultimamente eh um bairro barra pesada, voce nao gostaria de entrar la a noite) e fui contente da vida pelas ruas desertas de Malta com meu Ipod e oculos escuros enfiado em um bermudao e havaianas. Andei pelo centro onde parei e tomei os dois melhores cafes da minha vida, vi Igrejas, pracas, monumentos, tudo que poderia em duas horas e pouco. Parei no charmoso porto de malta e pedi uma limonada com bastante gelo lendo minha recem-comprada Vanity Fair enquanto apreciava a vista do fim de tarde, o fato de ter que ir trabalhar em meia hora desta vez nao estragou o momento, foda-se o que venha depois disso, tudo compensa - parei na Duty Free e comprei tambem uma garrafa de vinho local, so nao enchi a cara porque dai fica ruim trabalhar, mas que a vontade de tomar uma cerveja bem gelada so para implicar era grande, ah isso era. Mal poderia acreditar que em meia hora, estaria chutando coisas, gritando com pessoas, fazendo frigideiras voarem e carregando kilos e kilos de frango para assar, nao, hoje esses momentos nao existiriam, nem o maldito acougueiro poderia destruir meu bom humor, nem a banda KY, nada alem do ceu desabar em minha cabeca... eram so eu e Malta, pela primeira vez em tempos estava sozinho e feliz. Pessoas me perturbam. Geralmente.
Andei por mais de uma hora, sem parar, vendo as casas e castelos, ruinas, pracas, tudo a minha volta tinha aquele tom de dourado que nao sei explicar, os turistas so poluiam a minha visao perfeita. Amanha, estarei pronto para mais um porto, mais um sonho, errante e intrinseco rumo ao resto do mundo. Sozinho.
Feliz por isso.




