sexta-feira, julho 11, 2008

Dias a fio.

Pois eh, estou em um longo silencio parece.

O tempo passa, e as coisas continuam cada vez mais as mesmas com algumas nuances diferentes apenas, fiquei doente (uma gripe gigantesca) que me deixou de cama por um dia, so levantando para comer e ir ao banheiro - pensei que ia morrer de gripe, garganta irritada, tosse, olhos fundos e marejados, dores pelo corpo, pacote completo.
Meus companheiros de trabalho mudam constantemente, so eu nao mudo de estacoes de trabalho o que ja esta me deixando veterano em algumas areas, puseram um rapaz lerdo, muito lerdo, na lanchonete da piscina e acabo fazendo todo o trabalho sozinho o que me deixa extra cansado para encarar a noite dura. Agora, em Julho, os caipiras americanos que pagaram a maior fortuna da vida para viajar, trouxeram as criancas e a familia toda e o resultado eh muita enchecao de saco (eles sao mais exigentes por nao saber os limites de um servico primeira classe) criancas correndo por todo o lugar, restaurantes lotados todas as noites, urros, gritos, berros e sussurros do profissional que lhes fala.
Estou em uma posicao de trabalho espartana, apos algum tempo eu saquei que ao contrario do que achava, pouca gente trabalho no ritmo que eu trabalho, com duas linhas por dia, um departamento e tres mise em Place para preocupar e arrumar (nunca esta completo quando chego para trabalhar), o trabalho nao muda nunca... ...estou entediado para falar a verdade.
Os portos irao se repetir agora ate o final do meu contrato, ja estive em Amalfi umas cinco vezes, Veneza duas ou tres, etc... ...na real, tudo que era novidade e inusitado esta ficando um pouco enfadonho, tenho considerado voltar logo e desistir de terminar o contrato, na verdade ja tinha me decidido hoje, peguei o formulario e estou com ele no bolso para preencher e terminar o contrato dia 06 de Agosto, mas muitas coisas passam pela minha cabeca agora, a viagem que eu faria vai para o brejo, etc... Agora que resolvi ir embora, parece que deu uma travada, parece que nao sei se quero voltar, mas amanha cedo eu vou querer de novo, podem apostar.
Se decidir, ainda tenho mais um mes pelo menos de navio.
Duas brasileiras ja desistiram e se mandam este mes, fiquei meio com invejinha, apesar de sentir pelos amigos que fiz aqui, mas de qualquer maneira todos iremos ficar distantes de uma maneira ou de outra, essa experiencia eh de carater transitorio de qualquer maneira, agora... voltar e fazer o que no Brasil ??
Posso montar uma lanchonete, ja tenho experiencia de sobra, ou talvez ser guia turistico, montar um churrasquinho na praca da cidade, vender sanduba natural na praia com espetinho de camarao e queijo coalho, sei la...
Desempregado de novo, sem casa propria, sem grana e destino.
Provavelmente vou encontrar outra roubada para me enfiar.

segunda-feira, junho 16, 2008

Veneza, de novo !!

Pareco um milionario falando, poxa, Veneza de novo !!

Alias, se disser que estou enjoado de Foie Gras, Lagosta e nao posso nem olhar para um prime rib, a coisa soa mais esnobe ainda, mas a verdade eh que eu adoro estar em Veneza, nao importa a situacao. Hoje a tarde, sai em Veneza e fui ate Sta. Margherita, uma praca charmosa em meio aos canais de Veneza, sentei-me com uma amiga para tomar uma taca de vinho e curtir o local.
Ontem a noite, eu e mais dois amigos nos reunimos em minha cabine para tomar um porre, eu precisava de um porre depois do dia que tive - sabe aqueles em que vc bebe ate as quatro da manha em quantidades paquidermicas de alcool ?? Entao, esse mesmo, DVD do AC/DC rolando, vinho, cerveja, bate-papo e dane-se o mundo...
A manha foi complicada mas eu sobrevivi, estou morto de sono mas vou sair daqui a pouco por Veneza de novo para meu tour etilico again, amanha tenho a manha de folga entao vamos la para mais uma parada durissima.

Chega de escrever, preciso sair viver um pouco. Ainda odeio este navio.

domingo, junho 15, 2008

Desastre.

Hoje meu dia foi um desastre,

Tudo deu errado, eu esqueco das coisas, nao consigo trabalhar direito e foi um desastre sem proporcoes conhecidas - se eles nao me mandarem embora, eu posso acabar me demitindo se a coisa caminhar nesse sentido.
Nao vejo como trabalhar decentemente nestas condicoes, o Chef de Partie que trabalha comigo nao confia em mim, falta equipamentos, falta excitacao e paixao para exercer este trabalho aqui, tem dias que as coisas correm bem, mas hoje foi sinceramente caos. Quando estou muito cansado, fico meio paranoico, entao a paranoia de hoje eh serei demitido ou forcado a me demitir, mas as vezes o cansaco fala mais alto e nada acontece (bem, na maioria das vezes).
Muitos amigos estao indo embora amanha, e estou bem deprimido por isso tambem, amanha chegamos a Veneza e para variar, nao posso sair, o que vai definitivamente minar meu humor de vez - sinto este lugar como opressivo demais para mim.
E requerido que voce seja um capacho para sobreviver aqui, mas eu ja estou comecando a berrar de volta na cara do Chef do Polo e hoje cheguei a tremer de raiva e contive meu surto psicotico, estava pronto para fazer voar frigideiras...
Quase quatro meses passaram e nao me sinto melhor por estar aqui, eu nao estava errado, isso aqui eh uma merda que parece nao ter fim, a agonia parece que nunca vai passar e que sua vida vai terminar neste navio, claro que eu sei que vai acabar mas a atmosfera de prisao eh uma coisa inexplicavel.
Muitas pessoas ja pediram demissao desde que cheguei, tenho aguentado ate que bravamente, dada as devidas proporcoes mas quatro meses de sua vida em um emprego que voce detesta, eh tempo pra caramba tenhamos que convir.
Amanha, teremos varios chefs novos comecando em nossas estacoes, rezo para serem iluminados, ou simplesmente competentes, sei la o que vem por ai.
Meu novo chef de secao tem 23 anos, vejam so, mas ele eh demais de cuidadoso comigo pois sabe que tenho onze anos a mais que ele e bem menos paciencia.

Pelo menos, estou ficando perigoso pra esse povo.

sábado, junho 14, 2008

Cansado.

Estou cansado.

Cansado de trabalhar, cansado de esperar a maldita data de ir embora chegar, cansado demais para pensar muito e principalmente, cansado demais para me importar ultimamente. Observem eu nao me importar.

De manha, meu corpo reclama que nao quer sair da cama, minhas pernas parecem geleia quando subo as escadas do deck e desco ate a lavanderia para buscar meu uniforme (que nunca esta totalmente limpo de manchas, estou cansado dos chinas da lavanderia), meus olhos ardem ao primeiro contato da luz pelas escoltilhas da cafeteria, me arrasto ate o fundo e acendo um cigarro enquanto escuto meu Ipod e evito contato visual/verbal com qualquer pessoa que se aproxime, observo o relogio ir depressa de encontro as oito e rezo para que o tempo pare so um pouco para que eu comece a tortura diaria - entro na cozinha para descobrir que os aventais acabaram (quase todos os dias) entao vou sujar a jaqueta e depois ser repreendido pelo chef, vou procurar travessas, assadeiras e todas as quinquilharias necessarias para comecar o trabalho mas nao tem nada limpo ou disponivel pois os outros chefs ja esconderam tudo para eles, os canalhas, vou ate o acougue onde o acougueiro nao responde ao meu bom dia, peco as pecas de carne do dia para assar e ele diz que esta muito cedo ainda (ja viu isso ?) saio querendo atirar um cutelo na garganta dele.
Dai, o jamaicano de dois metros passa com as entregas de verduras, e tem sempre alguma coisa faltando da qual vou ter que implorar pelas outras estacoes afora depois, o trabalho comeca aos trancos e barrancos pois ate as nove e meia eu nao sou gente ainda, so acordo la pelas dez, a correria pre-almoco comeca e corro como um frango como dizem os filipinos. Onze e meia, break para o almoco (que nunca como) a comida da cafeteria eh minha velha conhecida e algumas coisas servidas eu conheco ha mais tempo que alguns amigos aqui, carne louca ? ja devo ter encontrado pelas geladeiras umas tres vezes ate seu destino final, o estomago da tripulacao.
Enfim, mais uns cigarros ate a lanchonete da piscina, hoje saimos mais cedo do porto entao todos estarao a bordo, filas imensas, pessoas deseperadas por comida e eu suando, me movimentando ao maximo para cozinhar trinta hamburgueres ao mesmo tempo, com diferentes queijos, tempos de cozimento, sanduiches grelhados que tem que ser montados na hora, grelar cebolas, cogumelos, correr, gritar, berrar, sussurrar ate os suspiros finais quando vou para meu intervalo da tarde, as vezes eu saio nos portos as vezes (como hoje) tenho que ficar dentro do navio pois ou saimos cedo demais, ou eh meu dia de permanecer (port manning eles chamam) entao fico na net torrando meu dinheiro e neuronios para escrever alguma coisa ou simplesmente vou dormir para esquecer por alguns momentos que estou em um navio que pode acertar um iceberg a qualquer momento, mas creio que Deus nao seria tao bom assim comigo.

Cansado de meus dias iguais.

As quatro e meia da tarde, volto a cozinha principal para finalizar os detalhes do jantar e dia seguinte, corro para preparar a comida do staff mess (a cafeteria dos oficiais bacanas que a gente nao entra) e o acougueiro mandou varne picadinha de novo, eu nao sabia disso entao nao tenho verduras, vegetais e temperos que deveriam ser pedidos um dia antes para preparar alguma coisa decente (pois vc acha que ELES comem qualquer coisa ?) saio feito um desesperado procurando raspas e restos que roubo das geladeiras e imploro alguns itens, o Chef das sopas sempre tem alguma coisa esperando por la, cozinho o mais depressa que posso e mando as asadeiras pelando as seis, juntamente com milhares de outras coisas, seis e meia, apos mais um break, Polo Grill, fogao de novo - cento e dez pessoas fizeram reservas entao sera mais um massacre... ...comandas chegam, aperitivos, acompanhamentos absurdos (as pessoas mudam TODOS os itens do cardapio, tira manteiga poe creme, mistura dois tipos diferentes, quero sair e perguntar se eles nao gostariam de entrar e cozinhar) e tres horas e meia depois, estamos nos ultimos pedidos e ja tenho que limpar tudo, tirar todas as assadeiras, jogar fora os restos, desligar tudo... ...desco ate a minha estacao na cozinha central e tenho que lavar bancada, forno, blast chiller, e tem dias que ainda tenho que ir limpar o deposito de vegetais apos isso.
Estou cansado disso tudo - meu normal eh cansado e meu cansado eh EXAUSTO.

A verdade: estou sempre cansado de tudo, nao importa onde estou.
Vou dormir um pouco agora...

sábado, junho 07, 2008

O golpe perfeito pra burro.

O navio esta em choque.

Hoje, cinco equatorianos da limpeza foram mandados embora por roubarem, vejam so, nada mais que dois laptops, cinquenta e tantos celulares e la vai uma pedrada em joias incluindo um anel de cinquenta e cinco mil dolares - eles planejaram tudo, incluindo nao esconder em algum lugar ou tentar vender essa quinquilharia no porto mais proximo, nem o fato de nossas cabines serem inspecionadas regularmente ou talvez do fato de que alguem, tipo, sem a menor intencao fosse notar que o laptop teria sumido ou deixasse para procurar em um canto da mala depois.

Um Golpe bom pra burro !!

Eles cataram o que puderam das bagagens durante a embarcacao dos novos passageiros, enquanto carregavam as malas para dentro do navio, tipo, so por diversao saca ?
Claro que de certa forma toda a america latina fica meio degradada com estas pequenezas vejam so que crueldade.

De resto, a vida aqui eh uma versao de oito meses do mesmo dia com paradas estrategicas nos portos, o que vale muito apena enquanto dura...
Na cozinha estou mais solto, com menos medo de errar e mais pratico e ate soltando mais as asinhas para reclamar, berrar quando preciso (na devida proporcao, claro) e ate para brincar mais com as pessoas e a situacao toda, a verdade ainda eh que nada muda ou melhora, a gente apenas acostuma e pronto.

Na real, durante estes dias eu pensei em varias coisas incriveis para escrever, mas agora nada vem a minha mente, mas amanha prometo (nao, nao prometo) que vou escrever algo que valha a pena.

Mas que a Neuza que esses caras deram aqui foi miada...

quinta-feira, maio 29, 2008

Tres meses.

Semana que vem completo tres meses de navio.

Tres meses de agonizante desespero e igualmente agonizante prazer, tres meses dentre portos desconhecidos, reforma de navio, pessoas insanas, passageiros insaciaveis (e nao no bom sentido), tres meses sem um unico dia de folga - o saldo ? Pernas bambas durante os primeiros momentos da manha, olheiras profundas, quilos desaparecendo, olhares desesperados atraves da escotilha, maos e pes que seriam o pesadelo de qualquer manicure/pedicure, abstinencia de sono entre muitos outros males que afligem a pobre tripulacao. Os beneficios ? Magro como um modelo (de funeraria), alguns dolares mais rico, portos incriveis para se ver, pernas musculosas e uma bunda que parece uma escultura de marmore grega de tanto subir e descer escadas, tem tambem a tal da parte em que a gente fica mais forte para encarar a vida e que depois disso qualquer desafio eh pinto, tipo... ...aquela mensagem esperancosa da qual eu geralmente nao acredito, e ainda duvido um pouco pois essa tal de iluminacao nao rola com gente cinica.
Mas, apos Veneza ainda tive um leve caso de depressao com momentos esparsos de desespero (quis mais uma vez pedir demissao) e hoje estou a toda novamente, isso aqui eh uma montanha russa emocional devo acrescentar. Nao pude descer em Dubrovnik, e mais uns portos e fiquei trancafiado no navio por quase uma semana e quando isso acontece, diga adeus ao meu humor. Trabalhei muito mal nos ultimos dias e me esquecia de tudo, cheguei a achar que seria demovido do cargo ou mandado embora, mas hoje eu trabalhei numa boa e nem sei porque estou me sentindo bem, simplesmente tem dias e momentos em que estou no gas.
A vontade de mandar todos a merda, porem, nao passa nunca.
Cinco meses a frente, meu corpo berra "estou fudido" enquanto minha cabeca da sinais de emergencia e ainda por cima tenho cinco meses mais pela frente ? Cara, o que eu estava pensando ??
Pelo menos aceitei o fato de que estou aqui e nao tem nada que eu possa fazer agora, demitir e voltar para casa com o rabo no meio das pernas (apesar de soar atrativo as vezes) nao eh a minha coisa, nao quero carregar essa derrota pelo resto da minha vida entao esses FDPs que me aguentem por oito meses e pronto !! Falei.
Hoje, vou descer em Taormina, Italia, dar uma olhadela no lugar que nao eh tao bonito quanto outros portos que eu vi, mas tem uma praia bem legal e quem sabe eu de uma salgada no couro para aliviar o stress.

Enfim, eu agora aceitei que estou aqui por alguma razao/cinrcustancia e vou tentar tirar o maximo dessa merda toda.

Mas ja avisei o Sous-chef, se de repente ele ouvir Code Oscar (man overboard, homem ao mar) correr para minha cabine e se apropriar das minhas tralhas porque eu pulei.
Vai que...

sábado, maio 24, 2008

Veneza. Beber, cair e levantar.

Veneza eh um sonho.

Ruelas misteriosas, Igrejas aos milhares, arte por todos os lados e a Piazza de San Marco - nao se pode ignorar Veneza nem deixar de ve-la apenas por ser "turistica", se bem que a unica coisa que estraga sao os proprios turistas, por toda parte congestionando tudo, a catedral eu nao pude ver pois iria ficar na fila de entrada por horas, sinto uma vontade imensa de gritar "ele ta armado" para ver se a fila desaparece mas contive e me contentei com a bela vista e as igrejas satelite em torno. Odeio turistas, mesmo sendo um, nao me sinto parte daquela horda de pessoas em conjuntos esportivos devorando sanduiches direto das suas mochilas com seus terriveis bronzeados pink, nao eu nao sou parte dessa corja. Eu sou muuito mais cool que eles para isso, simplesmente desprezo esse povo.

Dei uma volta durante o dia, tomei um sorvete ouvindo meu Ipod e andando feliz da vida pela Piazza, melhor de tudo isso, sem pressa pois sabia que a noite me esperava.
Na volta, uma chuva toleravel caia e parece que deixou tudo ainda melhor apos meses sem sentir o que eh andar na chuva despreocupado, senti-la na minha pele e refrescar um pouco minha tao perturbada cabeca que ainda pensa nos cinco meses restantes que tenho pela frente - Barcelona, 01 de Novembro, andarei para fora deste navio sem olhar para tras em direcao as minhas tao sonhadas ferias na Europa.
Trabalhei no Polo Grill e tentei me mandar o quanto antes (que acabou sendo onze e pouco da noite) as pessoas ja estavam voltando para o navio e eu andando a passos largos esperando encontrar qualquer distracao mundana, um boteco (que nao existe aqui) um restaurante nao tao fino (se voce nao pedir comida, eles te expulsam na cara dura) qualquer coisa servia, na Piazza de San Marco encontrei um bar moderninho (uma surpresa) pedi uma Heineken numa taca do tamanho da minha cabeca e puxei papo com dois americanos perdidos tambem, fomos ate um Jazz Bar ali por perto daquelas vielas e tomei mais cerveja, mas apos um tempo o bartender ao perceber que a minha sede nao passaria tao cedo, deu-nos copos descartaveis e rua. Paramos em uma ponte na frente do canal e ficamos admirando Veneza e bebendo - ate as quatro da manha, quando voltei cambaleante para o navio, cercando frango e com direito a um xixi em um beco daqueles com meu Ipod a toda, cantando, ganindo e uivando.

Acordei no pior dos humores, pus meu uniforme e descobri a cafeteria fechada (abstinencia de cafeina, pior que a ressaca) encarei o buffet no andar de cima, nao estava afim mesmo de ver os passageiros mas o dia passou e eu aguentei firme.
Hoje, vou sair de novo para a noite de Veneza, Deus me ajude pois ele ajudou a contruir Veneza e metade da culpa eh dele...

Estou podre de cansado, mas o apelo eh grande... ...sera que vou resistir ?

Beber, cair e levantar... ...igualzinho a tudo na vida.

quarta-feira, maio 21, 2008

Língua Universal

Língua Universal

Como em todo bairro, região, lugar, o navio tem sua própria língua (várias na verdade) mas existem palavras que são usadas por todos para designar coisas diferentes – muitas palavras soam latinas porque eles acham mais bacana, outras são coisas do Filipinos que misturam tudo, inglês, espanhol e tagalog, coisa para doido ver, eles começam a falar em inglês e logo depois o papo vira o Samba do Crioulo Doido.
Seguem alguns exemplos do que falo :

Babaloo – Louco, insano ou retardado mental, abestalhado.
Banana – Encrenca, confusão, repreensão (coisa fácil aqui); o chef executivo te pegou pré-assando steaks para só aquecer e servir ? BANANA pra você.
Paisano – Uma pessoa que é do mesmo país que você, seu compatriota, seu paisano.
“like rice” – Plenty like rice, alguma coisa em abundância; número de filipinos à bordo ? Like rice, como arroz, muitos.
Papae – Refeição, comida.
Papa – Cara, amigo; Hey papa, como està ?
Taka taka – Muita conversa, falação;
Disaster – como a palavra diz, desastre, caos, mas a diferença é que eles usam para tudo;
Why like this ? – quando a coisa está muito corrida, complicada ou difícil, fale esta sentença com uma voz fina e estridente dando ênfase ao thiiiis, porque tem que ser assim, satirizando o péssimo inglês da maioria das pessoas aqui.
Gimme chance, Papa – por favor, me deixe passar, ou abrir a geladeira, saia do caminho.
Foooock – enfim, fudeu.

Enfim, somos uma estranha comunidade, como na prisão temos nossas próprias regras, dialetos e pessoas de todos os tipos, às vezes é difícil de acreditar que somos quase cinqüenta nacionalidades em um único navio. Hoje, paramos em Kotor, mas não pudemos descer pois atracamos às três e os pasageiros saem antes, três excursões, e daqui a uma hora e meia eu trabalho (de novo) mas nestes quase três meses eu quase não acredito que eu não desisti ainda, devo ser mais resistente do que pensava, pelo menos me livrei da tortura de Bombay, mas na real, estou mais preocupado com os portos, esta semana, três dias em Veneza com tempo livre para sair a noite (só começo as onze da manhã no segundo dia) então vou atingir as ruas de Veneza como um rojão.
Tentarei não tomar um porre, mas não prometo nada.

terça-feira, maio 13, 2008

Chefs sao loucos.

Bem, pertecendo a categoria, eu sou uma sumidade para discutir o assunto.

Cara, chefs sao pessoas egocentricas, Machiavelicas e sadicas que habitam as cozinhas todas, sem excecao - sua refeicao eh preparada sim, por um cara horrivel com habitos pessimos e uma compulsao insana por pisotear seus subalternos, prazer eh pouco para descrever.
Mas, estava vendo uma das demonstracoes culinarias que eles fazem aqui no navio, o chef executivo garboso e seu comparsa sous chef, mostrando as milhares de veias que habitam este cruzeiro como preparar um polvo com arroz na tinta e uns canapes de tudo quanto eh tipo, como se essas senhoras do centro-oeste americano fossem admitir a entrada de um polvo em suas geladeiras, elas preferiam se ensaboar com o bicho vivo a ter que coloca-lo na boca. Enfim, as pessoas (poucas) que forcavam os Ahhss e ohhss nao ficaram muito impressionadas com o prato e tampouco acho que vao fazer um prato com canapes de todos os tipos, tipo, quarenta mini-iguarias todas diferentes feitas com ingredientes tipo, queijo feito pelas freiras lesbicas e manetas do Nepal, rarissimo Tartufo Bianco farejado pelos caes siberianos cegos, tudo com 1, 2mm de espessura cortados em fatiadores profissas (quem nao tem um em casa ?), esturjao roxo da Antarctica... ...o cara eh um punheteiro louco, vai me perdoar.

Quando esse fulano passa pela linha de servico, faz dez pratos voiltarem, pois este esta com um micro ponto de balsamico no canto, o outro a salsinha picada caiu um milimetro depois da linha do prato e no outro ele manda trocar porque nao gostou da sua cara quando voce preparou. O cara parece que esta sentindo cheiro de peido o tempo todo.
O resto de nos, somos mercenarios que vivemos sujos, engordurados, bebados em qualquer minuto vago, somos a escoria do inferno, front staff nao se atreve a dar um abraco em um cozinheiro - somos a ultima coisa que alguem quer ter como vizinho.

Enfim, esta casta a qual pertenco agora, eh simplesmente um bando de loucos, toxicomanos, bebados e insanos - meu tipo de gente.

segunda-feira, maio 12, 2008

Mitylene, ou sei la o nome do lugar.

Paramos em Mytilene, nem vou escrever muito pois nao tem nada la para se olhar.
Andei um pouco, desanimei, sentei no porto e tomei tres cervas EFES antes de voltar para o batente, estava numa tristeza de dar pena, sentindo pena de mim mesmo por ter que aturar essa vidinha por mais seis meses. Dizem que pode-se obter condicional ou extensao dos banhos de Sol por bom comportamento, mas eu duvido.
Esta eh a prisao perfeita pois... ...so se atirando no mar para sair daqui, se bem que as vezes a ideia de me atirar aos tubaroes soa menos dolorida e mais eficaz/rapida de acabar com minha vida.
Seis meses a frente, meu Deus, nem sei como vou aguentar esta tortura com leves momentos de agonizante prazer, pois sempre fico com aquele gosto de quero mais quando deixo um dos paraisos para voltar ao inferno do navio. Numa escala de um a dez de stress, estou batendo perigosamente nos 8.25, estou mais agressivo, irritado e mau-humorado e estou comecando a implicar com algumas pessoas que sinceramente, me irritam.
Amanha voltamos a Kusadasi, um porto que eu simplesmente amei, desta vez nada de ficar zanzando pois ja conheco o lugar - quero um almoco completo, de gente de verdade com direito a sobremesa e cafezinho no final so para dizer quem eh que manda no corpo e na alma do Ricardo. A impressao que temos eh que a empresa te possui e pode fazer o que quiser de voce (o Drydock provou isso) mas minha mente continua wild and free. O mundo estara em meu bolso ao final deste contrato - se conseguir resisitir isso tudo, vou virar monge, alcancar o Nirvana.

Por enquanto, longe disso. Quero espancar, pilhar, roubar e matar - estou me tornando um pirata.
Pior, parece que fui vendido como escravo pra eles.

domingo, maio 11, 2008

Mais um cruzeiro, menos um cruzeiro.

As pessoas contam o tempo que vão passar aqui em dias, meses, semanas e isso com certeza não me ajuda – eu conto cruzeiros, cada vez que um acaba e os passageiros descem, um kilo a menos sai das minhas costas, por enaquanto tenho mais 12 kgs. Para tirar das costas ( o mesmo número de kilos que eu perdi, gozado isso).

Agora, atracados no porto ou não (muitas vezes estamos em tendering, o barquinho que leva e traz as pessoas quando estamos longe do porto mina as horas que eu tenho para passear) eu saio nem que seja para tomar um café do lado de fora e voltar, tudo que eu quero é sair e ver as pessoas, os lugares e principalmente a comida local.
Em Olbio, Itália, sentei-me em um boteco à beira-mar e tomei três cervejas antes de voltar a trabalhar, era feriado no lugar e a cidade tem aquele clima de cidade do interior do Brasil que me deixou completamente à vontade. Nesse dia, só queria cerveja e calma, mais nada, tinha até um vira-latas local para brincar. Em Santorini, quis apreciar a vista local e a comida, tomei a cerveja Mythos e pedi Tzaziki com Pão e pepino e tomates acompanhados de uma salada de carneiro divina, regados ao azeite local e pão pita soberbamente tostado e preparado em um terraço de um restaurante familiar muito simples e simpático, Renata, uma das brasileiras à bordo sempre me deixa pedir a comida, sou seu personal chef.
Em Rhodes, tomei café apenas e zanzei pelo forte da era Bizantina do século XIV, fiz umas comprinhas nas lojas locais (muito legais) e voltei apreciando a visão do mar quebrando nas muralhas e pedras que envolvem a cidade velha e porto, em Kusadasi, mais comércio local (as falsificações são as melhore que já vi) podendo escolher entre Gucci, Diesel e tantas outras marcas que você jamais teria dinheiro ou coragem de comprar, vi Ipods dentre burcas e mesquitas, carros e cavalos, o cheiro do chá de maçã em todas as portas e o Sol que castigava minha pele era um alívio após tantas horas enfurnado em ma cozinha sem janelas.
Istambul. Ah Istambul.
A expectativa sobre Istambul era grande, três dias atracados com dois overnights, na primeira noite fomos a um dos milhares de narguilés cafés, sentamos em confortáveis sofás sob lonas e tapetes e fumamos o tal negócio, álcool é proibido pois 90% da população é muçulmana mas acreditem, não fez falta alguma – tomamos chá e café turco (o chá parece do Ceilão, mas com gosto melhor) e não feliz, fui em busca de um Kebab (a versão original do espetinho) e comprei em uma barraca que vi à tarde enquanto passava e me chamou a atenção – através do vidro vi os tomates mais firmes e vermelhos possíveis, pimentões multi-coloridos que fariam os nossos ficarem mais vermelhos de vergonha e mais verdes de inveja, tudo na Turquia exige paciência, ao contrário dos nossos ambulantes, que te entregam o mais assado disponível, o cara daqui faz na hora, corta os vegetais na hora, tosta a folha de pão na hora e põe temperos frescos (páprica, pimenta vermelha e pimentas misturadas em pó locais) enrolando a carne de carneiro, salada e tudo no pão. Dos Deuses, salve Alá.
Durante o dia, tive folga de três horas e meia e fui explorar o centro da cidade – um congestionado de pessoas, milhares de lojas barracas onde pode-se encontrar de tudo (mesmo) e parei num restaurante local cheio de pessoas locais para uma refeição. Inglês, linguagem, aqui é um sonho distante, dei o meu melhor para pedir a comida e não fui desapontado, quatro pães deliciosos acompanhados de salada verde com tomates, pimenta vermelha fresca, pimenta verde (não picante porém saborosa) e sobre arroz e batatinhas, um Kebab de carneiro feito na brasa intercalando carne e cubinhos da gordura do bicho. Olhando o prato todo, parecia pouca comida, comendo, foi um banquete.


Vi os turcos fazendo suas orações nas Mesquitas, onde geralmente são também as tumbas dos Sultões, o mercado com azeitonas, queijos, temperos era simplesmente de fazer o coração acelerar, não se consegue não provar um pouco de tudo.
Parece que ninguém trabalha às vezes, estão todos reunidos nas portas dos comércios, cafés e tendas locais em grupos de homens, tomando chá, fumando e batendo papo.

O sonho termina hoje, quando zarpamos novamente com destino final em Veneza, Istambul é misteriosa, seus cheiros e cores são demais.
No trabalho, me frustrei quando a minha mudança de estação de trabalho furou, ainda penso em homicídio e tento não pensar nos doze cruzeiros à frente, dei um leve tapa com luva de pelica no chef executivo hoje e passei a manhã enfurecido com falsas promessas e falta de coragem dele em dizer que estava não me mudando para posições melhores, quando minha vontade era enfiar um espeto de frango do tamanho da minha perna na cabeça dele e torcer. Stress ? Nem vou começar.

Em compensação, isso automaticamente ligou o meu foda-se, trabalhei como se não houvesse amanhã, após ter ido perguntar o que seria de mim e descobrir que de verdade, não importa o suficiente para ser comunicado que as coisas não vão mudar ou que talvez eu gostaria de saber onde trabalhar de manhã, a situação ganha perspectivas engraçadas, ou nenhuma, a não ser de que estarei fazendo as mesmas tarefas chatas mais dois meses como um assistente qualquer.

Vou voltar à masmorra agora. 60 dias após, ainda odeio estar dentro do navio.
Mais um cruzeiro, menos um cruzeiro.

As pessoas contam o tempo que vão passar aqui em dias, meses, semanas e isso com certeza não me ajuda – eu conto cruzeiros, cada vez que um acaba e os passageiros descem, um kilo a menos sai das minhas costas, por enaquanto tenho mais 12 kgs. Para tirar das costas ( o mesmo número de kilos que eu perdi, gozado isso).

Agora, atracados no porto ou não (muitas vezes estamos em tendering, o barquinho que leva e traz as pessoas quando estamos longe do porto mina as horas que eu tenho para passear) eu saio nem que seja para tomar um café do lado de fora e voltar, tudo que eu quero é sair e ver as pessoas, os lugares e principalmente a comida local.
Em Olbio, Itália, sentei-me em um boteco à beira-mar e tomei três cervejas antes de voltar a trabalhar, era feriado no lugar e a cidade tem aquele clima de cidade do interior do Brasil que me deixou completamente à vontade. Nesse dia, só queria cerveja e calma, mais nada, tinha até um vira-latas local para brincar. Em Santorini, quis apreciar a vista local e a comida, tomei a cerveja Mythos e pedi Tzaziki com Pão e pepino e tomates acompanhados de uma salada de carneiro divina, regados ao azeite local e pão pita soberbamente tostado e preparado em um terraço de um restaurante familiar muito simples e simpático, Renata, uma das brasileiras à bordo sempre me deixa pedir a comida, sou seu personal chef.
Em Rhodes, tomei café apenas e zanzei pelo forte da era Bizantina do século XIV, fiz umas comprinhas nas lojas locais (muito legais) e voltei apreciando a visão do mar quebrando nas muralhas e pedras que envolvem a cidade velha e porto, em Kusadasi, mais comércio local (as falsificações são as melhore que já vi) podendo escolher entre Gucci, Diesel e tantas outras marcas que você jamais teria dinheiro ou coragem de comprar, vi Ipods dentre burcas e mesquitas, carros e cavalos, o cheiro do chá de maçã em todas as portas e o Sol que castigava minha pele era um alívio após tantas horas enfurnado em ma cozinha sem janelas.
Istambul. Ah Istambul.
A expectativa sobre Istambul era grande, três dias atracados com dois overnights, na primeira noite fomos a um dos milhares de narguilés cafés, sentamos em confortáveis sofás sob lonas e tapetes e fumamos o tal negócio, álcool é proibido pois 90% da população é muçulmana mas acreditem, não fez falta alguma – tomamos chá e café turco (o chá parece do Ceilão, mas com gosto melhor) e não feliz, fui em busca de um Kebab (a versão original do espetinho) e comprei em uma barraca que vi à tarde enquanto passava e me chamou a atenção – através do vidro vi os tomates mais firmes e vermelhos possíveis, pimentões multi-coloridos que fariam os nossos ficarem mais vermelhos de vergonha e mais verdes de inveja, tudo na Turquia exige paciência, ao contrário dos nossos ambulantes, que te entregam o mais assado disponível, o cara daqui faz na hora, corta os vegetais na hora, tosta a folha de pão na hora e põe temperos frescos (páprica, pimenta vermelha e pimentas misturadas em pó locais) enrolando a carne de carneiro, salada e tudo no pão. Dos Deuses, salve Alá.
Durante o dia, tive folga de três horas e meia e fui explorar o centro da cidade – um congestionado de pessoas, milhares de lojas barracas onde pode-se encontrar de tudo (mesmo) e parei num restaurante local cheio de pessoas locais para uma refeição. Inglês, linguagem, aqui é um sonho distante, dei o meu melhor para pedir a comida e não fui desapontado, quatro pães deliciosos acompanhados de salada verde com tomates, pimenta vermelha fresca, pimenta verde (não picante porém saborosa) e sobre arroz e batatinhas, um Kebab de carneiro feito na brasa intercalando carne e cubinhos da gordura do bicho. Olhando o prato todo, parecia pouca comida, comendo, foi um banquete.


Vi os turcos fazendo suas orações nas Mesquitas, onde geralmente são também as tumbas dos Sultões, o mercado com azeitonas, queijos, temperos era simplesmente de fazer o coração acelerar, não se consegue não provar um pouco de tudo.
Parece que ninguém trabalha às vezes, estão todos reunidos nas portas dos comércios, cafés e tendas locais em grupos de homens, tomando chá, fumando e batendo papo.

O sonho termina hoje, quando zarpamos novamente com destino final em Veneza, Istambul é misteriosa, seus cheiros e cores são demais.
No trabalho, me frustrei quando a minha mudança de estação de trabalho furou, ainda penso em homicídio e tento não pensar nos doze cruzeiros à frente, dei um leve tapa com luva de pelica no chef executivo hoje e passei a manhã enfurecido com falsas promessas e falta de coragem dele em dizer que estava não me mudando para posições melhores, quando minha vontade era enfiar um espeto de frango do tamanho da minha perna na cabeça dele e torcer. Stress ? Nem vou começar.

Em compensação, isso automaticamente ligou o meu foda-se, trabalhei como se não houvesse amanhã, após ter ido perguntar o que seria de mim e descobrir que de verdade, não importa o suficiente para ser comunicado que as coisas não vão mudar ou que talvez eu gostaria de saber onde trabalhar de manhã, a situação ganha perspectivas engraçadas, ou nenhuma, a não ser de que estarei fazendo as mesmas tarefas chatas mais dois meses como um assistente qualquer.

Vou voltar à masmorra agora. 60 dias após, ainda odeio estar dentro do navio.

quarta-feira, abril 30, 2008

Fotografia.

Photograph.

Fotografia.

Em minhas parcas horas livres, eu me sento com meu Ipod ligado no Crew Mess (cafeteria) entornando xícaras de café e sento-me num cantinho para evitar contato visual e verbal com as pessoas, sobretudo d manhã, quando me sinto cansado e nem comecei minha jornada de 10 horas ou mais, nesses minutos eu penso na vida e tomo minhas decisões, avalio meus atos e me arrependo de algumas coisas como qualquer mortal. Qualquer tentativa de me trazer de volta à realidade é retornada com um rosnado curto e grosso, visto que é um dos únicos momentos em que me sinto à vontade comigo mesmo.
Estava ouvindo Moby, Porcelain – e me transportei para as praias de Bali, senti o cheiro e sabor daquele lugar novamente, os cheiros do restaurante ond trabalhava na época, do produto que usava para limpar as mesas à tarde, da casa em que morava em Auckland e das pessoas que estavam ao meu redor. A vida não era um mar de rosas naquela época, mas lembro-me com satisfação estes momentos como s tivesse sido o cara mais feliz do mundo, fantasio que tinha mais dinheiro e disposição (talvez tivesse) e que as pessoas eram mais gentis... ...penso se vou me lembrar desta experiência com o mesmo carinho, mas eu sinceramente acho que não, vou lembrar e deixar como uma coisa que fiz apenas, talvez para ter o que contar para os outros, como se gabar de trabalhar feito um jumento por uma grana pífia fosse alguma coisa para se gabar sobre.
Qual será a música que ma fará lembrar daqui ?

Este cruzeiro eu já estou mais habituado, menos sensível as pessoas e mais cansado, sobretudo até porque estão já comparando este cruzeiro aos do ano novo e isso não pode ser nada bom.

Olho para os dois meses atrás e sinto tão distante, assim como olho para os seis restantes sem de verdade enxergar o fim deles, estou à deriva e não sei para onde nadar mas dizem que a partir de quatro meses (!) a coisa começa a ficar fácil, o que duvido muito e não sou otimista por natureza – tudo neste emprego é esperar pelo pior, desde o treinamento medico até o de resgate e administração de pessoas em situação de emergência todos adquirimos aquele olhar de “espero pelo pior, eu vi o pior” e isso faz de nós a equipe que te sorri enquanto troca aquele prato que você não gostou por ter cebolas – sabemos que se você engasgar, sua vida vai depender do nosso treinamento em Heinmlich ou seja lá como chama a manobra. E se isso acontecer, nossos passageiros ainda podem nos processar, oh vida.

Mas voltando ao assunto, fotos me vêem à cabeça enquanto as músicas passam, pessoas e lugares, nada aprisiona mais o futuro às vezes do que o passado e apesar de estar nesta posição de incerteza os tais seis meses não me parecem perto, mas possíveis apenas.

Tive que tomar a decisão de deixar o Brasil para trás, estava com um pé no barco e outro na terra, o barco se afastando cada vez mais e eu quase caindo na água para me afogar, disse tchau para o Brasil e decidi entrar de vez no barco, o Brasil, a minha cidade, os rostos das pessoas, difícil conviver com o Brasil, difícil deixa-lo.

A dor da saudade e do arrependimento diminuem um pouco a cada dia, parece que ficamos mais entorpecidos por esta vida e pelo trabalho sem perceber, o que me traz de volta à vida são as paradas em que posso descer e apreciar a vista, parece que nunca mais vou voltar à bordo e hey, terei 5 horas para ver Roma este cruzeiro por um milagre. No próximo cruzeiro estarei em posições novas na cozinha e vou mudar de restaurante à noite, onde terei um grelha só para mim, dizem que é minha chance o que pode até ser, mas não quero fazer carreira aqui de jeito nenhum. Por mim, podem me por pendurado no mastro cozinhando tartufos bianchi e lagostins que não dou a menor, mas me livrar da tortura de Bombay vai ser um puta passo em direção ao final deste contrato.

Não posso apagar o Brasil, não posso desistir daqui agora, não corra, não mate não morra.

Todos os dias que aprendo um prato novo,imagino se seria legal cozinha-lo para meus amgos no Brasil, quem iria adorar, etc... Ainda estou muito apegado à tudo lá, mas um certo desapego se az necessário para a sobrevivência em ouros lugares, países, cidades e decisões – este é um divórcio difícil, até porque ambas as partes estão exigindo muito... ...eu queria tudo.

domingo, abril 27, 2008

Tem dias e dias. Um so, para falar a verdade. Stuck in a Moment.

Barcelona foi uma decepcao dupla para mim.

Eu simplesmente amo olhar, falar o nome de Barcelona mas a verdade eh que nao pus os pes na cidade ainda, uma vez era minha cor (nao pode descer no dia que tem tal cor marcada no seu cartao de seguranca) na outra, eu achei que estariamos atracados longe da cidade e ao inves de acordar cedo eu passei as tres horas de folga dormindo de manha, para descobrir que estavamos atracados a cinco minutos do centro quase me matou, fora que em Barcelona a tripulacao que termina o contrato desce quase toda juntos e a cada tchau eu pensava "porque nao sou eu ?" e com algumas pessoas eu disse tchau com lagrimas nos olhos pois odeio despedidas principalmente porque eu quero deseperadamente que meu dia de ir embora sem olhar para tras chegue logo.

Todos os dias aqui parecem segunda feira, e todas as noites parecem domingo sem que saibamos que dia estamos do mes, da semana e as vezes em qual porto atracamos - parece estarmos vivendo o mesmo dia continuamente em um infinito espiral que termina quando voce fala "adeus" e caminha com suas malas para o futuro incerto porem mais interessante que este eterno estatico em que estamos. Somos todos cegos perante ao mundo que se desdobra diante de nos, apesar de estarmos em todo lugar e lugar algum.

Por mais que eu tente fazer de cada dia unico, cada vez mais eles se repetem e se entrelacam pelos mesmos menus, lugares, roupas, cheiros, pessoas. Eu simplesmente nao consigo pensar que as coisas possam ficar muito mais interessantes que isso e preciso ter paciencia com o que nao move ou da sinais de se mover, essa passividade me irrita as vezes, quero esmurrar alguem no nariz para agitar as coisas, correr nu pela cozinha (evitando areas quentes e de fritura por favor) pois estou cansado de pensar todos os dias as mesmas coisas, as mesmas saudades, quero ter saudades diferentes tambem e quero muito mais da vida do que passar os ultimos anos da juventude trancafiado neste sonho as avessas... minhas expectativas sao bem maiores que isto aqui, minha vida tem que ser mais ampla que este vazio todo que sinto.

Parece que estou preso em um momento e nao consigo sair, como diz a musica.
E como diz a musica, vai passar. A dor que senti eu nao vou esquecer, mas que vai passar, isso vai.

PS: credo, to serio hoje.

sábado, abril 26, 2008

Ray of Light


Eu vi a luz, amigos.

A luz, estava la, brilhante e ofuscante e essa luz esta mais perto de mim do que eu imaginava - Monaco eh luz companheiros, eu nasci para estar em Monaco e nao queria sair de la por nada neste mundo.
Tudo acontece muito rapido em Monaco, as pessoas passando, os carros, a F1, os barcos, avioes, luzes, lojas...

Ao deixar o porto eu nao esperava tanto assim, confesso, mas o pouco que vi de Monaco me deslumbrou, as arquibancadas e boxes da F1 ja estavam sendo montados, os iates ja estacionados no porto para poderem ter a vista da corrida (que eh so no mes que vem) alem das pessoas, as lojas (carissimas) e o melhor sorvete que ja tomei na vida estao todos aqui, me empolguei tanto que comprei o bone oficial da escuderia Ferrari para meu irmao pela bagatela de 32 euros (melhor nao pensar muito nisso) joguem minhas cinzas em Monaco e aproveitem a viagem,por favor.

Os carros passando, Ferraris Tunadas, Bentleys, Porshes, as pessoas cheiram a dinheiro, carregam suas sacolas das lojas carissimas batendo papo e carregando um poodle dentro de uma Louis Vuitton (de verdade, nao da 25 sua pobre !) e falando ao celular, estranho como todos parecem estar falando ao celular naquelas ruas, essas pessoas ricas sao muito ocupadas, Deus me livre ser milionario e poder comprar o que eu quiser (neste momento, tive um flash, eu riquissimo, comprando este navio so para ter o prazer de afunda-lo enquanto todo staff enche a cara de champagne) nao, nao desejo isso para ninguem, qual a graca de ser rico ? Ir para Monaco seria uma delas.
Eu moraria em Monaco, para o resto de minha vida.


De volta a dura realidade do navio, cheguei ao trabalho nem ligando se estava certo ou errado, assim ou assado, meu CDP pode dar piruetas e morder as minhas orelhas que minha alegria nao poderia ser estragada, com certeza. Pena que alegria de pobre dura pouco, pois a noite que tive no Polo Grill foi simplesmente avassadora, estrupraram nossas geladeiras, servimos comida ate nao termos mais quase nada para servir, minhas maos suavam e ardiam, o suor pingando de meu rosto enquanto sentia as veias de minha testa dilatadas pelo calor da area de trabalho (uns 50 graus) mais a correria dos movimentos constantes e corridas entre geladeiras e fornos em busca de mais ingredientes e reposicao - gritos, urros, berros e sussurros foram proferidos mas todos vencemos a batalha com vida, obrigado. Mais uma comanda e sairia daquela cozinha com uma faca de 60 cms. dizimando os passageiros, seria uma carnificina e tanto. Deus teve pena deles.

Mais e mais pessoas estao indo embora para suas ferias (ou suas vidas verdadeiras, sei la) e eu ficando sempre, parece sempre que eu sou o proximo apesar de saber que isso vai demorar mais seis meses, ainda tenho dias de pura depressao como hoje, esta tarde tudo que queria era chorar e chorar, ou esmurrar alguem, ou pedir demissao e desistir desta merda toda que ninguem merece.

O trabalho eh a mesma merda, nao importa que eu faca tudo certo, ou nao, meu CDP ainda gosta de me ferrar, dar bronca, achar que faco tudo errado (nao do jeito dele) e agora insinua que eu nao quero aprender a fazer mais por preguica, quase mandei ele a merda, mas me contive e segui em frente, ele eh a unica coisa entre eu e a Europa neste momento, entao firmeza ate Novembro e preparo para minhas ferias.

O tempo na verdade passa muito rapido por aqui, sao quase dois meses, apesar de haver momentos em que parece tudo estatico, mas a correria daqui, o Sol nasce e se poe sem que eu veja, as cozinhas, as pessoas andando sem parar, indo e voltando de ferias, os passageiros saem e entram, malas entopem os corredores e minutos depois sumiram e foram despachadas para seus donos, as luzes das maquinas do cassino, os pratos passando pelas lampadas aquecedoras, os garcons e suas bandeijas...

Like a Ray of light.


Quero agradecer a todos que deixam comentarios no Blog, Tocha, Guz, Laura (muito prazer) e reafirmar morte sangrenta e doentia a todos que nao me escrevem por puro prazer em me torturar. Como digo, que as pulgas de mil camelos piquem o c# de voces.

Ate mais !

sábado, abril 19, 2008

Like a Virgin.



Like a virgin, touched for the very first time...

Quando eu canto essa musica saindo da area de lavagem de equipamentos (onde ficam assadeiras, panelas, etc...) algumas pessoas ja sabem de uma coisa - vale saber que as assadeiras e demais utensilios estao sempre em falta e sao disputados a tapa pelos cozinheiros - que em minha pressa, peguei a primeira assadeira abandonada e joguei na pia de agua quente porcamente, dei um tapa e sai com ela nas maos "like a virgin... huh.. " mas ate me deu o que pensar hoje, sobre como estamos sempre recomecando tudo do zero. Entrei nesta cozinha e tive que aprender a andar com um navio em movimento, falar o idioma local (que definitivamente nao eh so ingles, varias palavras e girias internas) e saber o que sao as coisas e onde encontra-las assim como um bebe descobre o mundo, e da pior maneira possivel, caindo, batendo e balbuciando sem conseguir se comunicar.

Aos 32 anos, recomecar tudo e decidir por uma (nao muito promissora) profissao eh simplesmente muita bravura ou burrice, talvez um pouco de ambos, confesso. Mas hoje em dia, estou mais integrado ao navio e nao tenho mais acessos de depressao tampouco tenho vontade de pular na agua e alimentar os felizes tubaroes (nem tao felizes, pois perdi dez quilos durante estes meses e tive um reencontro inesperado com minhas costelas) mas agora eu consigo ver possibilidades e para falar a verdade, nao me mato, nao corro sem necessidade nem estou nem ai para as advertencias que levo diariamente (as vezes nao estou devidamente barbeado,esqueci alguma coisa de minima inportancia..) mas foda-se, a bronca eh a mesma entao tocarei minha vida nessa carruagem louca e desenfreada que e a cozinha.

Meu relacionamento com meu Chef de Partie melhorou, hoje em dia estamos em lua-de-mel com ocasionais episodios de furia (era o oposto) estou mais disciplinado e minha atitude em relacao as coisas aqui esta mudando tambem, estou menos combativo e mais paciente e na verdade nao dou uma merda para o que pensam de mim - realizei que o meu sozinho, a solidao que sentia aqui e uma solidao boa, um tempo para me conhecer melhor e para aprender a aturar as agruras da vida, essa puta ingrata que vezes te acaricia com uma leve brisa, ou outras com uma lixa metalica no traseiro.
Hoje, paramos em Malta de novo e desta vez decidi descer e andar, tudo que queria era andar e andar assim como Forrest Gump, sem destino e sem uma so pessoa perturbando minha cabeca (que ultimamente eh um bairro barra pesada, voce nao gostaria de entrar la a noite) e fui contente da vida pelas ruas desertas de Malta com meu Ipod e oculos escuros enfiado em um bermudao e havaianas. Andei pelo centro onde parei e tomei os dois melhores cafes da minha vida, vi Igrejas, pracas, monumentos, tudo que poderia em duas horas e pouco. Parei no charmoso porto de malta e pedi uma limonada com bastante gelo lendo minha recem-comprada Vanity Fair enquanto apreciava a vista do fim de tarde, o fato de ter que ir trabalhar em meia hora desta vez nao estragou o momento, foda-se o que venha depois disso, tudo compensa - parei na Duty Free e comprei tambem uma garrafa de vinho local, so nao enchi a cara porque dai fica ruim trabalhar, mas que a vontade de tomar uma cerveja bem gelada so para implicar era grande, ah isso era. Mal poderia acreditar que em meia hora, estaria chutando coisas, gritando com pessoas, fazendo frigideiras voarem e carregando kilos e kilos de frango para assar, nao, hoje esses momentos nao existiriam, nem o maldito acougueiro poderia destruir meu bom humor, nem a banda KY, nada alem do ceu desabar em minha cabeca... eram so eu e Malta, pela primeira vez em tempos estava sozinho e feliz. Pessoas me perturbam. Geralmente.

Andei por mais de uma hora, sem parar, vendo as casas e castelos, ruinas, pracas, tudo a minha volta tinha aquele tom de dourado que nao sei explicar, os turistas so poluiam a minha visao perfeita. Amanha, estarei pronto para mais um porto, mais um sonho, errante e intrinseco rumo ao resto do mundo. Sozinho.

Feliz por isso.

quarta-feira, abril 16, 2008

KY, e mais.

Bem, estou comecando a me sentir um pouco pior a cada dia, mas amanha sempre chega, quer queira ou nao.

Estavamos no bar do navio (dos empregados, bem dito) eu e o Ciryl, quando sou interrompido por um som estranho, estridente e sem nexo, luzes surgiram de algum lugar distante, os sons ficavam mais agudos, desafinados e sem nexo - me virei procurando a pessoa que deveria estar batendo um saco de gatos na parede quando me deparo com uma figura no telao, extravagante, lustrosa ate, cabelos esvoacando para todos os lados como uma medusa transloucada pelo proprio poder devastador.
Quando pude enfim decifrar o embaramado de cores e sons, pude perceber que algum filho da puta comprou um DVD da Banda Calypso e estava passando no DVD do bar nas maximas alturas. Quando o chef em questao perguntou que raios era aquilo, contive minha sincope iminente e me desculpei profundamente por aquela coisa ser brasileira.
Esse povo deve achar que nao estava me torturando o bastante, penso.

Vou pro bar agora, espero que a banda KY nao esteja por la, Hell no, eu nao mereco.

quarta-feira, abril 09, 2008

Europa.

Bem, ja estavamos na Europa, apenas nao levamos "vida normal" se eh que isso eh possivel aqui.
Estava desejando muito a Europa, diziam que as coisas melhoram consideravelmente quando chegassemos no velho continente entao, como nao havia como as coisas piorarem, pensei, so devem melhorar - ledo engano.
O cruzeiro comecou, os passageiros estavam embarcando e erroneamente eu perdi a chance de acordar mais tarde (dias de embarque eu comeco as 11 da manha) gracas a uma tabela errada, entao este cruzeiro nao comecou muito bem para mim, posso dizer com certeza. Trabalhando eu sou um desastre, a pressao eh constante e meu stress bate nas alturas, tropeco, derrubo, caio, parece que nunca fiz nada em minha vida que exigisse um minimo de coordenacao e ja sou conhecido por isso.
"Prontos para quatro horas de agonizante prazer ?" eh a frase que falei a todos quando cheguei para a primeira noite de volta ao Polo Grill, o servico eh intenso ate as 10 horas da noite, como se nao bastasse trabalhar o dia todo como uma mula ainda somos massacrados no jantar e a presenca do chef executivo no local durante o servico nao tem ajudado muito nossa confianca e entusiasmo pois, gostamos de atalhos, caminhos mais rapidos de se obter comida pronta, truques basicos e picaretagens para ter que trabalhar menos porem, quando o chef esta presente, tudo tem que ser a la minute - do zero, o que nos exige mais tempo,atencao e cuidado redobrado quando se cozinha uma variedade imensa de opcoes.
Minha auto-confianca esta muito, muito abalada e meu medo de cometer erros fazem com que eu paralise muitas vezes por dia, eu fico completamente estupido e sem reacao diante de gritos e gente se atropelando. Estou realmente numa canoa furada.
As saudades de casa, dos amigos e da antiga vida esta comecando a atrapalhar meus pensamentos tambem, algumas horas estou choroso e so quero voltar para casa, em outras, estou no topo do mundo (principalmente quando consigo nao fazer nada errado).
Algumas novidades foram um sopro de vida nessa vila de zumbis, uma eh o Sous Chef Executivo Cyril, frances que odeia a Franca e qualquer coisa relacionada a ela (?), mora na Australia e parece simplesmente insano, quase todas as noites, paro no bar para tomar uma Heineken com ele enquanto ele fala sobre os podres da esfera mais alta da cozinha, divertidissimo, principalmente se considerar que ele eh um cara magrela, branquelo e com oculos espessos - seria um daqueles nerds da escola que depois resolveu entrar para o time dos chefs e descobriu a sacanagem da vida ? Penso em varias coisas mas nao chego a uma conclusao.
Amigos fazemos diariamente aqui, de verdade, muito poucas pessoas realmente se importam com voce e a ordem ainda eh a sobrevivencia - o que eh diferente para mim por escolher estar aqui, nao sobrevivo deste trabalho (enquanto pensar assim, posso sobreviver) mas a verdade eh que tenho andado deprimido, fora de prumo e com pena de mim mesmo, o que eh estupido pois para comecar, fui eu quem quis entrar nesta roubada entao melhor aguentar de boca calada e pronto.
Hoje, o chef executivo chamou para saber meu feedback e minha vontade era falar "Isso aqui eh uma merda, eu odeio trabalhar aqui para voces, com voces, e isso aqui nao eh nem comida de verdade na maior parte das vezes" o que foi sabiamente substituido por um "bom". Mas quando ele perguntou se eu sabia o menu diario, se meu chef de partie (a tortura) me poe a par dos acontecimentos diarios e se eu poderia descrever o menu de hoje, tive que falar que nao sabia, so sabia o basico diario e nao tinha ideia do que estaria cozinhando a cada dia. Ai, ele chamou meu chef torturador, ele foi avisado a me explicar tin-tim por tintim cada acontecimento e o que deveria fazer a cada passo do dia. Ele nao esta contente e acha que eu fui "dedura-lo", o que significa que nao vai ficar sem retaliacao e temo pela minha vida daqui pra frente, ele acha que dei corda e quer me enforcar com ela.
So por Deus.

terça-feira, abril 08, 2008

E mais...

Bem, Marselhe foi trabalho duro, mas teve seus momentos de graca,

Fui a cidade na segunda noite, para ver a tal de Marselhe e a Franca, pelo menos um pequeno pedaco desse lugar - desci da van de transporte do navio e me vi em um porto circundado por restaurantes, lojas, e charmosos iates parados em torno da pequena bahia. Escolhi um pequeno cafe em torno de uma praca belissima, pedi uma taca de vinho tinto e abri meu livro e fiquei assistindo a vida passar diante de meus olhos enquanto saboreava meu vinho (o mais barato, mas... ...tudo frances, nao eh ?) e aproveitei para provar (estava dando sopa no balcao) o melhor foie Gras da minha vida, era o sabor da felicidade, enquanto andava pelas ruas estreitas do centro da cidade.
Parei em um Pub local para uma cerveja - o pub eh igual a qualquer outro no mundo, esfumacado, feito de madeira e TVs semre ligada nos esportes locais e internacionais quando encontrei o chef da patisserie sentado sozinho. Pegamos nossas cervejas e fomos para umas das mesas do lado de fora e logo estavamos entrosados em um grupo de locais que pagaram Guinesses a noite toda, me fodeu o dia seguinte mas valeu a pena.
Os proximos dias de Marselhe foram nada mais que puro sacrificio e escravidao, vivia imundo, a lavanderia nao estava funcionando (e minhas roupas acabando) ficamos sem TV, internet, agua as vezes... ...eramos quase naufragos.
Ai, acabou, meu corpo e mente doloridos nao acreditavam, mas o pior ainda estava por vir.

sábado, março 29, 2008

Marselhe - cortem algumas cabecas...

Estamos, enfim, em Marselhe na Franca.

Chegamos em um misto de ansiedade, excitacao e principalmente cansados da travessia que pareceu exaurir a todos a bordo - acordamos com as encostas semi-aridas de Marselhe na Provenca e o Sol a nos brindar com um dos dias mais belos que ja vimos desde nossa partida, minha cabeca estava latejante pelo excesso de cerveja da noite anterior mas combinamos estar as sete e meia da manha a postos no deck da piscina pois durante um Dry Dock, somos designados a ocupar posicoes diferentes para terminar a reforma e dar suporte aos construtores que vem dos quatro cantos do mundo para realizar uma reconstrucao total em dez dias (parece um show de TV? Claro...) mas apesar do Sol, o vento frio de Marselhe e simplesmente cortante. Esperavamos excitadissimos nossas tarefas de construtores quando chegararam os primeiros guindastes do lado de fora para descarregar rolos e mais rolos de carpete, aparentemente, o navio recebera mais carpete brega para complementar os que ja possuia; os rolos sao trazidos de guindaste ate o deck da piscina e quando chegam ao topo e nossa tarefa, grudar na merda dos rolos pendurados, posicionar de maneira a nao obstruir o caminho e poder rolar o desgracado ate o lugar certo (pesa quase uma tonelada cada) retirar as cintas que o prendem, colocar os suportes de madeira e rolar os danados em cima dos suportes. Apos 30 deles, a vida comecava a perder o sentido, queria matar pessoas, suava, corria, em uma das descargas, tres rolos pousavam em sentido atravessado a pilha que ja estava no chao (fazendo com que rolassem e esmagassem a piscina) me fazendo correr ate o topo dos rolos, endireitar (no ar) a posicao de descendencia e soltar as tiras. Quando soltei as tiras, os tres rolos cairam sobre os dez outros abaixo, me fazendo pular rolos de toneladas em movimento ate o chao como um game do Mario Bros. Suei. Continua...

segunda-feira, março 24, 2008

Deu Zebra.

Imagine uma Zebra,

Seu pelo reluzindo ao Sol africano, suas patas fortes e sua pele macia brilham ao forte Sol dos estepes enquanto corre livre, leve e solta em busca de folhas e agua para se refrescar em um espetaculo de liberdade e leveza.
Agora, pensem na mesma zebra, sendo atacada por hienas, desesperadas, selvagens, em busca de comida e sangue - acuada lentamente pelas mais fortes, elas atacam primeiro as partes mais tenras como coxas, lombo e peito ate que o animal entrega-se e as demais oportunistas, de todos os tamanhos e tipos entrem para dilacerar visceras, entranhas, rins e figado em um espetaculo sangrento pela sobrevivencia.
A cozinha central do navio assemelha-se principalmente nos Domingos de manha e tarde, quando o brunch eh servido. Tentei em vao, juntar-me a linha de frente sem sucesso - os chefs Asiaticos e Indianos agrupam-se sobre a comida e montam os pratos como se suas vidas dependessem disso, movem-se erroneamente sem tarefa, instrucoes ou ordenacao certa como as hienas, deseperados por destaque (e promocoes) eles fazem qualquer negocio e nao toleram erros. E ai que eu entro.
Como novo integrante, eu recebo advertencias no minimo estranhas, sobre coisas das quais supostamente nao sei, mas eles adoram chamar a minha atencao e alguns nervos ciumentos ja estao expostos, mas a verdade mesmo, eh que eu sei que sou preferido para certos cargos pois, como disse o sous-chef executivo "voce vai receber merda destes caras sempre, pois voce eh branco". A mais pura verdade, especialmente quando quem decide quem levara as promocoes eh frances.
Anteontem foi um dia nada ortodoxo, primeiro tivemos o brunch de Pascoa que quase nos levou a loucura, a tarde foi anormalmente ocupada e a noite fomos atingidos por volta das 20:00 horas, comandas entravam e entravam, nosso novo chef italiano berrava a 180 Dbs simplesmente porque alem de grosso, o idiota tem uma voz de tenor fudida, chega a estremecer o inox da bancada e pelas oito meia, os alto-falantes emitiam o Codigo Mike, que significa emergencia medica, ocorrendo no salao do Grand Dining. Quando somos admitidos no navio, cada um recebe uma incumbencia especial de seguranca, ou voce vira bombeiro, seguranca, tecnico... ..ou da equipe medica, como eu. Recebemos treinamento a bordo e como tudo mais aqui, consiste em esperar sempre pelo pior (e nao se decepcionar, claro).
Ao ouvir o chamado, sai correndo, larguei avental, frigideira e fui ate o Grand Dining onde as pessoas embasbacadas esperando por mesas na porta e demais comensais abriam caminho para dez pessoas em atendimento sendo que apenas duas nao estavam em uniformes de chef (agora aquela gente deve ter certeza que medicos sao todos acougueiros) e la estava no chao, desacordado, um senhor de mais ou menos oitenta anos estabacado no chao, com um pouco de remorso rezei internamente para nao ter sido culpa da comida e se fosse, que seja um osso entalado na goela e a culpa teria sido totalmente do passageiro - mas pelo estado avancado de idade, diria que qualquer coisa podia mata-lo, desde uma porcao de pimenta ate uma leve brisa encanada que provocaria uma pneumonia.
Colocamos o senhor na maca enquanto ele acordava, fizemos o check-ups de primeiros
socorros e ele insistia que poderia ir andando, e eu falava que era procedimento padrao sem sucesso de ser ouvido, fiquei com vontade de gritar "NAO PODEMOS PORQUE JA COLOCAMOS VOCE NA PORRA DA MACA,JA ENCOSTAMOS EM VOCE E SE NASCER UMA ESPINHA EM SEU ROSTO< SOMOS OS RESPONSAVEIS", nao me levem a mal, mas tem uns velhinhos que vem para este cruzeiro que simplesmente nao tiveram a decencia de morrer, eh preciso que venha junto a familia toda para move-los, alimenta-los, etc... ...e ate agora, nao vi nenhum desses velhinhos de cadeira de rodas dar um leve esboco de sorriso.
Depois do Code Mike, voltei para meus afazeres e uma secao de acompanhamentos bastante complicada pela minha ausencia e os calos e bolhas em minha mao ja denunciam que stou de volta a cozinha.
Hoje, paramos em Barcelona e nao pude nem dar uma olhadela, estamos entrando em Dry Dock que significa ficarmos parados em Marselhe para manutencao por dez dias, mas isso nao significa moleza - temos que ajudar os contrutores, carregar coisas pesadas e descarregar (por exemplo) algumas toneladas de rolos de carpete do guindaste.
Barcelona, mesmo vista de longe teve um apelo quase erotico para mim, daria de tudo para descer e dar uma volta pela cidade, senti como se estivesse em frente a minha casa e nao pudesse entrar, cheguei a ficar deprimido ao pensar que Barcelona estava la, vivida e pulsante bem na minha cara e eu nao poderia nem tomar uma cerveja em qualquer bar local, pelo menos ate o proximo trajeto que inclui a cidade.
Muitas pessoas ja desembarcaram (da tripulacao) e outras estao chegando e os animos estao mais amenos com a chegada a Europa, meus nervos estao ainda sofrendo com esta coisa de navio mas eu nao me deixo derrotar ainda, decidi hoje que pretendo terminar este contrato e gastar meus ganhos como um marinheiro bebado viajando pela Europa, sabe-se la quando terei a oportunidade de fazer isso de novo. Quero viajar, comer, beber e dormir o quanto me agradar durante essa viagem, quero voltar um porco gordo e rosado, depois dormir umas 45 horas direto em minha cama no Brasil.

sábado, março 22, 2008

Agadir.

Hoje, paramos em Agadir.

O navio em seu balanco costumeiro me deu bom dia, acordei ja me sentindo cansado pois tive uma noite de sono conturbada - sonhei com pessoas que nao vejo ha muito tempo, sonhei com pessoas que vi ha pouco e tudo misturado (ninguem daqui do navio, pelo menos) mas o dia prometia ser agitado de certa forma, fora a minha conviccao de sair dar uma olhadela em Agadir, a perola do Marrocos.
A manha, como de costume foi complicada e meu nariz escorrendo nao ajudaram (nem a dormir, tambem) mas fui salvo as 10:15hs por um treinamento de emergencia - meu supervisor disse que nao precisava voltar entao iria vagabundar ate as 12:00hs. pelo menos. Nao menos feliz, cruzei logo em seguida com o chef do deck 9 dizendo-me para comecar as duas ao inves da meio-dia, quatro horas de folga !!! Pensei comigo, esta eh a hora e nao deixarei passar, voei para minha cabine, me troquei e la fui eu de bermudao e camiseta ao sol do Marrocos. Sai do gangway (escada) e fiquei pasmo pelas montanhas semi-aridas, as formacoes... ...e pela inexistencia de um porto de verdade, daqueles com lojas, etc... ..apenas conteiners jogados ao leu.
Havia Yuli, uma chef francesa e um rapaz negro, pegando um taxi e logo que me viram me chamaram para rachar a despesa. Saimos do porto em direcao aos Suks, feiras e mercados ao ar livre e no caminho vimos predios impressionantes, mesquitas, burcas e mini-saias entre uma colisao entre o antigo mundo islamico e o nosso moderno ocidental, carros muito antigos em meio a SUVs, tudo ao mesmo tempo agora.
Agadir foi deastada por um terremoto em 1968 e 3/4 da cidade foi ao chao, deixando 15.000 mortos e ate hoje parece estar em reconstrucao.
O mais legal, foi o mercado - cercado por muralhas que parecem berberes, um forte, tem mais de 6km de extensao dentre barracas que vendem quase de tudo, roupas, temperos, sapatos, eletronicos, etc...
Um rapaz se apresentou como guia, e querendo nossos dolares foi mais que prestativo, comprei sabonetes (barras enormes e deliciosas), pasta de dentes Colgate e hidradante e desodorante a uma quantia irrisoria.
Ao final nao resisti e vi uma bolsa de viagem Louis Vuitton, o comerciante queria US$ 45 e eu tinha apenas US$ 40 no bolso sendo que 10 eram destinados ao taxi; apos alguma conversa, ele nao querendo, eu querendo mas fingindo que nao queria, dei as costas e ele arregou me deixando com uma linda bolsa de viagem (meio feminina, eh verdade) que sera util tanto para carregar minha tralha quanto para um belo presente para alguem mais tarde (iria ficar ridiculo eu andando com aquela coisa por ai o tempo todo), mas a verdade eh que a bolsa eh simplesmente tao boa quanto a original - os comerciantes preferem morrer a vender porcaria, descobri. Pena que so la mesmo...
Voltamos com a sensacao de missao cumprida e eu com um pouco de nocao sobre o que estou fazendo aqui nesta jossa ambulante - alguma coisa vai valer a pena eventualmente.
Depois de amanha, Barcelona e dez dias em marselhe para manutencao, quando nao teremos passageiros.

Um barato total este tal de viajar, pena que nao dura muito.

sexta-feira, março 21, 2008


Eu e a Pats no casamento da amiga dela. Amei essa foto.

Como uma onda...

Se voces acham que trabalhar em uma cozinha ja eh conturbado, tente em uma cozinha se movendo lateralmente - hoje o mar esta agitado, e claro, bem na hora do jantar - panelas escorregando, transbordando nas chapas (nao tem chama, pois eh um navio lembra ?so chapas eletricas) utensilios desaparecendo e um assistente de cozinha paquidermico que normalmente, enquanto grita em hindu o tempo todo ja se acotovela em mim, praticamente me arremesando atraves da estreita linha de fogoes, na proxima vou segurar um garfo de churrasco o tempo todo. Aquele balofo simplesmente nao cabe em uma cozinha.
Na real, o cenario eh bizarro, hilariante, todos tentando fingir que nada esta acontecendo e tentando colocar os steaks nos pratos fugitivos, sabem aquele brinquedinho em que voce fica com uma marreta tentando acertar as cabecas dos bichinhos ? Parecido.
Agora, tenho que me embebedar e ir dormir, amanha chegaremos em Agadir/Marrocos e tenho que descer pelo menos para tomar um cafe do lado de fora e voltar ao trabalho.

Estou em meu uniforme imundo, descabelado e rindo pra cacete ainda...

Coracao, deixe na porta.

Para se viver em um navio, voce deve deixar certas coisas na porta;

Seu passaporte (voce achou que pode simplesmente desertar um navio?) que eles seguram para poder tambem informar as imigracoes, sua assinatura em varios papeis e pasmem, seu coracao e sua identidade, personalidade e tudo que faz de voce... ...voce. Mas as suas bolas sao bem-vindas a bordo, muito obrigado.
Depois de dias ralando, deprimido, chorando e sentindo pena de mim mesmo (eu sou o rei do drama), eu estou um pouco mais rapido no trabalho, ja sei aonde algumas coisas ficam e ate esta ficando mais facil sem contar a dor-de-garganta de ontem com leves toques de gripe (esta, que esta dizimando o staff da cozinha) mas ontem eu resolvi dormir mais cedo e hoje o dia nasceu mais feliz por varias razoes.
A primeira, foi logo de manha, quando fui ate o acougue buscar as carnes (ainda tropecando e sonolento) e o acougueiro com cara de poucos amigos (de vez em quando ele eh extremamente amigavel, outras, nem tanto) e quando fui pegar a bendeija errada ele veio com tudo para cima de mim, falei que estava sonolento por causa da gripe e ele disse que nao se importava com minha gripe, que as coisas eram diferentes aqui. Ao trabalhar logo apos disso, senti raiva. Muita Raiva.
Depois minha cabecinha que anda por lugares estranhos e desaconselhaveis, comecou a processar a informacao - esse povo (Asia/Filipinas e India) nao tem o mesmo senso de humor, nao se importam com ninguem e por isso tranformam o ambiente de trabalho aqui um lixo, nao sabem se divertir e trabalhar como todo o resto da humanidade, entao cheguei a conclusao que eles nao merecem um cara legal, nao querem, merecem sim um belo pontape de vez em quando e a partir disso, relaxei. Tive a manha mais calma desde que cheguei.
Ao trabalhar com meus colegas de lancheteria na piscina, simplesmente fiquei fazendo o que sou permitido fazer (por eles, bem-entendido) e fiquei repondo estoque, fazendo guarnicoes de prato e pasmem, cortando pao como se nada estivesse acontecendo. Eles trabalham desesperados, como se o mundo fosse acabar - na verdade como micos amestrados, mude uma palha do caminho e pronto ! enlouquecem a eles e a quem estiver em volta. Na verdade, o que fazem eh patronagem das brabas.
Inclusive, uma brasileira a bordo passou por la para saber como eu estava, ontem ela havia me visto no mais sombrio dos humores e hoje ela queria saber como estava, e ai mora a diferenca entre nos e eles, a solidariedade. Deus a abencoe, ela nao sabe o quanto me fez bem.
Temos um novo head-chef italiano para as tardes na lancheteria e no Polo Grill, e para minha infelicidade ele fala portugues (um pouco), pois ele geralmente fala aos gritos e naturalmente eh grosso e mal-educado. Outro dia, ele entrou no meio do servico da lancheteria lotada (sim, ele entra NO MEIO de nos) e comecou com a costumeira falacao e gritaria conosco, sem o menor pudor. Quando um dos clientes analisando a cena disse para ele pegar leve, ele disse "sou italiano, meu jeito eh assim, sabe ?" - pensei na hora, como sou italiano, tenho o direito de ser um cuzao, sabe ?"...
A noite, ele entra NO MEIO DA AREA DE COZINHA, e sai provando tudo com sua colherzinha para ver se esta do seu agrado, mas para sua salvacao, ele esta apenas se defendendo. Quero que ele se ferre, ele tenta me agradar agora pois eu nao olho para a cara dele.
Na verdade, tudo que eles querem sao seus culhoes, seja para te castrar ou para que voce os use para trabalhar, mas a verdade comeca quando se percebe que esta completamente so nesta cozinha dos infernos. Doulgas Ramsey daria gritinhos de pavor aqui dentro. Senhores, eu conheco o inferno e estou ardendo nele.
Agora... ...a parte do coracao, assim como meu passaporte, pegarei de volta na saida, para poder voltar para casa e usar com quem eu gosto.

quarta-feira, março 12, 2008

Ainda...

Ok, vou tentar contar o resto, nem lembro de onde parei...

Enfim, os primeiros dias sao de puro sofrimento e adaptacao - fiquei deprimido de cara ao ver as instalacoes e saber que trabalharia com mais um chef maniaco-maquiavelico-sadico, mas bola pra frente, afinal, sao oito meses e eles tem que passar rapido ! Trabalhei a tarde novamente na lancheteria da piscina e os corpos dos passageiros (todos acima dos 60 anos) constitui o que podemos chamar de show de horrores, eu fico olhando para os passageiros passarem e falo baixinho "fecha a camisa, cara, fecha..." enquanto preparo as saladas e hamburgueres (que na verdade, eh o chapeiro que faz). Mais duas horas na tortura de Bombai, e depois do break para o jantar, Polo Grill, que eu amo cada vez mais.
A noite, paramos no Rio, onde poderiamos descer para aproveitar a noite e visto que eu nao tinha nem um real em especie e nenhum caixa eletronico por perto, decidi ir com um amigo peruano tomar uma cervejinha no bar local (embaixo de uma zoninha local tambem) onde os especimes mais estranhos circulavam - nem os chefs que estavam ha meses no mar tiveram peito para encarar as prostitutas locais; a cerveja estava gelada, eu e o peruano comecamos a conversar e a vida comecava a fazer sentido.
Depois da decima garrafa, uma mesa de chefs decidiu me chamar para ser o interprete de prostitutas, trabalho pago com... ...mais cerveja. As duas e meia eu voltava quase carregado pelos meus colegas, cambaleando e trocando as palavras ingles/portugues como um site de traducao em crash - desabei na cama e so iria trabalhar as onze da manha, mas como a lavanderia fica aberta ate as oito tive que levantar e ir pegar um uniforme ( a ressaca era incrivel), dormi mais uma hora e fui tomar o cafe da lancheteria que poderia facilmente ser confundido com cha - consigo ver o fundo do copo (serio) e minha necessidade por cafeina diaria esta muito abaixo dos niveis aceitaveis. Apos tudo isso, voltei do Polo Grill para a tortura de Bombay e o chefe me pediu para cortar frango assado em pedacos, eu comecei a tirar as espinhas dorsais e ele ficou irritado sem motivo e de faca na mao, tentou arrancar a maldita ave de mim, ao passo que a faca enterrou a ponta em meu dedo indicador direito. A expressao de horror dele era impagavel, tentou segurar o meu braco, nao sabia como pedir desculpas e meu dedo comecou a sangrar por dentro da luva de latex - falei que nao era nada e ele ainda arrependido, no mesmo momento haviam dois chefs na mesma bancada estarrecidos e nao quis dar tanta atencao ao caso, simplesmente (e internamente irritado) catei a faca com toda a raiva e com tres poderosas batidas eu fatiava o frango em quatro pedacos.
Apos uma conversa franca, depois do incidente, ele pediu desculpas, falou que estava sob constante stress (o que concordo) e de la pra ca as coisas andam mais amenas com ele (talvez pelo medo de eu reportar o incidente, talvez por sincero arrependimento eu simplesmente nao dou a menor) mas a vida tem sido agradavel desde entao.
estou fazendo amigos, todos sabem que eu sou "o brasileiro" , unico na cozinha e as gracinhas, piadinhas, e etc... com minha nacionalidade pipocam quando eu passo.

A vida comeca a fazer sentido aqui, amanha, Salvador - parada overnight.

Que o Senhor do Bomfim me ajude.

segunda-feira, março 10, 2008

Enfim dentro das entranhas da baleia.

Enfim, cheguei em meu destino itinerante - O Insignia tem mais de 400 tripulantes, ate 800 passageiros e navega a 33 km/h, e o que voce tem a ver com isso ? Nada.
Ja eu, desde que cheguei foi uma depressao so, as instalacoes para empregados nada lembram as suntuosas suites dos passageiros, tenho certeza que em algum ponto alguem simplesmente disse "joga uma tinta ai e ta tudo certo".
Ao entrar, fiquei admirado com o numero de pessoas circulando para la e para ca (sempre muito depressa) e so tive tempo de arrumar minhas coisas e as cinco estar na cozinha. Meu armario lembra aqueles de clube, verde de metal e ja meio amassado pelos ocupantes anteriores.
Cheguei na cozinha central, meu chefe eh um indiano que nao tem a menor paciencia com meus dois anos sem pratica e tem derradeiros ataques de furia (problema dele) trabalho na beira da piscina a tarde e a noite em um restaurante chamado Polo Grill no topo do navio - o head chef eh o cara mais legal do mundo e um dos funcionarios me explicou tudo por etapas, ate que outro funcionario entrou no lugar do organizado e comecou a ferrar meu esquema - ele ate que eh legal, mas passa a noite inteira atropelando meus pedidos, chamando os acompanhamentos na hora errada e me dando esbarroes (ja esta estragando minha brincadeira, veja so) pois trabalhar ali eh o ponto alto do meu dia depois da hora de passar o cartao para ir dormir.
O bar do staff parece ate aquelas zoninhas de filme mexicano, pintada de laranja e azul marinho, tem espelhinhos na parede, luzinhas tipo de natal por todo lado e... bem, um terror, apesar de tudo ser bem barato por ali.
Hoje, por um exemplo, tive uma pessima manha com o indiano, depois passei a ter um pessimo dia servindo os clientes no buffet (peru, cortando e servindo de uniforme e boina, cacete, eu sou um cozinheiro !) se tivesse que dar mais um sorriso minha face quebrava, saindo diretamente para o jantar onde o desastrado caminhao fez da meu unico prazer em trabalhar, um pesadelo.
Penso todos os dias se vou aguentar, tenho que ser duro, tenho que ser forte - se conseguir fazer isso aqui, consigo tudo mas tem sempre um lado bom, os patroes (chefes de hierarquia) sao todos muito gente fina, pois chefe ruim ninguem merece.
Tenho que ir dormir agora, espero ter tempo para escrever mais, tenho mais coisa para contar logo....

Vou dormir, bem, ninguem disse que iria ser facil.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Complicações.

Ok, conseguir reunir todos os exames entre Santos, Sorocaba e Guarulhos seriam alguns dos trabalhos de Hércules, facilmente, mas agora ter que tirar mais um certificado para embarcar em Santos é mais uma provação - caso contrário o embarque passa para dia 10 no Rio de Janeiro, meus Deus, isso não tem fim !!!
Visto dos Eua, na mão, exames na mão, Formulários para o Seaman's Book já estão em Miami, prontuários médicos estão comigo, e quando se acha que está tudo bem, mudança nas leis de imigração brasileira te pegam pelas bolas.
Não tive tempo para nada, semana passada dirigi 1000kms por conta disso, não fui à academia (que diferença faria agora) e estou chegando ao fim - quero homicídio, sangue, não aguento mais burocracia. QUERO TRABALHAR LOGO e pronto,

Não falei nada com nada - eu ando assim agora.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Algo maior.

Esta semana recebi os prospectos, contrato e muita confusão com papéis para resolver meu plano de fuga - são dois vistos americanos (já tentaram marcar entrevista com o consulado : é desesperador), um visto mundial de portos, um exame médico extenso e caro e claro, todas as coisas que vão ficar para trás terão que ser resolvidas.
O exame médico, só a lista do que abrange toma duas folhas impressas inteiras ,desconfio que irão enfiar um tubo de seis polegadas no meu rabo para olhar por dentro, serão picadas, apalpações e instrumentos gelados, perguntas indecorosas das quais fazem você se sentir um alcóolatra, toxicômano, pervertido e relapso fora as sessões íntimas com copos de plástico com tampa. O consulado americano vai achar que você é um mexicano sedento por capitalismo selvagem, que é um cubano em uma jangada suplicando para por os pés em território americano e na real, eu nem gosto dos EUA tanto assim. O que a gente não faz por um trabalho.
Mas uma coisa é certa, desde ano passado estou me preparando para uma coisa maior, não acho que o emprego seja a tal coisa, mas um meio para me levar até algo que eu não sonho em ter ainda, fazer contatos interessantes, lugares... ...eu sonho pra caralho mesmo.
Não só culinária francesa, mas poder passar pro Provence para ver de perto o que é - significa bem mais para o aprendizado do que 100 receitas, acreditem. Receber os ingredientes locais em cada porto (e prepará-los) deve ser o êxtase de qualquer cozinheiro que se preze, cada lugar tem a sua gama de produção local e com ela muito de sua geografia, cultura e hábitos. Sim eu sonho grande.
Aprender palavrões em mais de 30 idiomas com a equipe, ver de perto os chefs franceses trabalhando no navio (não são poucos), sair dessa experiência com grande especialidade em cozinha francesa deve abrir algumas portas com certeza - ainda que seja para cozinhar em qualquer bistrozinho por aí, fazendo o que gosto. Eu sonho enorme.

Só espero que o sonho não se torne maior que eu, assim é que a humanidade projetou as maiores tragédias (nazismo, Titanic, Babel...).
Mas enquanto eu puder tentar conciliar estas expectativas... ...eu sonho pra cacete.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Oitava série

Um dia, você acorda e está na oitava série, no outro, você tem dezoito anos e pode dirigir, beber, comprar pornografia e ir onde bem entender.
Antes, não ser aceito pelo grupo do qual queria era a tragédia, o fim da sua vida, o grupo de garotas lindas da escola jamais te daria atenção a não ser que realmente precisassem do seu trabalho de EMC para copiar e roubar o carro para dar uma voltinha era a glória - saber quem estava ficando com quem, quem iria ao baile (e ficar com quem), quem comprou o tênis do momento, o videogame, quem conseguiu passar de ano direto; tudo muito estimulante além de nos fazer sofrer pacas.
Mas as coisas mudam, alguns casam, outros enriquecem e outros empobrecem, nem tudo é uma tragédia e o último lançamento da Nike já não empolga mais como deveria, como a vida se torna chata, quando se é adolescente tudo é escancarado e aberto (quanto mais platéia melhor) exceto por algumas partes que apenas escondíamos, hoje, aprendemos a mentir e disfarçar para poupar-nos de sofrimento desnecessário por admitir que não somos bons ou perfeitos o bastante, que coisa.
Agora, é a casa, o carro que alguém comprou, quem casou e separou, quais mulheres e homens não se gostam (apesar de fingir o contrário), a TV de 89 polegadas LCD, quem teve as melhores férias, quem está traindo quem... ...segredos passam a ter grande parte de nossos dias, antes escancarávamos o que acontecia na casa de nossos pais e agora, escondemos o que passa em nossas próprias - qualquer coisa é melhor que um escândalo (antes, nós causávamos o tal do escândalo) e partir daí, trabalhamos, socializamos e ainda temos que arranjar tempo para nossos dramas pessoais.
De verdade o que mudou : quase nada.
Ao invés do tênis, são os carros, ao invés dos casinhos, os casamentos e seus obscuros bastidores, ao invés da escola, carreiras muito ou nem tão brilhantes mas um ponto continua o mesmo; sermos aceitos pelo grupo.
Nossas namoradas gostosas se tornaram donas-de-casa, profissionais e mães em tempo integral (e esperar que ela use o vestidinho de oncinha ainda por cima ? acorda), nos tornamos mais gordos, carecas e grisalhos e a não ser que esteja em uma Ferrari, as gatinhas não vão se entusiasmar com a sua passagem, acredite. Quando se é jovem, o cabelo voa ao vento, os dentes são branquíssimos e sua pele (já depois da acne) poderia ser vista em um comercial da Calvin Klein, sempre bronzeada pelos dias praticando esporte na quadra e seu abdomen então, rocha.
Fundamentalmente, somos os mesmos, um bando de adolescentes que ao invés de fumar escondido de nossos pais, fumam escondidos das esposas e maridos, beber idem (até porque, você aguenta bem menos), os dias sem dormir na balada são substituídos pelas vigílias aos bebês e as viagens passaram a ser mais escassas e luxuosas - camping nunca mais, mas se os filhos quiserem, você vai dormir em uma barraca de 1X1m fácil.
E enquanto observo a galera de 20 anos se divertindo com pouco (ou muito), ficando dias à fio sem dormir e se preociupando apenas com as notas da faculdade sinto uma ponta de inveja, ah meus vinte e poucos...
Ainda sonho com a Ferrari, ainda tenho horror à acne e estou constantemente tentando ser aceito pelo meu grupo (pelo menos hoje, eu já sei qual é, pela vida) então de verdade, será que alguma coisa mudou, seriamente ?
O grupo de gostosas ainda não me aceita. Aliás, nem tenho grana para acompanhar os maridos delas.
Ainda por cima, trabalho em cozinhas, a terra do nunca profissional - eu não vou crescer nunca. Graças a Deus.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Comfort Food. Saia da sua zona de.


Vamos falar sobre culinária, várias pessoas me cobram e eu tenho algumas coisas a dizer sobre essa modinha aí de Comfort Food.
Primeiro, o que seria a tal da Comfort Food ?
Comfort Food é a nova invenção na qual os clientes vão até um restaurante ou supermercado comprar alimentos que induzam ao bem-estar através de reações mnemônicas trazidas pelo sabor, olfato, etc... ...ou seja, sua memória irá trazer 70% do prazer obtido na refeição, os pratos são receitas costumamente preparadas nas casas brasileiras tipo, strogonoff, rocambole de carne, picadinho, brigadeiro, etc... ...para quem viu o filme Ratatouille, é o que acontece com Anton Ego ao provar o Ratatouille, em que se recorda da sua mãe lhe servindo o mesmo - traz lembranças da comidinha da mamãe. Orfãos estão excluídos do mercado, que crueldade.
Os sucos com gominhos lançados recentemente, por exemplo, são baseados no conceito.
Louvável a intenção, trazer uma lembrança antes esquecida de nossa terna infância e ainda lucrar os tubos com isso (quanto custa fazer um picadinho, eis a questão) mas em minha solene e sincera opinião, os clientes merecem mais que isso.
Eu, por exemplo, jamais pegaria meu carro, enfrentaria trânsito, pagaria o manobrista e ficaria esperando por uma mesa comendo torradinha de pão amanhecido para comer um picadinho de carne com chuchu e abobrinha, não obrigado.
Brigadeiro de colher então... ...prefiro um Créme Bruleé bem tostado o açúcar e eu que me vire com o colesterol depois.
Quando vou à um restaurante (para jantar, bem dito) gostaria de ser desafiado pela comida, de me achar um ignorante por não saber como chegaram a tal resultado, ser até insultado pelo prato se for este o caso mas achar que qualquer restaurante vai fazer a lentilha com arroz e pimenta síria igualzinho ao da minha avó, diria, que nem mesmo com as mesmas panelas, a mesma cozinha e os mesmos ingredientes eles farão alguma coisa remotamente parecida (talvez executem até melhor o prato) com a experiência quase religiosa que era comer naquela casa simplesmente pelo fato de que: Ela não está mais lá. Este momento passou e deve ser guardado em minhas memórias mais ternas, agora, é minha vez de criar estes momentos para as pessoas que estão à minha volta.
Pela minha experiência, a grande maioria das pessoas não gosta de se aventurar quando o assunto é comida quando deveriam estar fazendo simplesmente o contrário, comer é também viver um lugar, uma situação, um romance. Se o restaurante fechar, se nunca mais achar aquele prato especial, fazer o quê ? Ao menos você já tem isso em sua memória e nunca irá perder. Achar que servir o mesmo prato de quando se conheceram irá faze-los esquecer da última briga é um erro - como um prato de comida os fará esquecer do cortador de unhas na sala, do chão do banheiro molhado constantemente, da tampa da privada levantada ?
Meu conselho - siga em frente, experimente tudo que lhe interessar e recomende depois.

Saia da sua zona de conforto, sempre.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Legado


As pessoas buscam na vida, ter um legado - essa palavrinha estranha.
Oara alguns, Legado significa deixar bens, uma empresa, uma instituição ou até mesmo uma placa de bronze, os seres humanos são complicadíssimos dessa maneira - passam a vida inteira querendo esquecer muita coisa, mas pretendem ser lembrados apenas pelas razões das quais gostariam de ser lembrados.
Para alguns, essa memória seletiva (e conveniente) pode ser tanto para enaltecer alguma coisa que julgam fazem muito bem, ou para completar lacunas que gostariam de ter preenchidas ou até para compensar a falta de grandes feitos enquanto outros preferem ser lembrados pelo que tem ao invés das coisas que possuem - seja uma casa, um carro, o salário, as roupas e por aí vai. As coisas que possuímos ? Sabedoria, coragem, brio, inteligência, senso de humor...
Pais recebem méritos pelos filhos, filhos são um legado à parte, quem não sabe ? Já os filhos que recebem o legado dos feitos de seus pais, carregarão o fardo pesadamente (os filhos do Antônio Ermírio talvez nunca cheguem aos pés de seu pai) mas a cobrança será vitalícia, que pesadelo deve ser isso.
No meu caso, gostaria apenas de ser lembrado - não quero bem um legado (pelo menos não no tom sério que a palavra tem sido usada)gostaria de uma coisa mais simpática e menos emulativa, tive meus momentos de coragem, ousadia e aventura dos quais fazem meus olhos brilharem a cada lembrança, fiz coisas que gostaria que as pessoas fizessem pelo menos uma vez na vida (assim como conheci pessoas que tinham experiências que gostaria de ter), não descobri a cura para o câncer nem ganhei um Nobel mas saí o quanto pude e nem sempre o quanto gostaria da minha zona de conforto, vi a Ásia (um pedacinho dela), Oceania, mudei de carreira aos 30 como quem não quer nada da vida, pretendo correr o mundo só para satisfazer minha curiosidade e nunca ficar me perguntando tanto "e se". Gostaria que as pessoas lembrassem daquele doido, imbecil que ficava rodando o quanto podia pelo mundo, que não se acomodava e que talvez fantasiem que eu era um Jacques Cousteau, um Amyr Klink ou apenas um mochileiro desvairado (o que é a verdade, não acrescento nada à humanidade eu acho)ao invés do cara que tinha o carro prata, que era de tal classe, que usava tal coisa... De verdade, disso ninguém vai lembrar mesmo, estas coisas não nos fazem únicos - pelo contrário, na esperança de se destacar as pessoas estão ficando cada vez mais iguais (o que é a moda então? uniforme,eu digo), lembro de tal deputada mais pela ousadia de ter cabelos roxos/vermelhos/azuis do que pelo trabalho dela (um pouco triste isso), mas a verdade é essa, essas coisas que nos fazem únicos e memoráveis.
O oposto, ordinário e ortodoxo, eu posso citar aos montes, proprietários de Mercedez - Juntem-se aos outros milhares pelo mundo, proprietários de Mercedez que escalaram o Everest - não devem existir muitos e quantos você conhece, aliás ?
Viu que diferença - o cara jamais será lembrado pelo carro, vai ser o cara que escalou o Everest e pronto.
O que te faz único e memorável, na minha opinião são justamente as coisas que o fazem ser amado e odiado - as pessoas podem te admirar pela sua inteligência, generosidade, senso de humor, etc... ...e podem te invejar exatamente pelas mesmas qualidades.

Meu legado, feliz ou infelizmente, será o de ter sido apenas eu - único, assim espero.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Esperar

Nossa sina nesta vida é esperar, não adianta - espera-se por tudo (deu para perceber que eu tenho sérios problemas em esperar qualquer coisa), bem, a saga da semana passada em Santos (novamente) me disse bem o que pode ser esperar.
Esperei até confirmarem o e-mail da entrevista, quase surtei pois a hora e local foram confirmadas um dia antes, depois esperar ate a manhã seguinte (na pousada do tropeço, parece que é a única que tem vaga sempre) esperar até a loja abrir de manhã em Santos para comprar uma camisa (na pressa peguei tudo preto - calça, camisa, sapato) esperar o pouco trânsito sa Avenida em Santos até chegar no cais, esperar na fila de visitantes para pegar meu passe e subir no Navio, aí que o bicho pegou.
Cheguei esbaforido às 9:30 no estacionamento do maldito cais (porquê não põe uma merda de uma placa lá dizendo: Embarque de passageiros, difícil isso), cheguei ao estacionamento dentro do cais para ser informado que não se poderia estacionar ali, sem hesitar simplesmente atirei R$ 20,00 na cara do manobrista ali e sem uma única palavra minha ele só me disse "me segue" - guardei o carro nas vagas reservadas para operadoras e voei para dentro. No guichê de visitantes, teria uma suposta lista que diz quem entra e quem não entra no navio, óbvio que meu nome não estava incluso, já eram quase dez, a entrevista marcada para a dez e eu enlouquecendo ali, liga pra cá, telefone de lá e as atendentes já sentindo meu desespero. Dez e meia, resolvi ligar para o meu cafetão (meu agente) para que ele providenciasse um aviso de que eu estava lá plantado.
Meio-dia, e lá estava eu plantado, criando raízes fundas quando chega a tão sonhada lista com meu nome incluso - corri até o microônibus que leva os passageiros até o terminal e cheguei ao tão desejado navio, um luxo, a majestosidade do salão de entrada era tanta que chega a beirar o brega, mais uma espera até o filipino de plantão conseguir contatar meu entrevistador, enquanto isso, as pessoas saindo e entrando e eu com cara de paisagem esperando.
Chega um baixinho em roupa de chef, sua doma é bordada, em um inglês estranho pede para acompanhá-lo e enquanto andava realizei que pelo uniforme, era ele quem mandava ali. Rezei em voz baixa "não seja francês, não seja francês..." quando entramos em um dos restaurantes vazios, ele se virou e disse "sit down... sivouzplait" - PQP, perdi o emprego antes de começar. Para aqueles que acreditam que não há situação ruim que não possa ser piorada, chega o Gerente de operações, me diz oi e fala em francês com o chef, já comecei a escrever minha lápide ali - Aqui jaz um candidato que sucumbiu a França e sua culinária. Fui sabatinado com nomes de pratos em francês, para traduzie, lembrar e explicar de volta em inglês, eu era uma ONU sentado ali. Nem preciso dizer que eles acabaram com a minha raça, quando você pega numa faca, já está em dívida com os franceses, acredite. Negocia daqui, negocia dali, muitas perguntas e explicações depois, já estava contratado, eu acho. Minha cabeça ainda girava, rodava... me mostraram as cozinhas, os restaurantes, os chefs me viam passando, alguns diziam "bem-vindo" (será que eu fui contratado) outros me comiam com os olhos, enraivecidos, principalmente os membros filipinos e um frances. Intimidador, porém nada a que eu não esteja acostumado. Deixei o navio, esperei pelo ônibus e voltei, meio que não acreditando que estava contratado, de verdade ninguém havia feito um aviso oficial. Mais uma espera.
Na Sexta, chegara o e-mail me dando boas vindas.
Agora, espero pelos documentos exigidos, pelas datas, etc...
A espera nunca termina. Depois será a espera de embaracar, de desembarcar.

Mas eu vou - sou o novo funcionário de um navio rumo ao mediterrâneo.

Espero sim, que tudo corra bem.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Enfim...


Uma luz, um e-mail pedindo a cópia do meu passaporte, graças a Deus, enfim alguma coisa para me acalmar um pouco. Drama o caramba, tente esperar por qualquer resposta que afetará os próximos anos, meses de sua vida e veja como voc~e se sai...
Neste meio-tempo, tento emagrecer todos os kilos da ansiedade (estou um porco)vou à academia, dirijo meu carro por aí e espero...

Mas senhoras e senhores, eu vi a luz !!
Amanhã prometo alguma coisa criativa, estou sem paciência hoje (eu e paciência na mesma frase só assim...)

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Suspense


Este suspense está me matando.
A tal da entrevista de emprego para o navio está marcada para dia 13 de Dezembro, e até agora meus agentes não enviaram confirmação, geralmente eu não me importaria tanto mas desta vez eu quero saber !!!!
Odeio suspense, quando quero suspense para a minha vida eu alugo um DVD, na verdade mais que o suspense eu não aguento esperar (a espera me mata) esperar para as coisas acontecerem é simplesmente torturante - esperar pelo ônibus, esperar por uma carta, esperar por um telefonema, fila do aeroporto, sala de espera do médico (se for resultado de algum exame então... ...surto), enfim, esperar é simplesmente a pior coisa do mundo para mim. Odeio fila, fila de banco, fila para tirar documentos, fila em qualquer caixa, fila para comer então... prefiro passar fome, não consigo e não aguento.
Tenho inveja de gente rica, que não precisa esperar por nada, passam direto pelo check in no aeroporto, as lojas se desdobram para entregar a roupa o mais rápido possível, Tudo tem hora marcada e preferência para eles, dinheiro compra imediatismo afinal tempo, é dinheiro quem nunca ouviu falar ?
Aliás o tempo sempre foi meu inimigo, eu brigo com ele mas tenho que me sujeitar às suas intempéries e subjetividades - devo ter nascido prematuro, não sei esperar nada.
Até o carro que está decidindo se estaciona ou não, aquela pessoa que anda devagar na calçada (quero secretamente dar um soco na nuca), gente no caixa eletrônico que demora a digitar e consulta 10 papeizinhos para pôr a senha, etc... ...tudo isso me faz pensar que devo perder meses por ano de minha vida esperando, se fosse contabilizar tudo isso vejam só, talvez seja minha natureza e não tem cura, vou estar eternamente em uma corrida contra o tempo (infrutífera) e todos sabemos que no final, ele ganha e se acaba para você. A maior ironia, a gente nasce, cresce, aprende cada vez mais, fica mais sábio e quando está perto da perfeição, morre.

Caramba, queria muito que o tal do e-mail chegasse, pois nem tempo para escrever isso eu tenho agora... ...e se a tal da entrevista furar, será um desperdício de tempo total e completo ?
 
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