quarta-feira, maio 21, 2008

Língua Universal

Língua Universal

Como em todo bairro, região, lugar, o navio tem sua própria língua (várias na verdade) mas existem palavras que são usadas por todos para designar coisas diferentes – muitas palavras soam latinas porque eles acham mais bacana, outras são coisas do Filipinos que misturam tudo, inglês, espanhol e tagalog, coisa para doido ver, eles começam a falar em inglês e logo depois o papo vira o Samba do Crioulo Doido.
Seguem alguns exemplos do que falo :

Babaloo – Louco, insano ou retardado mental, abestalhado.
Banana – Encrenca, confusão, repreensão (coisa fácil aqui); o chef executivo te pegou pré-assando steaks para só aquecer e servir ? BANANA pra você.
Paisano – Uma pessoa que é do mesmo país que você, seu compatriota, seu paisano.
“like rice” – Plenty like rice, alguma coisa em abundância; número de filipinos à bordo ? Like rice, como arroz, muitos.
Papae – Refeição, comida.
Papa – Cara, amigo; Hey papa, como està ?
Taka taka – Muita conversa, falação;
Disaster – como a palavra diz, desastre, caos, mas a diferença é que eles usam para tudo;
Why like this ? – quando a coisa está muito corrida, complicada ou difícil, fale esta sentença com uma voz fina e estridente dando ênfase ao thiiiis, porque tem que ser assim, satirizando o péssimo inglês da maioria das pessoas aqui.
Gimme chance, Papa – por favor, me deixe passar, ou abrir a geladeira, saia do caminho.
Foooock – enfim, fudeu.

Enfim, somos uma estranha comunidade, como na prisão temos nossas próprias regras, dialetos e pessoas de todos os tipos, às vezes é difícil de acreditar que somos quase cinqüenta nacionalidades em um único navio. Hoje, paramos em Kotor, mas não pudemos descer pois atracamos às três e os pasageiros saem antes, três excursões, e daqui a uma hora e meia eu trabalho (de novo) mas nestes quase três meses eu quase não acredito que eu não desisti ainda, devo ser mais resistente do que pensava, pelo menos me livrei da tortura de Bombay, mas na real, estou mais preocupado com os portos, esta semana, três dias em Veneza com tempo livre para sair a noite (só começo as onze da manhã no segundo dia) então vou atingir as ruas de Veneza como um rojão.
Tentarei não tomar um porre, mas não prometo nada.

terça-feira, maio 13, 2008

Chefs sao loucos.

Bem, pertecendo a categoria, eu sou uma sumidade para discutir o assunto.

Cara, chefs sao pessoas egocentricas, Machiavelicas e sadicas que habitam as cozinhas todas, sem excecao - sua refeicao eh preparada sim, por um cara horrivel com habitos pessimos e uma compulsao insana por pisotear seus subalternos, prazer eh pouco para descrever.
Mas, estava vendo uma das demonstracoes culinarias que eles fazem aqui no navio, o chef executivo garboso e seu comparsa sous chef, mostrando as milhares de veias que habitam este cruzeiro como preparar um polvo com arroz na tinta e uns canapes de tudo quanto eh tipo, como se essas senhoras do centro-oeste americano fossem admitir a entrada de um polvo em suas geladeiras, elas preferiam se ensaboar com o bicho vivo a ter que coloca-lo na boca. Enfim, as pessoas (poucas) que forcavam os Ahhss e ohhss nao ficaram muito impressionadas com o prato e tampouco acho que vao fazer um prato com canapes de todos os tipos, tipo, quarenta mini-iguarias todas diferentes feitas com ingredientes tipo, queijo feito pelas freiras lesbicas e manetas do Nepal, rarissimo Tartufo Bianco farejado pelos caes siberianos cegos, tudo com 1, 2mm de espessura cortados em fatiadores profissas (quem nao tem um em casa ?), esturjao roxo da Antarctica... ...o cara eh um punheteiro louco, vai me perdoar.

Quando esse fulano passa pela linha de servico, faz dez pratos voiltarem, pois este esta com um micro ponto de balsamico no canto, o outro a salsinha picada caiu um milimetro depois da linha do prato e no outro ele manda trocar porque nao gostou da sua cara quando voce preparou. O cara parece que esta sentindo cheiro de peido o tempo todo.
O resto de nos, somos mercenarios que vivemos sujos, engordurados, bebados em qualquer minuto vago, somos a escoria do inferno, front staff nao se atreve a dar um abraco em um cozinheiro - somos a ultima coisa que alguem quer ter como vizinho.

Enfim, esta casta a qual pertenco agora, eh simplesmente um bando de loucos, toxicomanos, bebados e insanos - meu tipo de gente.

segunda-feira, maio 12, 2008

Mitylene, ou sei la o nome do lugar.

Paramos em Mytilene, nem vou escrever muito pois nao tem nada la para se olhar.
Andei um pouco, desanimei, sentei no porto e tomei tres cervas EFES antes de voltar para o batente, estava numa tristeza de dar pena, sentindo pena de mim mesmo por ter que aturar essa vidinha por mais seis meses. Dizem que pode-se obter condicional ou extensao dos banhos de Sol por bom comportamento, mas eu duvido.
Esta eh a prisao perfeita pois... ...so se atirando no mar para sair daqui, se bem que as vezes a ideia de me atirar aos tubaroes soa menos dolorida e mais eficaz/rapida de acabar com minha vida.
Seis meses a frente, meu Deus, nem sei como vou aguentar esta tortura com leves momentos de agonizante prazer, pois sempre fico com aquele gosto de quero mais quando deixo um dos paraisos para voltar ao inferno do navio. Numa escala de um a dez de stress, estou batendo perigosamente nos 8.25, estou mais agressivo, irritado e mau-humorado e estou comecando a implicar com algumas pessoas que sinceramente, me irritam.
Amanha voltamos a Kusadasi, um porto que eu simplesmente amei, desta vez nada de ficar zanzando pois ja conheco o lugar - quero um almoco completo, de gente de verdade com direito a sobremesa e cafezinho no final so para dizer quem eh que manda no corpo e na alma do Ricardo. A impressao que temos eh que a empresa te possui e pode fazer o que quiser de voce (o Drydock provou isso) mas minha mente continua wild and free. O mundo estara em meu bolso ao final deste contrato - se conseguir resisitir isso tudo, vou virar monge, alcancar o Nirvana.

Por enquanto, longe disso. Quero espancar, pilhar, roubar e matar - estou me tornando um pirata.
Pior, parece que fui vendido como escravo pra eles.

domingo, maio 11, 2008

Mais um cruzeiro, menos um cruzeiro.

As pessoas contam o tempo que vão passar aqui em dias, meses, semanas e isso com certeza não me ajuda – eu conto cruzeiros, cada vez que um acaba e os passageiros descem, um kilo a menos sai das minhas costas, por enaquanto tenho mais 12 kgs. Para tirar das costas ( o mesmo número de kilos que eu perdi, gozado isso).

Agora, atracados no porto ou não (muitas vezes estamos em tendering, o barquinho que leva e traz as pessoas quando estamos longe do porto mina as horas que eu tenho para passear) eu saio nem que seja para tomar um café do lado de fora e voltar, tudo que eu quero é sair e ver as pessoas, os lugares e principalmente a comida local.
Em Olbio, Itália, sentei-me em um boteco à beira-mar e tomei três cervejas antes de voltar a trabalhar, era feriado no lugar e a cidade tem aquele clima de cidade do interior do Brasil que me deixou completamente à vontade. Nesse dia, só queria cerveja e calma, mais nada, tinha até um vira-latas local para brincar. Em Santorini, quis apreciar a vista local e a comida, tomei a cerveja Mythos e pedi Tzaziki com Pão e pepino e tomates acompanhados de uma salada de carneiro divina, regados ao azeite local e pão pita soberbamente tostado e preparado em um terraço de um restaurante familiar muito simples e simpático, Renata, uma das brasileiras à bordo sempre me deixa pedir a comida, sou seu personal chef.
Em Rhodes, tomei café apenas e zanzei pelo forte da era Bizantina do século XIV, fiz umas comprinhas nas lojas locais (muito legais) e voltei apreciando a visão do mar quebrando nas muralhas e pedras que envolvem a cidade velha e porto, em Kusadasi, mais comércio local (as falsificações são as melhore que já vi) podendo escolher entre Gucci, Diesel e tantas outras marcas que você jamais teria dinheiro ou coragem de comprar, vi Ipods dentre burcas e mesquitas, carros e cavalos, o cheiro do chá de maçã em todas as portas e o Sol que castigava minha pele era um alívio após tantas horas enfurnado em ma cozinha sem janelas.
Istambul. Ah Istambul.
A expectativa sobre Istambul era grande, três dias atracados com dois overnights, na primeira noite fomos a um dos milhares de narguilés cafés, sentamos em confortáveis sofás sob lonas e tapetes e fumamos o tal negócio, álcool é proibido pois 90% da população é muçulmana mas acreditem, não fez falta alguma – tomamos chá e café turco (o chá parece do Ceilão, mas com gosto melhor) e não feliz, fui em busca de um Kebab (a versão original do espetinho) e comprei em uma barraca que vi à tarde enquanto passava e me chamou a atenção – através do vidro vi os tomates mais firmes e vermelhos possíveis, pimentões multi-coloridos que fariam os nossos ficarem mais vermelhos de vergonha e mais verdes de inveja, tudo na Turquia exige paciência, ao contrário dos nossos ambulantes, que te entregam o mais assado disponível, o cara daqui faz na hora, corta os vegetais na hora, tosta a folha de pão na hora e põe temperos frescos (páprica, pimenta vermelha e pimentas misturadas em pó locais) enrolando a carne de carneiro, salada e tudo no pão. Dos Deuses, salve Alá.
Durante o dia, tive folga de três horas e meia e fui explorar o centro da cidade – um congestionado de pessoas, milhares de lojas barracas onde pode-se encontrar de tudo (mesmo) e parei num restaurante local cheio de pessoas locais para uma refeição. Inglês, linguagem, aqui é um sonho distante, dei o meu melhor para pedir a comida e não fui desapontado, quatro pães deliciosos acompanhados de salada verde com tomates, pimenta vermelha fresca, pimenta verde (não picante porém saborosa) e sobre arroz e batatinhas, um Kebab de carneiro feito na brasa intercalando carne e cubinhos da gordura do bicho. Olhando o prato todo, parecia pouca comida, comendo, foi um banquete.


Vi os turcos fazendo suas orações nas Mesquitas, onde geralmente são também as tumbas dos Sultões, o mercado com azeitonas, queijos, temperos era simplesmente de fazer o coração acelerar, não se consegue não provar um pouco de tudo.
Parece que ninguém trabalha às vezes, estão todos reunidos nas portas dos comércios, cafés e tendas locais em grupos de homens, tomando chá, fumando e batendo papo.

O sonho termina hoje, quando zarpamos novamente com destino final em Veneza, Istambul é misteriosa, seus cheiros e cores são demais.
No trabalho, me frustrei quando a minha mudança de estação de trabalho furou, ainda penso em homicídio e tento não pensar nos doze cruzeiros à frente, dei um leve tapa com luva de pelica no chef executivo hoje e passei a manhã enfurecido com falsas promessas e falta de coragem dele em dizer que estava não me mudando para posições melhores, quando minha vontade era enfiar um espeto de frango do tamanho da minha perna na cabeça dele e torcer. Stress ? Nem vou começar.

Em compensação, isso automaticamente ligou o meu foda-se, trabalhei como se não houvesse amanhã, após ter ido perguntar o que seria de mim e descobrir que de verdade, não importa o suficiente para ser comunicado que as coisas não vão mudar ou que talvez eu gostaria de saber onde trabalhar de manhã, a situação ganha perspectivas engraçadas, ou nenhuma, a não ser de que estarei fazendo as mesmas tarefas chatas mais dois meses como um assistente qualquer.

Vou voltar à masmorra agora. 60 dias após, ainda odeio estar dentro do navio.
Mais um cruzeiro, menos um cruzeiro.

As pessoas contam o tempo que vão passar aqui em dias, meses, semanas e isso com certeza não me ajuda – eu conto cruzeiros, cada vez que um acaba e os passageiros descem, um kilo a menos sai das minhas costas, por enaquanto tenho mais 12 kgs. Para tirar das costas ( o mesmo número de kilos que eu perdi, gozado isso).

Agora, atracados no porto ou não (muitas vezes estamos em tendering, o barquinho que leva e traz as pessoas quando estamos longe do porto mina as horas que eu tenho para passear) eu saio nem que seja para tomar um café do lado de fora e voltar, tudo que eu quero é sair e ver as pessoas, os lugares e principalmente a comida local.
Em Olbio, Itália, sentei-me em um boteco à beira-mar e tomei três cervejas antes de voltar a trabalhar, era feriado no lugar e a cidade tem aquele clima de cidade do interior do Brasil que me deixou completamente à vontade. Nesse dia, só queria cerveja e calma, mais nada, tinha até um vira-latas local para brincar. Em Santorini, quis apreciar a vista local e a comida, tomei a cerveja Mythos e pedi Tzaziki com Pão e pepino e tomates acompanhados de uma salada de carneiro divina, regados ao azeite local e pão pita soberbamente tostado e preparado em um terraço de um restaurante familiar muito simples e simpático, Renata, uma das brasileiras à bordo sempre me deixa pedir a comida, sou seu personal chef.
Em Rhodes, tomei café apenas e zanzei pelo forte da era Bizantina do século XIV, fiz umas comprinhas nas lojas locais (muito legais) e voltei apreciando a visão do mar quebrando nas muralhas e pedras que envolvem a cidade velha e porto, em Kusadasi, mais comércio local (as falsificações são as melhore que já vi) podendo escolher entre Gucci, Diesel e tantas outras marcas que você jamais teria dinheiro ou coragem de comprar, vi Ipods dentre burcas e mesquitas, carros e cavalos, o cheiro do chá de maçã em todas as portas e o Sol que castigava minha pele era um alívio após tantas horas enfurnado em ma cozinha sem janelas.
Istambul. Ah Istambul.
A expectativa sobre Istambul era grande, três dias atracados com dois overnights, na primeira noite fomos a um dos milhares de narguilés cafés, sentamos em confortáveis sofás sob lonas e tapetes e fumamos o tal negócio, álcool é proibido pois 90% da população é muçulmana mas acreditem, não fez falta alguma – tomamos chá e café turco (o chá parece do Ceilão, mas com gosto melhor) e não feliz, fui em busca de um Kebab (a versão original do espetinho) e comprei em uma barraca que vi à tarde enquanto passava e me chamou a atenção – através do vidro vi os tomates mais firmes e vermelhos possíveis, pimentões multi-coloridos que fariam os nossos ficarem mais vermelhos de vergonha e mais verdes de inveja, tudo na Turquia exige paciência, ao contrário dos nossos ambulantes, que te entregam o mais assado disponível, o cara daqui faz na hora, corta os vegetais na hora, tosta a folha de pão na hora e põe temperos frescos (páprica, pimenta vermelha e pimentas misturadas em pó locais) enrolando a carne de carneiro, salada e tudo no pão. Dos Deuses, salve Alá.
Durante o dia, tive folga de três horas e meia e fui explorar o centro da cidade – um congestionado de pessoas, milhares de lojas barracas onde pode-se encontrar de tudo (mesmo) e parei num restaurante local cheio de pessoas locais para uma refeição. Inglês, linguagem, aqui é um sonho distante, dei o meu melhor para pedir a comida e não fui desapontado, quatro pães deliciosos acompanhados de salada verde com tomates, pimenta vermelha fresca, pimenta verde (não picante porém saborosa) e sobre arroz e batatinhas, um Kebab de carneiro feito na brasa intercalando carne e cubinhos da gordura do bicho. Olhando o prato todo, parecia pouca comida, comendo, foi um banquete.


Vi os turcos fazendo suas orações nas Mesquitas, onde geralmente são também as tumbas dos Sultões, o mercado com azeitonas, queijos, temperos era simplesmente de fazer o coração acelerar, não se consegue não provar um pouco de tudo.
Parece que ninguém trabalha às vezes, estão todos reunidos nas portas dos comércios, cafés e tendas locais em grupos de homens, tomando chá, fumando e batendo papo.

O sonho termina hoje, quando zarpamos novamente com destino final em Veneza, Istambul é misteriosa, seus cheiros e cores são demais.
No trabalho, me frustrei quando a minha mudança de estação de trabalho furou, ainda penso em homicídio e tento não pensar nos doze cruzeiros à frente, dei um leve tapa com luva de pelica no chef executivo hoje e passei a manhã enfurecido com falsas promessas e falta de coragem dele em dizer que estava não me mudando para posições melhores, quando minha vontade era enfiar um espeto de frango do tamanho da minha perna na cabeça dele e torcer. Stress ? Nem vou começar.

Em compensação, isso automaticamente ligou o meu foda-se, trabalhei como se não houvesse amanhã, após ter ido perguntar o que seria de mim e descobrir que de verdade, não importa o suficiente para ser comunicado que as coisas não vão mudar ou que talvez eu gostaria de saber onde trabalhar de manhã, a situação ganha perspectivas engraçadas, ou nenhuma, a não ser de que estarei fazendo as mesmas tarefas chatas mais dois meses como um assistente qualquer.

Vou voltar à masmorra agora. 60 dias após, ainda odeio estar dentro do navio.

quarta-feira, abril 30, 2008

Fotografia.

Photograph.

Fotografia.

Em minhas parcas horas livres, eu me sento com meu Ipod ligado no Crew Mess (cafeteria) entornando xícaras de café e sento-me num cantinho para evitar contato visual e verbal com as pessoas, sobretudo d manhã, quando me sinto cansado e nem comecei minha jornada de 10 horas ou mais, nesses minutos eu penso na vida e tomo minhas decisões, avalio meus atos e me arrependo de algumas coisas como qualquer mortal. Qualquer tentativa de me trazer de volta à realidade é retornada com um rosnado curto e grosso, visto que é um dos únicos momentos em que me sinto à vontade comigo mesmo.
Estava ouvindo Moby, Porcelain – e me transportei para as praias de Bali, senti o cheiro e sabor daquele lugar novamente, os cheiros do restaurante ond trabalhava na época, do produto que usava para limpar as mesas à tarde, da casa em que morava em Auckland e das pessoas que estavam ao meu redor. A vida não era um mar de rosas naquela época, mas lembro-me com satisfação estes momentos como s tivesse sido o cara mais feliz do mundo, fantasio que tinha mais dinheiro e disposição (talvez tivesse) e que as pessoas eram mais gentis... ...penso se vou me lembrar desta experiência com o mesmo carinho, mas eu sinceramente acho que não, vou lembrar e deixar como uma coisa que fiz apenas, talvez para ter o que contar para os outros, como se gabar de trabalhar feito um jumento por uma grana pífia fosse alguma coisa para se gabar sobre.
Qual será a música que ma fará lembrar daqui ?

Este cruzeiro eu já estou mais habituado, menos sensível as pessoas e mais cansado, sobretudo até porque estão já comparando este cruzeiro aos do ano novo e isso não pode ser nada bom.

Olho para os dois meses atrás e sinto tão distante, assim como olho para os seis restantes sem de verdade enxergar o fim deles, estou à deriva e não sei para onde nadar mas dizem que a partir de quatro meses (!) a coisa começa a ficar fácil, o que duvido muito e não sou otimista por natureza – tudo neste emprego é esperar pelo pior, desde o treinamento medico até o de resgate e administração de pessoas em situação de emergência todos adquirimos aquele olhar de “espero pelo pior, eu vi o pior” e isso faz de nós a equipe que te sorri enquanto troca aquele prato que você não gostou por ter cebolas – sabemos que se você engasgar, sua vida vai depender do nosso treinamento em Heinmlich ou seja lá como chama a manobra. E se isso acontecer, nossos passageiros ainda podem nos processar, oh vida.

Mas voltando ao assunto, fotos me vêem à cabeça enquanto as músicas passam, pessoas e lugares, nada aprisiona mais o futuro às vezes do que o passado e apesar de estar nesta posição de incerteza os tais seis meses não me parecem perto, mas possíveis apenas.

Tive que tomar a decisão de deixar o Brasil para trás, estava com um pé no barco e outro na terra, o barco se afastando cada vez mais e eu quase caindo na água para me afogar, disse tchau para o Brasil e decidi entrar de vez no barco, o Brasil, a minha cidade, os rostos das pessoas, difícil conviver com o Brasil, difícil deixa-lo.

A dor da saudade e do arrependimento diminuem um pouco a cada dia, parece que ficamos mais entorpecidos por esta vida e pelo trabalho sem perceber, o que me traz de volta à vida são as paradas em que posso descer e apreciar a vista, parece que nunca mais vou voltar à bordo e hey, terei 5 horas para ver Roma este cruzeiro por um milagre. No próximo cruzeiro estarei em posições novas na cozinha e vou mudar de restaurante à noite, onde terei um grelha só para mim, dizem que é minha chance o que pode até ser, mas não quero fazer carreira aqui de jeito nenhum. Por mim, podem me por pendurado no mastro cozinhando tartufos bianchi e lagostins que não dou a menor, mas me livrar da tortura de Bombay vai ser um puta passo em direção ao final deste contrato.

Não posso apagar o Brasil, não posso desistir daqui agora, não corra, não mate não morra.

Todos os dias que aprendo um prato novo,imagino se seria legal cozinha-lo para meus amgos no Brasil, quem iria adorar, etc... Ainda estou muito apegado à tudo lá, mas um certo desapego se az necessário para a sobrevivência em ouros lugares, países, cidades e decisões – este é um divórcio difícil, até porque ambas as partes estão exigindo muito... ...eu queria tudo.

domingo, abril 27, 2008

Tem dias e dias. Um so, para falar a verdade. Stuck in a Moment.

Barcelona foi uma decepcao dupla para mim.

Eu simplesmente amo olhar, falar o nome de Barcelona mas a verdade eh que nao pus os pes na cidade ainda, uma vez era minha cor (nao pode descer no dia que tem tal cor marcada no seu cartao de seguranca) na outra, eu achei que estariamos atracados longe da cidade e ao inves de acordar cedo eu passei as tres horas de folga dormindo de manha, para descobrir que estavamos atracados a cinco minutos do centro quase me matou, fora que em Barcelona a tripulacao que termina o contrato desce quase toda juntos e a cada tchau eu pensava "porque nao sou eu ?" e com algumas pessoas eu disse tchau com lagrimas nos olhos pois odeio despedidas principalmente porque eu quero deseperadamente que meu dia de ir embora sem olhar para tras chegue logo.

Todos os dias aqui parecem segunda feira, e todas as noites parecem domingo sem que saibamos que dia estamos do mes, da semana e as vezes em qual porto atracamos - parece estarmos vivendo o mesmo dia continuamente em um infinito espiral que termina quando voce fala "adeus" e caminha com suas malas para o futuro incerto porem mais interessante que este eterno estatico em que estamos. Somos todos cegos perante ao mundo que se desdobra diante de nos, apesar de estarmos em todo lugar e lugar algum.

Por mais que eu tente fazer de cada dia unico, cada vez mais eles se repetem e se entrelacam pelos mesmos menus, lugares, roupas, cheiros, pessoas. Eu simplesmente nao consigo pensar que as coisas possam ficar muito mais interessantes que isso e preciso ter paciencia com o que nao move ou da sinais de se mover, essa passividade me irrita as vezes, quero esmurrar alguem no nariz para agitar as coisas, correr nu pela cozinha (evitando areas quentes e de fritura por favor) pois estou cansado de pensar todos os dias as mesmas coisas, as mesmas saudades, quero ter saudades diferentes tambem e quero muito mais da vida do que passar os ultimos anos da juventude trancafiado neste sonho as avessas... minhas expectativas sao bem maiores que isto aqui, minha vida tem que ser mais ampla que este vazio todo que sinto.

Parece que estou preso em um momento e nao consigo sair, como diz a musica.
E como diz a musica, vai passar. A dor que senti eu nao vou esquecer, mas que vai passar, isso vai.

PS: credo, to serio hoje.

sábado, abril 26, 2008

Ray of Light


Eu vi a luz, amigos.

A luz, estava la, brilhante e ofuscante e essa luz esta mais perto de mim do que eu imaginava - Monaco eh luz companheiros, eu nasci para estar em Monaco e nao queria sair de la por nada neste mundo.
Tudo acontece muito rapido em Monaco, as pessoas passando, os carros, a F1, os barcos, avioes, luzes, lojas...

Ao deixar o porto eu nao esperava tanto assim, confesso, mas o pouco que vi de Monaco me deslumbrou, as arquibancadas e boxes da F1 ja estavam sendo montados, os iates ja estacionados no porto para poderem ter a vista da corrida (que eh so no mes que vem) alem das pessoas, as lojas (carissimas) e o melhor sorvete que ja tomei na vida estao todos aqui, me empolguei tanto que comprei o bone oficial da escuderia Ferrari para meu irmao pela bagatela de 32 euros (melhor nao pensar muito nisso) joguem minhas cinzas em Monaco e aproveitem a viagem,por favor.

Os carros passando, Ferraris Tunadas, Bentleys, Porshes, as pessoas cheiram a dinheiro, carregam suas sacolas das lojas carissimas batendo papo e carregando um poodle dentro de uma Louis Vuitton (de verdade, nao da 25 sua pobre !) e falando ao celular, estranho como todos parecem estar falando ao celular naquelas ruas, essas pessoas ricas sao muito ocupadas, Deus me livre ser milionario e poder comprar o que eu quiser (neste momento, tive um flash, eu riquissimo, comprando este navio so para ter o prazer de afunda-lo enquanto todo staff enche a cara de champagne) nao, nao desejo isso para ninguem, qual a graca de ser rico ? Ir para Monaco seria uma delas.
Eu moraria em Monaco, para o resto de minha vida.


De volta a dura realidade do navio, cheguei ao trabalho nem ligando se estava certo ou errado, assim ou assado, meu CDP pode dar piruetas e morder as minhas orelhas que minha alegria nao poderia ser estragada, com certeza. Pena que alegria de pobre dura pouco, pois a noite que tive no Polo Grill foi simplesmente avassadora, estrupraram nossas geladeiras, servimos comida ate nao termos mais quase nada para servir, minhas maos suavam e ardiam, o suor pingando de meu rosto enquanto sentia as veias de minha testa dilatadas pelo calor da area de trabalho (uns 50 graus) mais a correria dos movimentos constantes e corridas entre geladeiras e fornos em busca de mais ingredientes e reposicao - gritos, urros, berros e sussurros foram proferidos mas todos vencemos a batalha com vida, obrigado. Mais uma comanda e sairia daquela cozinha com uma faca de 60 cms. dizimando os passageiros, seria uma carnificina e tanto. Deus teve pena deles.

Mais e mais pessoas estao indo embora para suas ferias (ou suas vidas verdadeiras, sei la) e eu ficando sempre, parece sempre que eu sou o proximo apesar de saber que isso vai demorar mais seis meses, ainda tenho dias de pura depressao como hoje, esta tarde tudo que queria era chorar e chorar, ou esmurrar alguem, ou pedir demissao e desistir desta merda toda que ninguem merece.

O trabalho eh a mesma merda, nao importa que eu faca tudo certo, ou nao, meu CDP ainda gosta de me ferrar, dar bronca, achar que faco tudo errado (nao do jeito dele) e agora insinua que eu nao quero aprender a fazer mais por preguica, quase mandei ele a merda, mas me contive e segui em frente, ele eh a unica coisa entre eu e a Europa neste momento, entao firmeza ate Novembro e preparo para minhas ferias.

O tempo na verdade passa muito rapido por aqui, sao quase dois meses, apesar de haver momentos em que parece tudo estatico, mas a correria daqui, o Sol nasce e se poe sem que eu veja, as cozinhas, as pessoas andando sem parar, indo e voltando de ferias, os passageiros saem e entram, malas entopem os corredores e minutos depois sumiram e foram despachadas para seus donos, as luzes das maquinas do cassino, os pratos passando pelas lampadas aquecedoras, os garcons e suas bandeijas...

Like a Ray of light.


Quero agradecer a todos que deixam comentarios no Blog, Tocha, Guz, Laura (muito prazer) e reafirmar morte sangrenta e doentia a todos que nao me escrevem por puro prazer em me torturar. Como digo, que as pulgas de mil camelos piquem o c# de voces.

Ate mais !

sábado, abril 19, 2008

Like a Virgin.



Like a virgin, touched for the very first time...

Quando eu canto essa musica saindo da area de lavagem de equipamentos (onde ficam assadeiras, panelas, etc...) algumas pessoas ja sabem de uma coisa - vale saber que as assadeiras e demais utensilios estao sempre em falta e sao disputados a tapa pelos cozinheiros - que em minha pressa, peguei a primeira assadeira abandonada e joguei na pia de agua quente porcamente, dei um tapa e sai com ela nas maos "like a virgin... huh.. " mas ate me deu o que pensar hoje, sobre como estamos sempre recomecando tudo do zero. Entrei nesta cozinha e tive que aprender a andar com um navio em movimento, falar o idioma local (que definitivamente nao eh so ingles, varias palavras e girias internas) e saber o que sao as coisas e onde encontra-las assim como um bebe descobre o mundo, e da pior maneira possivel, caindo, batendo e balbuciando sem conseguir se comunicar.

Aos 32 anos, recomecar tudo e decidir por uma (nao muito promissora) profissao eh simplesmente muita bravura ou burrice, talvez um pouco de ambos, confesso. Mas hoje em dia, estou mais integrado ao navio e nao tenho mais acessos de depressao tampouco tenho vontade de pular na agua e alimentar os felizes tubaroes (nem tao felizes, pois perdi dez quilos durante estes meses e tive um reencontro inesperado com minhas costelas) mas agora eu consigo ver possibilidades e para falar a verdade, nao me mato, nao corro sem necessidade nem estou nem ai para as advertencias que levo diariamente (as vezes nao estou devidamente barbeado,esqueci alguma coisa de minima inportancia..) mas foda-se, a bronca eh a mesma entao tocarei minha vida nessa carruagem louca e desenfreada que e a cozinha.

Meu relacionamento com meu Chef de Partie melhorou, hoje em dia estamos em lua-de-mel com ocasionais episodios de furia (era o oposto) estou mais disciplinado e minha atitude em relacao as coisas aqui esta mudando tambem, estou menos combativo e mais paciente e na verdade nao dou uma merda para o que pensam de mim - realizei que o meu sozinho, a solidao que sentia aqui e uma solidao boa, um tempo para me conhecer melhor e para aprender a aturar as agruras da vida, essa puta ingrata que vezes te acaricia com uma leve brisa, ou outras com uma lixa metalica no traseiro.
Hoje, paramos em Malta de novo e desta vez decidi descer e andar, tudo que queria era andar e andar assim como Forrest Gump, sem destino e sem uma so pessoa perturbando minha cabeca (que ultimamente eh um bairro barra pesada, voce nao gostaria de entrar la a noite) e fui contente da vida pelas ruas desertas de Malta com meu Ipod e oculos escuros enfiado em um bermudao e havaianas. Andei pelo centro onde parei e tomei os dois melhores cafes da minha vida, vi Igrejas, pracas, monumentos, tudo que poderia em duas horas e pouco. Parei no charmoso porto de malta e pedi uma limonada com bastante gelo lendo minha recem-comprada Vanity Fair enquanto apreciava a vista do fim de tarde, o fato de ter que ir trabalhar em meia hora desta vez nao estragou o momento, foda-se o que venha depois disso, tudo compensa - parei na Duty Free e comprei tambem uma garrafa de vinho local, so nao enchi a cara porque dai fica ruim trabalhar, mas que a vontade de tomar uma cerveja bem gelada so para implicar era grande, ah isso era. Mal poderia acreditar que em meia hora, estaria chutando coisas, gritando com pessoas, fazendo frigideiras voarem e carregando kilos e kilos de frango para assar, nao, hoje esses momentos nao existiriam, nem o maldito acougueiro poderia destruir meu bom humor, nem a banda KY, nada alem do ceu desabar em minha cabeca... eram so eu e Malta, pela primeira vez em tempos estava sozinho e feliz. Pessoas me perturbam. Geralmente.

Andei por mais de uma hora, sem parar, vendo as casas e castelos, ruinas, pracas, tudo a minha volta tinha aquele tom de dourado que nao sei explicar, os turistas so poluiam a minha visao perfeita. Amanha, estarei pronto para mais um porto, mais um sonho, errante e intrinseco rumo ao resto do mundo. Sozinho.

Feliz por isso.

quarta-feira, abril 16, 2008

KY, e mais.

Bem, estou comecando a me sentir um pouco pior a cada dia, mas amanha sempre chega, quer queira ou nao.

Estavamos no bar do navio (dos empregados, bem dito) eu e o Ciryl, quando sou interrompido por um som estranho, estridente e sem nexo, luzes surgiram de algum lugar distante, os sons ficavam mais agudos, desafinados e sem nexo - me virei procurando a pessoa que deveria estar batendo um saco de gatos na parede quando me deparo com uma figura no telao, extravagante, lustrosa ate, cabelos esvoacando para todos os lados como uma medusa transloucada pelo proprio poder devastador.
Quando pude enfim decifrar o embaramado de cores e sons, pude perceber que algum filho da puta comprou um DVD da Banda Calypso e estava passando no DVD do bar nas maximas alturas. Quando o chef em questao perguntou que raios era aquilo, contive minha sincope iminente e me desculpei profundamente por aquela coisa ser brasileira.
Esse povo deve achar que nao estava me torturando o bastante, penso.

Vou pro bar agora, espero que a banda KY nao esteja por la, Hell no, eu nao mereco.

quarta-feira, abril 09, 2008

Europa.

Bem, ja estavamos na Europa, apenas nao levamos "vida normal" se eh que isso eh possivel aqui.
Estava desejando muito a Europa, diziam que as coisas melhoram consideravelmente quando chegassemos no velho continente entao, como nao havia como as coisas piorarem, pensei, so devem melhorar - ledo engano.
O cruzeiro comecou, os passageiros estavam embarcando e erroneamente eu perdi a chance de acordar mais tarde (dias de embarque eu comeco as 11 da manha) gracas a uma tabela errada, entao este cruzeiro nao comecou muito bem para mim, posso dizer com certeza. Trabalhando eu sou um desastre, a pressao eh constante e meu stress bate nas alturas, tropeco, derrubo, caio, parece que nunca fiz nada em minha vida que exigisse um minimo de coordenacao e ja sou conhecido por isso.
"Prontos para quatro horas de agonizante prazer ?" eh a frase que falei a todos quando cheguei para a primeira noite de volta ao Polo Grill, o servico eh intenso ate as 10 horas da noite, como se nao bastasse trabalhar o dia todo como uma mula ainda somos massacrados no jantar e a presenca do chef executivo no local durante o servico nao tem ajudado muito nossa confianca e entusiasmo pois, gostamos de atalhos, caminhos mais rapidos de se obter comida pronta, truques basicos e picaretagens para ter que trabalhar menos porem, quando o chef esta presente, tudo tem que ser a la minute - do zero, o que nos exige mais tempo,atencao e cuidado redobrado quando se cozinha uma variedade imensa de opcoes.
Minha auto-confianca esta muito, muito abalada e meu medo de cometer erros fazem com que eu paralise muitas vezes por dia, eu fico completamente estupido e sem reacao diante de gritos e gente se atropelando. Estou realmente numa canoa furada.
As saudades de casa, dos amigos e da antiga vida esta comecando a atrapalhar meus pensamentos tambem, algumas horas estou choroso e so quero voltar para casa, em outras, estou no topo do mundo (principalmente quando consigo nao fazer nada errado).
Algumas novidades foram um sopro de vida nessa vila de zumbis, uma eh o Sous Chef Executivo Cyril, frances que odeia a Franca e qualquer coisa relacionada a ela (?), mora na Australia e parece simplesmente insano, quase todas as noites, paro no bar para tomar uma Heineken com ele enquanto ele fala sobre os podres da esfera mais alta da cozinha, divertidissimo, principalmente se considerar que ele eh um cara magrela, branquelo e com oculos espessos - seria um daqueles nerds da escola que depois resolveu entrar para o time dos chefs e descobriu a sacanagem da vida ? Penso em varias coisas mas nao chego a uma conclusao.
Amigos fazemos diariamente aqui, de verdade, muito poucas pessoas realmente se importam com voce e a ordem ainda eh a sobrevivencia - o que eh diferente para mim por escolher estar aqui, nao sobrevivo deste trabalho (enquanto pensar assim, posso sobreviver) mas a verdade eh que tenho andado deprimido, fora de prumo e com pena de mim mesmo, o que eh estupido pois para comecar, fui eu quem quis entrar nesta roubada entao melhor aguentar de boca calada e pronto.
Hoje, o chef executivo chamou para saber meu feedback e minha vontade era falar "Isso aqui eh uma merda, eu odeio trabalhar aqui para voces, com voces, e isso aqui nao eh nem comida de verdade na maior parte das vezes" o que foi sabiamente substituido por um "bom". Mas quando ele perguntou se eu sabia o menu diario, se meu chef de partie (a tortura) me poe a par dos acontecimentos diarios e se eu poderia descrever o menu de hoje, tive que falar que nao sabia, so sabia o basico diario e nao tinha ideia do que estaria cozinhando a cada dia. Ai, ele chamou meu chef torturador, ele foi avisado a me explicar tin-tim por tintim cada acontecimento e o que deveria fazer a cada passo do dia. Ele nao esta contente e acha que eu fui "dedura-lo", o que significa que nao vai ficar sem retaliacao e temo pela minha vida daqui pra frente, ele acha que dei corda e quer me enforcar com ela.
So por Deus.

terça-feira, abril 08, 2008

E mais...

Bem, Marselhe foi trabalho duro, mas teve seus momentos de graca,

Fui a cidade na segunda noite, para ver a tal de Marselhe e a Franca, pelo menos um pequeno pedaco desse lugar - desci da van de transporte do navio e me vi em um porto circundado por restaurantes, lojas, e charmosos iates parados em torno da pequena bahia. Escolhi um pequeno cafe em torno de uma praca belissima, pedi uma taca de vinho tinto e abri meu livro e fiquei assistindo a vida passar diante de meus olhos enquanto saboreava meu vinho (o mais barato, mas... ...tudo frances, nao eh ?) e aproveitei para provar (estava dando sopa no balcao) o melhor foie Gras da minha vida, era o sabor da felicidade, enquanto andava pelas ruas estreitas do centro da cidade.
Parei em um Pub local para uma cerveja - o pub eh igual a qualquer outro no mundo, esfumacado, feito de madeira e TVs semre ligada nos esportes locais e internacionais quando encontrei o chef da patisserie sentado sozinho. Pegamos nossas cervejas e fomos para umas das mesas do lado de fora e logo estavamos entrosados em um grupo de locais que pagaram Guinesses a noite toda, me fodeu o dia seguinte mas valeu a pena.
Os proximos dias de Marselhe foram nada mais que puro sacrificio e escravidao, vivia imundo, a lavanderia nao estava funcionando (e minhas roupas acabando) ficamos sem TV, internet, agua as vezes... ...eramos quase naufragos.
Ai, acabou, meu corpo e mente doloridos nao acreditavam, mas o pior ainda estava por vir.

sábado, março 29, 2008

Marselhe - cortem algumas cabecas...

Estamos, enfim, em Marselhe na Franca.

Chegamos em um misto de ansiedade, excitacao e principalmente cansados da travessia que pareceu exaurir a todos a bordo - acordamos com as encostas semi-aridas de Marselhe na Provenca e o Sol a nos brindar com um dos dias mais belos que ja vimos desde nossa partida, minha cabeca estava latejante pelo excesso de cerveja da noite anterior mas combinamos estar as sete e meia da manha a postos no deck da piscina pois durante um Dry Dock, somos designados a ocupar posicoes diferentes para terminar a reforma e dar suporte aos construtores que vem dos quatro cantos do mundo para realizar uma reconstrucao total em dez dias (parece um show de TV? Claro...) mas apesar do Sol, o vento frio de Marselhe e simplesmente cortante. Esperavamos excitadissimos nossas tarefas de construtores quando chegararam os primeiros guindastes do lado de fora para descarregar rolos e mais rolos de carpete, aparentemente, o navio recebera mais carpete brega para complementar os que ja possuia; os rolos sao trazidos de guindaste ate o deck da piscina e quando chegam ao topo e nossa tarefa, grudar na merda dos rolos pendurados, posicionar de maneira a nao obstruir o caminho e poder rolar o desgracado ate o lugar certo (pesa quase uma tonelada cada) retirar as cintas que o prendem, colocar os suportes de madeira e rolar os danados em cima dos suportes. Apos 30 deles, a vida comecava a perder o sentido, queria matar pessoas, suava, corria, em uma das descargas, tres rolos pousavam em sentido atravessado a pilha que ja estava no chao (fazendo com que rolassem e esmagassem a piscina) me fazendo correr ate o topo dos rolos, endireitar (no ar) a posicao de descendencia e soltar as tiras. Quando soltei as tiras, os tres rolos cairam sobre os dez outros abaixo, me fazendo pular rolos de toneladas em movimento ate o chao como um game do Mario Bros. Suei. Continua...

segunda-feira, março 24, 2008

Deu Zebra.

Imagine uma Zebra,

Seu pelo reluzindo ao Sol africano, suas patas fortes e sua pele macia brilham ao forte Sol dos estepes enquanto corre livre, leve e solta em busca de folhas e agua para se refrescar em um espetaculo de liberdade e leveza.
Agora, pensem na mesma zebra, sendo atacada por hienas, desesperadas, selvagens, em busca de comida e sangue - acuada lentamente pelas mais fortes, elas atacam primeiro as partes mais tenras como coxas, lombo e peito ate que o animal entrega-se e as demais oportunistas, de todos os tamanhos e tipos entrem para dilacerar visceras, entranhas, rins e figado em um espetaculo sangrento pela sobrevivencia.
A cozinha central do navio assemelha-se principalmente nos Domingos de manha e tarde, quando o brunch eh servido. Tentei em vao, juntar-me a linha de frente sem sucesso - os chefs Asiaticos e Indianos agrupam-se sobre a comida e montam os pratos como se suas vidas dependessem disso, movem-se erroneamente sem tarefa, instrucoes ou ordenacao certa como as hienas, deseperados por destaque (e promocoes) eles fazem qualquer negocio e nao toleram erros. E ai que eu entro.
Como novo integrante, eu recebo advertencias no minimo estranhas, sobre coisas das quais supostamente nao sei, mas eles adoram chamar a minha atencao e alguns nervos ciumentos ja estao expostos, mas a verdade mesmo, eh que eu sei que sou preferido para certos cargos pois, como disse o sous-chef executivo "voce vai receber merda destes caras sempre, pois voce eh branco". A mais pura verdade, especialmente quando quem decide quem levara as promocoes eh frances.
Anteontem foi um dia nada ortodoxo, primeiro tivemos o brunch de Pascoa que quase nos levou a loucura, a tarde foi anormalmente ocupada e a noite fomos atingidos por volta das 20:00 horas, comandas entravam e entravam, nosso novo chef italiano berrava a 180 Dbs simplesmente porque alem de grosso, o idiota tem uma voz de tenor fudida, chega a estremecer o inox da bancada e pelas oito meia, os alto-falantes emitiam o Codigo Mike, que significa emergencia medica, ocorrendo no salao do Grand Dining. Quando somos admitidos no navio, cada um recebe uma incumbencia especial de seguranca, ou voce vira bombeiro, seguranca, tecnico... ..ou da equipe medica, como eu. Recebemos treinamento a bordo e como tudo mais aqui, consiste em esperar sempre pelo pior (e nao se decepcionar, claro).
Ao ouvir o chamado, sai correndo, larguei avental, frigideira e fui ate o Grand Dining onde as pessoas embasbacadas esperando por mesas na porta e demais comensais abriam caminho para dez pessoas em atendimento sendo que apenas duas nao estavam em uniformes de chef (agora aquela gente deve ter certeza que medicos sao todos acougueiros) e la estava no chao, desacordado, um senhor de mais ou menos oitenta anos estabacado no chao, com um pouco de remorso rezei internamente para nao ter sido culpa da comida e se fosse, que seja um osso entalado na goela e a culpa teria sido totalmente do passageiro - mas pelo estado avancado de idade, diria que qualquer coisa podia mata-lo, desde uma porcao de pimenta ate uma leve brisa encanada que provocaria uma pneumonia.
Colocamos o senhor na maca enquanto ele acordava, fizemos o check-ups de primeiros
socorros e ele insistia que poderia ir andando, e eu falava que era procedimento padrao sem sucesso de ser ouvido, fiquei com vontade de gritar "NAO PODEMOS PORQUE JA COLOCAMOS VOCE NA PORRA DA MACA,JA ENCOSTAMOS EM VOCE E SE NASCER UMA ESPINHA EM SEU ROSTO< SOMOS OS RESPONSAVEIS", nao me levem a mal, mas tem uns velhinhos que vem para este cruzeiro que simplesmente nao tiveram a decencia de morrer, eh preciso que venha junto a familia toda para move-los, alimenta-los, etc... ...e ate agora, nao vi nenhum desses velhinhos de cadeira de rodas dar um leve esboco de sorriso.
Depois do Code Mike, voltei para meus afazeres e uma secao de acompanhamentos bastante complicada pela minha ausencia e os calos e bolhas em minha mao ja denunciam que stou de volta a cozinha.
Hoje, paramos em Barcelona e nao pude nem dar uma olhadela, estamos entrando em Dry Dock que significa ficarmos parados em Marselhe para manutencao por dez dias, mas isso nao significa moleza - temos que ajudar os contrutores, carregar coisas pesadas e descarregar (por exemplo) algumas toneladas de rolos de carpete do guindaste.
Barcelona, mesmo vista de longe teve um apelo quase erotico para mim, daria de tudo para descer e dar uma volta pela cidade, senti como se estivesse em frente a minha casa e nao pudesse entrar, cheguei a ficar deprimido ao pensar que Barcelona estava la, vivida e pulsante bem na minha cara e eu nao poderia nem tomar uma cerveja em qualquer bar local, pelo menos ate o proximo trajeto que inclui a cidade.
Muitas pessoas ja desembarcaram (da tripulacao) e outras estao chegando e os animos estao mais amenos com a chegada a Europa, meus nervos estao ainda sofrendo com esta coisa de navio mas eu nao me deixo derrotar ainda, decidi hoje que pretendo terminar este contrato e gastar meus ganhos como um marinheiro bebado viajando pela Europa, sabe-se la quando terei a oportunidade de fazer isso de novo. Quero viajar, comer, beber e dormir o quanto me agradar durante essa viagem, quero voltar um porco gordo e rosado, depois dormir umas 45 horas direto em minha cama no Brasil.

sábado, março 22, 2008

Agadir.

Hoje, paramos em Agadir.

O navio em seu balanco costumeiro me deu bom dia, acordei ja me sentindo cansado pois tive uma noite de sono conturbada - sonhei com pessoas que nao vejo ha muito tempo, sonhei com pessoas que vi ha pouco e tudo misturado (ninguem daqui do navio, pelo menos) mas o dia prometia ser agitado de certa forma, fora a minha conviccao de sair dar uma olhadela em Agadir, a perola do Marrocos.
A manha, como de costume foi complicada e meu nariz escorrendo nao ajudaram (nem a dormir, tambem) mas fui salvo as 10:15hs por um treinamento de emergencia - meu supervisor disse que nao precisava voltar entao iria vagabundar ate as 12:00hs. pelo menos. Nao menos feliz, cruzei logo em seguida com o chef do deck 9 dizendo-me para comecar as duas ao inves da meio-dia, quatro horas de folga !!! Pensei comigo, esta eh a hora e nao deixarei passar, voei para minha cabine, me troquei e la fui eu de bermudao e camiseta ao sol do Marrocos. Sai do gangway (escada) e fiquei pasmo pelas montanhas semi-aridas, as formacoes... ...e pela inexistencia de um porto de verdade, daqueles com lojas, etc... ..apenas conteiners jogados ao leu.
Havia Yuli, uma chef francesa e um rapaz negro, pegando um taxi e logo que me viram me chamaram para rachar a despesa. Saimos do porto em direcao aos Suks, feiras e mercados ao ar livre e no caminho vimos predios impressionantes, mesquitas, burcas e mini-saias entre uma colisao entre o antigo mundo islamico e o nosso moderno ocidental, carros muito antigos em meio a SUVs, tudo ao mesmo tempo agora.
Agadir foi deastada por um terremoto em 1968 e 3/4 da cidade foi ao chao, deixando 15.000 mortos e ate hoje parece estar em reconstrucao.
O mais legal, foi o mercado - cercado por muralhas que parecem berberes, um forte, tem mais de 6km de extensao dentre barracas que vendem quase de tudo, roupas, temperos, sapatos, eletronicos, etc...
Um rapaz se apresentou como guia, e querendo nossos dolares foi mais que prestativo, comprei sabonetes (barras enormes e deliciosas), pasta de dentes Colgate e hidradante e desodorante a uma quantia irrisoria.
Ao final nao resisti e vi uma bolsa de viagem Louis Vuitton, o comerciante queria US$ 45 e eu tinha apenas US$ 40 no bolso sendo que 10 eram destinados ao taxi; apos alguma conversa, ele nao querendo, eu querendo mas fingindo que nao queria, dei as costas e ele arregou me deixando com uma linda bolsa de viagem (meio feminina, eh verdade) que sera util tanto para carregar minha tralha quanto para um belo presente para alguem mais tarde (iria ficar ridiculo eu andando com aquela coisa por ai o tempo todo), mas a verdade eh que a bolsa eh simplesmente tao boa quanto a original - os comerciantes preferem morrer a vender porcaria, descobri. Pena que so la mesmo...
Voltamos com a sensacao de missao cumprida e eu com um pouco de nocao sobre o que estou fazendo aqui nesta jossa ambulante - alguma coisa vai valer a pena eventualmente.
Depois de amanha, Barcelona e dez dias em marselhe para manutencao, quando nao teremos passageiros.

Um barato total este tal de viajar, pena que nao dura muito.

sexta-feira, março 21, 2008


Eu e a Pats no casamento da amiga dela. Amei essa foto.

Como uma onda...

Se voces acham que trabalhar em uma cozinha ja eh conturbado, tente em uma cozinha se movendo lateralmente - hoje o mar esta agitado, e claro, bem na hora do jantar - panelas escorregando, transbordando nas chapas (nao tem chama, pois eh um navio lembra ?so chapas eletricas) utensilios desaparecendo e um assistente de cozinha paquidermico que normalmente, enquanto grita em hindu o tempo todo ja se acotovela em mim, praticamente me arremesando atraves da estreita linha de fogoes, na proxima vou segurar um garfo de churrasco o tempo todo. Aquele balofo simplesmente nao cabe em uma cozinha.
Na real, o cenario eh bizarro, hilariante, todos tentando fingir que nada esta acontecendo e tentando colocar os steaks nos pratos fugitivos, sabem aquele brinquedinho em que voce fica com uma marreta tentando acertar as cabecas dos bichinhos ? Parecido.
Agora, tenho que me embebedar e ir dormir, amanha chegaremos em Agadir/Marrocos e tenho que descer pelo menos para tomar um cafe do lado de fora e voltar ao trabalho.

Estou em meu uniforme imundo, descabelado e rindo pra cacete ainda...

Coracao, deixe na porta.

Para se viver em um navio, voce deve deixar certas coisas na porta;

Seu passaporte (voce achou que pode simplesmente desertar um navio?) que eles seguram para poder tambem informar as imigracoes, sua assinatura em varios papeis e pasmem, seu coracao e sua identidade, personalidade e tudo que faz de voce... ...voce. Mas as suas bolas sao bem-vindas a bordo, muito obrigado.
Depois de dias ralando, deprimido, chorando e sentindo pena de mim mesmo (eu sou o rei do drama), eu estou um pouco mais rapido no trabalho, ja sei aonde algumas coisas ficam e ate esta ficando mais facil sem contar a dor-de-garganta de ontem com leves toques de gripe (esta, que esta dizimando o staff da cozinha) mas ontem eu resolvi dormir mais cedo e hoje o dia nasceu mais feliz por varias razoes.
A primeira, foi logo de manha, quando fui ate o acougue buscar as carnes (ainda tropecando e sonolento) e o acougueiro com cara de poucos amigos (de vez em quando ele eh extremamente amigavel, outras, nem tanto) e quando fui pegar a bendeija errada ele veio com tudo para cima de mim, falei que estava sonolento por causa da gripe e ele disse que nao se importava com minha gripe, que as coisas eram diferentes aqui. Ao trabalhar logo apos disso, senti raiva. Muita Raiva.
Depois minha cabecinha que anda por lugares estranhos e desaconselhaveis, comecou a processar a informacao - esse povo (Asia/Filipinas e India) nao tem o mesmo senso de humor, nao se importam com ninguem e por isso tranformam o ambiente de trabalho aqui um lixo, nao sabem se divertir e trabalhar como todo o resto da humanidade, entao cheguei a conclusao que eles nao merecem um cara legal, nao querem, merecem sim um belo pontape de vez em quando e a partir disso, relaxei. Tive a manha mais calma desde que cheguei.
Ao trabalhar com meus colegas de lancheteria na piscina, simplesmente fiquei fazendo o que sou permitido fazer (por eles, bem-entendido) e fiquei repondo estoque, fazendo guarnicoes de prato e pasmem, cortando pao como se nada estivesse acontecendo. Eles trabalham desesperados, como se o mundo fosse acabar - na verdade como micos amestrados, mude uma palha do caminho e pronto ! enlouquecem a eles e a quem estiver em volta. Na verdade, o que fazem eh patronagem das brabas.
Inclusive, uma brasileira a bordo passou por la para saber como eu estava, ontem ela havia me visto no mais sombrio dos humores e hoje ela queria saber como estava, e ai mora a diferenca entre nos e eles, a solidariedade. Deus a abencoe, ela nao sabe o quanto me fez bem.
Temos um novo head-chef italiano para as tardes na lancheteria e no Polo Grill, e para minha infelicidade ele fala portugues (um pouco), pois ele geralmente fala aos gritos e naturalmente eh grosso e mal-educado. Outro dia, ele entrou no meio do servico da lancheteria lotada (sim, ele entra NO MEIO de nos) e comecou com a costumeira falacao e gritaria conosco, sem o menor pudor. Quando um dos clientes analisando a cena disse para ele pegar leve, ele disse "sou italiano, meu jeito eh assim, sabe ?" - pensei na hora, como sou italiano, tenho o direito de ser um cuzao, sabe ?"...
A noite, ele entra NO MEIO DA AREA DE COZINHA, e sai provando tudo com sua colherzinha para ver se esta do seu agrado, mas para sua salvacao, ele esta apenas se defendendo. Quero que ele se ferre, ele tenta me agradar agora pois eu nao olho para a cara dele.
Na verdade, tudo que eles querem sao seus culhoes, seja para te castrar ou para que voce os use para trabalhar, mas a verdade comeca quando se percebe que esta completamente so nesta cozinha dos infernos. Doulgas Ramsey daria gritinhos de pavor aqui dentro. Senhores, eu conheco o inferno e estou ardendo nele.
Agora... ...a parte do coracao, assim como meu passaporte, pegarei de volta na saida, para poder voltar para casa e usar com quem eu gosto.

quarta-feira, março 12, 2008

Ainda...

Ok, vou tentar contar o resto, nem lembro de onde parei...

Enfim, os primeiros dias sao de puro sofrimento e adaptacao - fiquei deprimido de cara ao ver as instalacoes e saber que trabalharia com mais um chef maniaco-maquiavelico-sadico, mas bola pra frente, afinal, sao oito meses e eles tem que passar rapido ! Trabalhei a tarde novamente na lancheteria da piscina e os corpos dos passageiros (todos acima dos 60 anos) constitui o que podemos chamar de show de horrores, eu fico olhando para os passageiros passarem e falo baixinho "fecha a camisa, cara, fecha..." enquanto preparo as saladas e hamburgueres (que na verdade, eh o chapeiro que faz). Mais duas horas na tortura de Bombai, e depois do break para o jantar, Polo Grill, que eu amo cada vez mais.
A noite, paramos no Rio, onde poderiamos descer para aproveitar a noite e visto que eu nao tinha nem um real em especie e nenhum caixa eletronico por perto, decidi ir com um amigo peruano tomar uma cervejinha no bar local (embaixo de uma zoninha local tambem) onde os especimes mais estranhos circulavam - nem os chefs que estavam ha meses no mar tiveram peito para encarar as prostitutas locais; a cerveja estava gelada, eu e o peruano comecamos a conversar e a vida comecava a fazer sentido.
Depois da decima garrafa, uma mesa de chefs decidiu me chamar para ser o interprete de prostitutas, trabalho pago com... ...mais cerveja. As duas e meia eu voltava quase carregado pelos meus colegas, cambaleando e trocando as palavras ingles/portugues como um site de traducao em crash - desabei na cama e so iria trabalhar as onze da manha, mas como a lavanderia fica aberta ate as oito tive que levantar e ir pegar um uniforme ( a ressaca era incrivel), dormi mais uma hora e fui tomar o cafe da lancheteria que poderia facilmente ser confundido com cha - consigo ver o fundo do copo (serio) e minha necessidade por cafeina diaria esta muito abaixo dos niveis aceitaveis. Apos tudo isso, voltei do Polo Grill para a tortura de Bombay e o chefe me pediu para cortar frango assado em pedacos, eu comecei a tirar as espinhas dorsais e ele ficou irritado sem motivo e de faca na mao, tentou arrancar a maldita ave de mim, ao passo que a faca enterrou a ponta em meu dedo indicador direito. A expressao de horror dele era impagavel, tentou segurar o meu braco, nao sabia como pedir desculpas e meu dedo comecou a sangrar por dentro da luva de latex - falei que nao era nada e ele ainda arrependido, no mesmo momento haviam dois chefs na mesma bancada estarrecidos e nao quis dar tanta atencao ao caso, simplesmente (e internamente irritado) catei a faca com toda a raiva e com tres poderosas batidas eu fatiava o frango em quatro pedacos.
Apos uma conversa franca, depois do incidente, ele pediu desculpas, falou que estava sob constante stress (o que concordo) e de la pra ca as coisas andam mais amenas com ele (talvez pelo medo de eu reportar o incidente, talvez por sincero arrependimento eu simplesmente nao dou a menor) mas a vida tem sido agradavel desde entao.
estou fazendo amigos, todos sabem que eu sou "o brasileiro" , unico na cozinha e as gracinhas, piadinhas, e etc... com minha nacionalidade pipocam quando eu passo.

A vida comeca a fazer sentido aqui, amanha, Salvador - parada overnight.

Que o Senhor do Bomfim me ajude.

segunda-feira, março 10, 2008

Enfim dentro das entranhas da baleia.

Enfim, cheguei em meu destino itinerante - O Insignia tem mais de 400 tripulantes, ate 800 passageiros e navega a 33 km/h, e o que voce tem a ver com isso ? Nada.
Ja eu, desde que cheguei foi uma depressao so, as instalacoes para empregados nada lembram as suntuosas suites dos passageiros, tenho certeza que em algum ponto alguem simplesmente disse "joga uma tinta ai e ta tudo certo".
Ao entrar, fiquei admirado com o numero de pessoas circulando para la e para ca (sempre muito depressa) e so tive tempo de arrumar minhas coisas e as cinco estar na cozinha. Meu armario lembra aqueles de clube, verde de metal e ja meio amassado pelos ocupantes anteriores.
Cheguei na cozinha central, meu chefe eh um indiano que nao tem a menor paciencia com meus dois anos sem pratica e tem derradeiros ataques de furia (problema dele) trabalho na beira da piscina a tarde e a noite em um restaurante chamado Polo Grill no topo do navio - o head chef eh o cara mais legal do mundo e um dos funcionarios me explicou tudo por etapas, ate que outro funcionario entrou no lugar do organizado e comecou a ferrar meu esquema - ele ate que eh legal, mas passa a noite inteira atropelando meus pedidos, chamando os acompanhamentos na hora errada e me dando esbarroes (ja esta estragando minha brincadeira, veja so) pois trabalhar ali eh o ponto alto do meu dia depois da hora de passar o cartao para ir dormir.
O bar do staff parece ate aquelas zoninhas de filme mexicano, pintada de laranja e azul marinho, tem espelhinhos na parede, luzinhas tipo de natal por todo lado e... bem, um terror, apesar de tudo ser bem barato por ali.
Hoje, por um exemplo, tive uma pessima manha com o indiano, depois passei a ter um pessimo dia servindo os clientes no buffet (peru, cortando e servindo de uniforme e boina, cacete, eu sou um cozinheiro !) se tivesse que dar mais um sorriso minha face quebrava, saindo diretamente para o jantar onde o desastrado caminhao fez da meu unico prazer em trabalhar, um pesadelo.
Penso todos os dias se vou aguentar, tenho que ser duro, tenho que ser forte - se conseguir fazer isso aqui, consigo tudo mas tem sempre um lado bom, os patroes (chefes de hierarquia) sao todos muito gente fina, pois chefe ruim ninguem merece.
Tenho que ir dormir agora, espero ter tempo para escrever mais, tenho mais coisa para contar logo....

Vou dormir, bem, ninguem disse que iria ser facil.
 
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