segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Carnaval... é tudo Globeleza !!!

Caramba, é carnaval no Brasil e eu aqui na crise da meia-idade avançada !!!
Porque é o seguinte: eu não sou o maior fã de carnaval que existiu, até gostava por ficar cinco dias longe do trabalho e por poder beber sem ter uma desculpa social pra isso - mas de resto é tudo Panis et Circus, brasileiro esquece da vida no carnaval e nem lembra que CPI existe, nesse momento tá tudo parado no Brasil porque somos exóticos (já cansei de ser chamado assim por aqui também, brasileiro é exótico, se fode e ri ainda por cima), claro que gosto de ver o povo feliz esquecendo das vidinhas que levam todo dia, na verdade nós até precisamos disso para fazer a vida ter sentido.
Mas, pode entrar nos sites de notícias e ver se o Lula, CPI estão nas news, nada crianças, todos os pecados são perdoados no carnaval e uma agenda no governo deve estar programada para o carnaval : vamos aproveitar o tempo fora da mídia e voltar com o quê ???
Abre o olho moçada !!!
E usem camisinha please...
Pecado e carnaval. Até dá saudades...

PS:- Entrem em www.muiedomeidomato.blogspot.com ou peguem o link do banheiro feminino do uol, virei fã há um ano atrás e viciei...

sábado, fevereiro 25, 2006

Moral da história I

Hoje de manhã, estava com Oscar tomando um café durante nosso break.
Oscar é o maníaco da cozinha, tenho vindo ajuda-lo as duas da matina todos os dias com convenções ( a praia dele). Quando comecei na Skycity ele infernizou minha vida e eu simplesmente odiava o cara.
O tempo passou, ele amoleceu e viu que não estou lá para brincadeira - me mantém até mais tarde trabalhando para ter companhia.

Ao ouvir que estou sem flatmates, disse que quem sabe quando a filha dele voltar de não sei aonde, faça a cabeça dela para morar comigo.

Tentando me arrumar com a filha dele - esse homem já tem um lugar no meu coração.

The sweetest thing.

A casa vazia.

Acordei, o despertador berrava alucinadamente e tentei desligar às pressas sem me lembrar que estava sozinho.
Olhei em volta, tudo escuro, aquela escuridão que te faz cerrar os olhos igualzinho quando você está embaixo do Sol, a escuridão revela o que o dia escondeu ofuscantemente, é noite fechada e estou tateando meu caminho até o banheiro e tudo está ainda confuso em minha cabeça, não sei o que se passa e menos ainda por que estou de pé à uma da manhã. Leve contrito cerebral, o motivo é de que eu tenho que trabalhar pois o setor de convenções está pela hora da morte e precisam de heróis como eu (odeio ser herói - eles morrem primeiro, o cemitério está cheio deles) e a casa vazia ainda não entendi direito, preciso de mais alguns segundos.
Só as coisas que alguém não quis estão aqui, cabelos, traços de vida agora parecem fazer parte de uma mórbida,orquestrada e desorientante cena.
Vesti o que encontrei à frente (pelo menos eu passei a roupa ontem) e agora sei o porquê e a razão de estar sozinho, bem, sei não, mas imagino várias possibilidades que não satisfazem e penso também em ligar para o trabalho e dizer que estou doente - mas essa é uma daquelas coisas que penso quase todos os dias e não faço - saio ás pressas, corro enquanto ouço meu MP3 player à toda altura para silenciar meus pensamentos e em parte funciona mas tem essa partezinha do meu cérebro que ainda teima em pensar em coisas que eu evito. O dia seguiu com muito trabalho, e eu ainda pensava na casa vazia, nada se movia ali, talvez as persianas ao vento mas de resto tudo é inanimado, os móveis, as portas e janelas, os armários... ...tudo está a espera de alguém para colocar movimento e cor e eu não estou lá - sinto pena de minha casa até mas tenho que trabalhar.
Ao final do turno estou esgotado, moralmente e fisicamente, me arrasto até a rua e peço um café em copo descartável enquanto ando (MP3 à toda) não faço idéia do que vou encontrar em casa, talvez a casa esteja puta da vida comigo e tenha feito uma reviravolta, minhas coisas estejam espalhadas por todos os lados e a porta da frente não abra, talvez esteja em chamas, talvez o silêncio seja ensurdecedor.
Chego no portão do prédio (a casa não é uma casa, é um apartamento) e fico com receio de entrar, não sei mais o que vou encontrar, subo o elevador com receio e esperança de que alguma coisa tenha se movido ali mas quando abro a porta percebo que a casa está do jeito que deixei - escura, imóvel, silenciosa.
Entro com um suspiro e um grito : Querida, cheguei !!!! Logo após falo comigo mesmo "esqueci que não sou casado".
Tudo está do jeito que deixei, escuro até, abro as persianas e janelas e deixo o vento passar e percebo que o movimento e as cores voltaram em um flash - ela está aqui esperando por mim, aconchegante, viva e chutando.
Limpo os restos de vida deixados para trás, para não me nivelar ao que está nos cestos de lixo principalmente, faço uma rápida limpeza e me atenho em fazer minhas coisas de praxe : escrever, comer, lavar a louça, etc...
As coisas se encaixam novamente, estou sozinho mas em boa companhia - minhas coisas estão espalhadas à minha volta, retratos, roupas, livros, me lembram que tem uma vida ali sim. Olho o celular (que nem lembrei ou não quis pegar de manhã) e tem uma mensagem de um amigo de Queenstown, vindo para cá - que bom ter uma visita.
É domingo e deve ter alguma coisa legal passando na TV, vou fazer pipoca e relaxar...
Os problemas eu resolvo amanhã, de alma nova e descansado, quando é que foi a última vez que eu tive tempo para não me preocupar com nada ?
Estou agora exorcizando alguns demônios, como sempre, mas estou fazendo isso na segurança de meu lar - e é isso que eu preciso.
Eu preciso de um lar, não uma casa, decidi que nada pode me atingir aqui, na segurança de meu LAR.

Amanhã eu ligo para a imobiliária para avisar que estou me mudando - minha casa é qualquer uma, mas meu lar eu pretendo construir - ainda que sozinho.

Where everybody knows your name...


Eu ouvi uma vez que quanto mais nós envelhecemos, mais precisamos das pessoas que conhecemos na juventude - não poderia concordar mais.
Seus amigos sabem tudo sobre você, seus males, seus prós e contras, suas manias, seus ódios de estimação, as coisas que você ama, o que se passa em sua cabeça quando você está com aquele certo olhar de olhos semi-cerrados em direção ao nada, quando você diz não quando tudo que queria dizer é sim. Eles sabem, acredite.
Envelhecer junto deles é delicioso, saber quem casou, quem separou (e levar para a farra imediatamente), quem teve filhos ,quem ainda te liga para saber as novas e contar coisas estúpidas como o tombo que levou em uma escadaria sabendo que você vai se deliciar com a imagem (amigo também sacanea, e por conhecer você tão bem faz com precisão e vice-versa), entrar em sua casa e abrir a geladeira... ...tão bom isso, e faz uma falta daquelas quando eles não aparecem.
Também têm um talento nato em relevar, quando se é muito amigo, ninguém é perfeito o tempo todo e ninguém é santo - todos temos nossos próprios demônios ali, esperando a hora de sair em disparada ao encontro de, bem... ...quem estiver à frente.
E nessas horas, claro que não tem madre Teresa que aguente, mas quando tudo volta ao normal e você arrependido tenta agradar, e consegue, que alívio, que coisa boa ter essas pessoas em torno de você mesmo que você tenha que gastar um salário mínimo em cerveja, vale a pena o investimento que tem esses retornos garantidos.
Meu projeto para a velhice é uma casa cheia de amigos, indo e vindo, parando suas vidas para me dar um pouco de atenção nem que por minutos, trazendo uma coisinha para beliscar ou demandando comida quando chegam de mãos abanando, não importa.
Mesmo de longe, mantenha-os perto.

Digamos que eu tenha pensado muito em vocês.

PS: Pats, você me lembrou o que é ter amigos. Daqueles bons e dos velhos tempos.

terça-feira, fevereiro 21, 2006


pratinha...

Visita da Pats.





Visita da Pats, nos com os cabelos prata - pura falta do que fazer.

Skycity




Caroline e Maria, Oscar mostrando o tamanho da faca dele e William, um dos aprendizes.

As vantagens de se morar com um chef ?




Frango marinado em suco de laranja, alho e mostarda em grao, grelhado e coberto no mesmo molho reduzido. Tenho um que pra comida rustica.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Aprendizes porque não sabezes.

Chego na cozinha as quatro da matina e o merdinha já está lá - ouvidos de pé e olhos estalados para me perguntar alguma coisa.
"Chef ?? A gente tem queijo brie ??"
-E eu lá sei, tenho cara de geladeira ? Entra lá e vê você mesmo !!
Continuo tentando saber aonde enfiaram meus apetrechos durante a noite, amaldiçoando os FDPs. Estou preparando minha área de trabalho e vêm o pentelho de novo :
-Chef ? Será que esse patê tá estragado ?
-Prova para saber.
-Eeeeuuu ? e se eu passar mal ?
-Antes você do que eu, aliás se você passar mal e sumir ninguém vai saber a diferença, enfia essa merda na boca e me deixa em paz.
As vezes eu lembro que fui educado nas mais finas estrebarias da Europa.
-Chef ?
-Que foi agora ???
-Afia essa faca pra mim ?
-Criatura, você me paga cem pilas numa faca pra depois não saber afiar ? Além do que, eu tenho que afiar as suas facas todos os dias, apenas tente não foder com o fio das suas facas desse jeito, era para durar pelo menos um dia inteiro afiada.
Controlo o surto e afio a faca encarando assustadoramente a jugular dele, ele sai todo contente com a bosta da faca. Enfim, comecei a trabalhar, tomara que agora ele se dê por satisfeito.
-Chef ??
-Pelamordedeus o quê ??
-Como é que se faz esse negócio aqui... ...Ju, Juzi,... Jual...
-JUS !! É Jus criatura, caldo de carne com vinho tinto !! Você não tá lendo seu livro não ??? Pra que você quer saber agora ?
-É que tem o teste do aprendizado e tenho que fazer um macarrão á bolognesa.
-Não precisa de jus, usa a própria carne que você vai fritar, põe vinho e deixa reduzir e depois tempera bem antes de juntar ao molho de tomate. Satisfeito agora ?
-Valeu.

Aonde eu estava ? Ah sim, preciso anotar as compras que demora dois dias para as coisas chegarem do fornecedor....
-Chef ??
-O QUÊ É AGORA,Esqueceu como se segura a faca, cortou o dedo de novo, quer QUE EU TE FALE A COR DO CÉU EM AUCKLAND ???
-Tá servido desse chocolate que eu ganhei ? É suíço...
Sem graça, disfarçando e com tom de voz diminuído.
-Não, valeu.

Porque eles tem que ser tão indefesos as vezes ??
Tenho muita paciência, mas assim fica difícil.
Tento pensar que eu já tive dezesseis - mas não era tão estúpido.

sábado, fevereiro 11, 2006

Pats, oh my pats...

Hoje recebi a visita da pats, a primeira visita oficial do Brasil - estamos aqui falando de tudo, todos, da vida e enchendo a cara.
Resolvemos ir comprar um litro de vodka e já estou intoxicado pelo pique da Pats, estamos nos comunicando por telepatia - Não sabemos o que fazer um do outro e parece que não vamos fazer nada melhor.
Mas nada como uma familiaridade, um rosto conhecido, para me fazer sentir vivo.
Meu Deus, aonde tenho passado a vida sem essa gente, meus amigos ?
Bem, ainda não tenho o roteiro, e na verdade estamos mais afins de ficar sem fazer nada - talvez um passeiozinho.
Não quero ter que dividir ela com nenhuma atração daqui - nem a pau.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Jake.


Todo vilão possui o seu parceiro - seu gêmeo malévolo, seu comparsa, seu co-autor, aquele cara que termina sua frases e com um simples olhar sabe que algo (ruim) esta prester a acontecer, que cobre as suas e que espera o mesmo de você. O meu é o Jake.
Jake é o cara que trabalhava na mesma seção que eu só que há muito mais tempo, o cara me deu todas as dicas que eu precisava, eu salvei o couro dele várias vezes também e nossa amizade é uma relação um tanto estranha para as pessoas de fora de nosso pequeno círculo - Não perdoamos nem mesmo um ao outro, sacanagem pura.
Jake é de Hamilton (três horas de carro de Auckland) nunca deixou o país, nunca deixou a região de Auckland e por isso mesmo recebeu o apelido de "Redneck" (caipira) de mim, come o que é possível durante as horas de trabalho pois nunca tem grana para fazer o supermercado (nem que quisesse) e aliás só entra em um para comprar bebida. O resto do salário é usado para comprar maconha ou qualquer outra merda que caia em suas mãos.
Filho de mãe solteira (o pai é mais ou menos como ele, vive em Auckland mas ele sequer sabe o número do telefone - visto que o pai é um duro ele não vê nenhuma razão para ligar para o cara) e desde os dezesseis anos mora de lugar em lugar com as piores corjas de pessoas possíveis, começou sua carreira criminal bem cedo - com várias passagens pela polícia por delitos menores (pequenos roubos, posse de substãncias ilegais, dirigir bêbado e ser pego duas vezes) acabou por pedir transferência para Auckland onde sua ficha não era conhecida pelos vizinhos.
Longe de ser um cara mau - tem um coração de ouro, dentro de seus limites ele ajuda se você precisar, dinheiro para fiança as três da manhã ? Ele estará lá, uma garrafa de vinho surrupiada da geladeira da cozinha ? Ele trará gelada.
Faz piadas sobre o Brasil, insinua que minha família mora numa Oca, que nos comunicamos através de tambores e que as pessoas so sexo feminino na minha família fazem sexo com caminhoneiros por alguns trocados, acha que a Espanha fica na américa latina, não faz idéia do que se passa no restante do mundo pois não lê, ainda não entende por que estou na NZ quando poderia estar morando de graça no Brasil (e porque trabalho ao invés de explorar minha família).
Há alguns meses atrás, o imbecil enfiou o carro em uma árvore a caminho da casa aonde estava acampado (da família de um amigo, sem pagar aluguel) completamente bêbado, apareceu dois dias depois ao trabalho sem carro e sem condições alguma de continuar morando lá e trabalhar na cidade (não tem ônibus). Ficou algumas semanas na minha casa de graça - foi bem na época que o Clayton e a Lorena chegaram aqui, quando mostrei a casa para eles tive mais ou menos que falar para eles ignorarem o neo-zelandês sentado no sofá tomando cerveja e assistindo TV. Eles foram legais e não ligaram de te-lo aqui por mais uma semana e meia até ele se tocar e se mandar daqui percebendo que a coisa estava meio apertada.
Ele aparece de vez em quando, senta no meu sofá (ele agora mora em um apartamento no centro mas prefere o meu pela TV grande, DVD e internet) sempre carregando uma caixa de cerveja e de vez em quando eu decido alimenta-lo, assistimos TV, conversamos na medida do possível e quando estou cansado e quero dormir eu chuto ele pra fora.
Por alguma estranha razão, eu não ligo de emprestar dinheiro pra ele, que ele acabe com meus cigarros, que ele fique sentado na minha sala enquanto digito para o blog - ele tem apenas 20 anos e ficou meio que um irmão mais novo, como digo, ele é um adorável saco de merda.
Ele agora trabalha em outro departamento da Sky e não nos vemos muito.
E este, é meu prezado amigo, associado e cúmplice.

Adorável vagabundo.

terça-feira, janeiro 31, 2006


My mate Fran, o head-chef do Tatler em Queenstown - BDO 2006


BIG DAY OUT - The White Stripes, Iggy and the Stooges... o melhor show da NZ !!

Meus fatídicos últimos momentos.

Tive uma visão, uma imagem na minha cabeça que criei para definir esse momento hipotético do qual fantasiei por muito tempo;

Estarei atravessando uma rua qualquer, Sol raiando, um dia lindo e memorável de Verão e estarei distraído tentando abrir a embalagem de meu fruttare de uva quando avistarei ele vindo : grande, imponente, a sombra se aproximando de mim tao rapidamente que mal pude perceber sua chegada...
...ele, por qual esperei minha vida inteira (e pensar que neste momento estou usando apenas havaianas pretas, short jeans e camiseta do Pearl Jam)e quem me conhece há muito tempo vai reconhecer na hora de quem estou falando - O Danúbio Azul, o símbolo da mercedes já meio gasto pelo tempo e pelos milhares de insetos esmagados e ressecados, o azul marinho sobre branco inconfundível, o letreiro escrito "ESPECIAL" em cima e aquela placa rebuscada a pincel atômico em cima do painel, grudada a durex diz "Aparecida do Norte" em letras tortas verde-abacate escuro, o chiado dos freios, a cara de pânico do motorista com seus óculos escuros enormes e braços esticados grudados ao volante, a camisa azul desbotada de praxe, as malas dos passageiros caindo dos compartimentos acima dos bancos e as duas senhoras de idade no primeiro banco tapando os olhos e rebuscando o que parece os primeiros acordes de uma prece - tudo isso distorcido pelo calor do asfalto pelando e do radiador.
Estarei lá, como uma rã no meio do asfalto hipnotizada pelo brilho dos faróis de um carro apenas aguardando seus momentos finais e tentando avaliar o que seria tudo aquilo, mas agora é tarde demais.
Tenho consciência de que serão meus últimos momentos e muitas coisas se passam pela minha mente, tudo muito rápido claro, mas os saldos e balanços estão todos ali, uma longa e extensa conta aparecerá e verei o saldo.

Não tenho muitos arrependimentos, tenho mais arrependimento do que não fiz na verdade; falar o que quero a quem quero, comer tudo que foi posto à minha frente sem cerimônia, beber aquela cachaça de aparência sinistra em um pote de azeitona em cima do balcão, ter tomado aquele ecstasy no show, ter traçado aquela gracinha do restaurante, visitar lugares exóticos, ir a lugares que pessoas decentes não entrariam, sacanear um amigo mal-vestido, chutar um pombo do meu caminho, pular de bungy-jump, porque não mandei ele tomar no cú, porque não ... ...disso, não levarei arrependimento algum, está tudo lá documentado em minhas memórias finais junto com meus pequenos orgulhos como nunca ter experimentado muitas substâncias ilegais e nunca usar nada regularmente, recomeçar minha vida constantemente ainda que sem muito sucesso, aprender novas profissões, me mandar do Brasil e saber o que é ser estrangeiro, ferrar impiedosamente alguns que me ferraram, ajudar umas poucas pessoas no caminho.
Tenho meus pecados também - quem não tem ?
Negligenciar família e amigos por algum prazer novo ? Não tive problemas. Fazer alguma coisa estúpida e impensada extremamente bêbado ? E quem pensa numa hora dessas ? Cometer atrocidades contra patrimônio alheio ? Check. Dizer em voz alta que acha a igreja um saco ? Perdi a conta. Amarrar um kitchenhand com silvertape e deixar por uma hora imóvel ? Hilariante. Dar aquele chutinho que falta para aquele amigo bêbado cair da banqueta e se esborrachar no chão ? valeu a pena.

Nesse momento, terei um leve momento de consciência e ouço o paramédico dizer "Esse aí já se fu..." enquanto desgruda o logo da mercedes do meu peito com uma espátula para o outro aplicar os eletrochoques, vejo o céu azulzinho, fecho meus olhos para novamente tentar encontrar o saldo - família, amigos, tudo valeu a pena, talvez eu não tenha sido tão ingrato assim tantas vezes, o quanto não faria por eles ainda ?
Os paramédicos estão se levantando, aquele está pondo o logo no bolso (pra quê meu Deus ?) e se vão.

mas o que me deixa realmente puto :

Não pude chupar a droga do picolé.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Diariamente, versao Auckland.

O despertador toca as tres da manha;
Me levanto com dificuldade, rolei durante e noite e acabei acordando em cima de minhas costelas quebradas que me urgem para que eu tire o peso de cima delas imediatamente, me sinto fraco e cambaleante no caminho até o banheiro onde engulo dois Panadols com agua da pia - me visto sem prestar muita atenção a cores e estampas ou qualquer outro senso fashion (quando chega a hora de me vestir para voltar para casa, parece que me vesti no escuro) e ponho mais quatro comprimidos no bolso por precaução: dois para as costelas e mais um para cada aprendiz de cozinha presente.
No caminho ao trabalho acendo um cigarro e paro no Starmart para comprar um Red Bull e mais cigarros, vou precisar do coice de cafeina rapidamente e viro de uma vez a latinha - comprei sugar-free como se precisasse - minhas roupas estão comecando a sentir largas e percebo que estou perdendo peso novamente, estou a caminho de me tornar uma tripa de nervos e ossos além de precisar me exercitar de outra maneira à de carregar caixas de óleo, preciso de exercicio real além de ser uma boa idéia sair debaixo das lampadas fluorescentes da cozinha de vez em quando e ver o Sol, pode-se ver minhas olheiras a kilômetros de distância.
Chego até a Skycity me arrastando após a longa subida (íngreme) da Victoria St., termino mais um cigarro e entro meio que me arrastando até o Guarda-roupas central, aonde peço meu uniforme depois de esperar em uma fila de dez minutos, as mulheres do lugar já me conhecem por nome e número de lote e vem com um uniforme limpo antes que eu peça.
Ponho meu uniforme e vou para o deck para fumantes degenarados que não merecem estar com as outras pessoas normais, tomo minha xícara de café preto instantâneo e fumo mais um cigarro enquanto penso em qual tortura psicológica irei infringir a um de meus aprendizes que nos deixou na mão ontem, fugiu no Sábado sem fazer a preparacao do Domingo (do qual que teve folga) o pequeno miserável terá de pagar com sangue e lágrimas como todos nós, chefs mortais, tivemos que pagar por nossos erros durante nosso longo caminho ao aprendizado.
Entro na cozinha e os FDPs da noite roubaram meu plástico-filme, minhas toalhas de papel e uns tantos utensílios valiosos em uma cozinha moderna, quero matar a tudo e todos. Oscar, nosso maníaco-depressivo-obssessivo Chef de Partie já está lá e comeca a me dar ordens e gritar antes que eu diga uma só palavra, ignoro e digo "Bom Dia" em um tom nada encorajador. Meu aprendiz chega, imediatamente digo que o pequeno ataque de preguiça dele parou três seções da cozinha e que a próxima vez que acontecesse eu o levarei para dentro da camara fria e farei ele soltar gritinhos e arrevirar os olhinhos; ele fica em silêncio por algum tempo e entra na geladeira de onde voltará segundos depois com um mini-pacote de frango defumado com o adesivo "use primeiro".
"Você pode me explicar isso ?" dizia o pequeno bastardo;
Senti a última gota caindo, minha veia que cruza a testa agora pulsava, a visão se tornando avermelhada:
"Talvez estivéssemos muito ocupados consertando a SUA MERDA para prestar atenção em 100grs. de frango !!! Ou talvez eu simplesmente não quisesse usar a sua merda de frango - enfim, EU NÃO ME REPORTO A VOCÊ SEU PEQUENO MERDA !!!
Foi um latido curto, alto e grosso (gosto da minha voz de manhã, as cordas vocais ainda frias dão um tom mais drástico) e até o Oscar está quieto agora, o aprendiz está exatamente aonde eu quero - de costas, quieto e com a cara enfiada no trabalho.
Motim contido, estou feliz por saber que mesmo não sendo mais o dono da cozinha, ainda não perdi o jeito.
Uma hora depois, o aprendiz toma coragem para me perguntar algo e todas sua frases e perguntas sãao precedidos por "Chef", nada como um bom latido para pôr as coisas em ordem, mas os aprendizes tomam muito o meu tempo perguntando coisas que amanhã irão esquecer e fazer todas as merdas logo em seguida e da mesma maneira, já estou atrasado para suprir os pedidos dos restaurantes e ainda tenho que ficar nessa perguntação toda... ...as caixas com as entregas chegam e ninguém se move para pôr tudo no lugar (visto que os aprendizes vão inevitavelmente pôr as mercadorias nos lugares errados, eu mesmo guardo) e a cada caixa de 20,30 kilos, sinto minhas costelas se movendo aleátoriamente dentro de minha pele, a sensação é mais a de um repuxo do que de dor e mastigo mais dois panadols prevendo a justiça divina.
As oito da manhã, quando os restaurantes vem buscar os pedidos o caos se instaura e ponho meus aprendizes para correr enquanto termino de empacotar, pôr etiquetas e separar os pedidos para cada outlet e só as nove e meia (atrasado) consigo me ver livre de tudo. Vou para o meu break, a masmorra para fumantes, tomar mais dois cafés pretos e tentar pensar no que vou precisar para amanhã e no que precisa ser comprado para amanha. Os comprimidos comecaram a agir e me sinto ligeiramente aliviado.
Volto, limpo minha bancada e saio pela cozinha atrás de minhas facas que aparentemente são de uso público, todos adoram minhas facas Victorinox, novinhas e sempre afiadas para me devolverem sem darem ao trabalho de limpar - mais um latido sobre as facas e volto a trabalhar : ainda preciso limpar e cortar 40 kgs de polvo e tentar cozinhar e embalar a vácuo antes de meio-dia.
Coisas a serem feitas aparecem do nada, e meu estomago é agora uma ácida combinação de Red Bull, café e analgésicos que em nada ajudam a enfrentar o dia, agora tento fazer os aprendizes terminar a preparação para amanhã SEM FALHAS, infelizmente sou responsável por estes merdinhas - tortura e opressão são as palavras-chave para definir o tratamento adequado.
Ás duas da tarde, consigo pôr tudo em ordem e estou pronto para ir embora, algumas pequenas coisas a fazer de última hora então duas e meia estou deixando a cozinha engatinhando até o vestiário onde posso amaldiçoar o meu armário que fica bem no meio do corredor principal e na parte de baixo - tenho que me agachar bem no meio do caminho de todos que estão passando, um saco.
Me visto e vou para o Palace - o nome não lembra em nada o lugar, apostem, mas tem uma cerveja decente a preços razoáveis e um ensolarado deck com mesas e cinzeiros enormes - o buteco pé-sujo aonde o staff se encontra após o turno. Peço uma pilsner, sento com os outros chefs e descemos a lenha na empresa como é de praxe. Acrescento o assunto "morte aos aprendizes" e todos queremos realmente matá-los de vez em quando, quem não sabe...
Vou para casa, como qualquer coisa que esteja facilmente disponível e caio duro no sofá, de onde só levantarei para banheiro/banho/cama e depois para o começo deste texto.
Vou entrar para a academia tão logo minhas costelas sarem, Deus me ajude.

PS:- Decidi escrever um livro, oficialmente, só preciso resolver umas paradas sobre o uso do computador (que em casa tem sido difícil, quando estou acordado, não posso usar) e preciso me sentar em frente a esta merda e só levantar pelo menos duas horas depois obrigatoriamente. Agora... falar sobre o quê, quando se tem uma vida como a minha, fica dificil...

terça-feira, janeiro 24, 2006

Pense leve.

Como profissional da area de nutricao (que maneira gentil de dizer cozinheiro) tenho notado mais e mais o quanto somos uma geracao de pessoas saudaveis; em tempo, a evolucao chegou a nossas mesas.
Dando uma voltinha pelo supermercado me deparei com as mais variadas opcoes de tudo que se pode pensar - meu milho verde eh 100% GM free (genetically engineered - nao transgenico) gracas as manifestacoes dessas pessoas maravilhosas que param o centro da cidade causando milhares de dolares de prejuizo para as empresas locais, todos com os bracos levantados segurando placas e cartazes de madeira (nem sabia que podia !) suas sandalias de couro encardidas e sovacos cabeludos, todos em unissono exigindo medidas da primeira ministra para bloquear a entrada de transgenicos na NZ (e eu que achava que as pessoas que nao tem nada para comer, eh que tinham um problema - antes nao comer nada do que transgenicos certo ?) e quando a passeata termina, poem seus casacos D&G, entram nas suas beemers com bancos de couro e vao para casa, comer sua comidinha macrobiotica preparada pelo cozinheiro salvadorenho.
Enfim, meu milho verde eh isento de agrotoxicos (e eh branco ao inves de amarelo) meu suco de laranja tem calcio (esqueca o leite, eh de origem animal), meu frango eh subnutrido, minha margarina tem zero colesterol e zero sabor, meu chocolate eh 99% isento de gordura e leva horas para derreter na boca, minhas batatas fritas tem 75% menos gordura saturada, minhas laranjas sao do tamanho de limoes e minhas costelas de porco receberam tratamento psicologico antes de serem abatidas.
O que tera acontecido com o bacon, a carne com a gordurinha dourada, um naco de manteiga derretendo na frigideira de ferro, pesada, daquelas que dizem, liberam milhares de toxinas na comida mas que fritam, douram no fogao e direto no forno que eh uma beleza - ah, manteiga, se voce entra em um restaurante, principalmente frances, voce estara comendo kilos e kilos de manteiga (amando) e ate uma coisa insossa (nem tanto se bem preparado) como uma sopa Vichyssoisse tem sua parcela de manteiga para dourar a cebola e o alho-poro quando nao presente tambem no pure de batata usado, viva a manteiga.
Mas tentar explicar isso a uma pessoa acorrentada a uma arvore no centro da cidade impedindo a prefeitura de corta-la (mesmo que a arvore esteja podre e ameace cair em cima de um orfanato lotado) fica meio complicado - eles estao sempre certos e corretos (alias, corretos - politicamente corretos - me da ate brotoejas de ouvir) e cada vez que um entrava em meu restaurante comecava o drama, Ceasar Salad sem queijo, maionese, lardons, e esqueca o ovo no topo. Geralmente nessas, eu gritava "sai um prato de alface e pao" atestando a burrice de alguem assim sair de casa para comer. Mais facil ficar vendo tv roendo uma cenoura crua.
Antigamente as pessoas viviam bem, ate menos, mas bem, comendo comida feita com banha, ingredientes frescos eh claro, mas nao tinha essa de colesterol (quando nao se sabia da existencia, acho que nao existia mesmo), transgenico, natureba - cozinhava-se o que se conseguia agarrar e os europeus eram mestres em aproveitar cada pedacinho de carne, vegetais, frutas criando compotas, linguicas, curados, pates (foie gras, que dadiva), entre muitas outras invencoes que perduram como a mais classica cozinha.

Vegetarianos ? Eles nao aproveitam a vida - comer bem e o que se quer faz parte da vida. Alem do mais, um adesivo colado no para-choques protestando contra a matanca de gado soa bem melhor do que dizer que gosta de bife mal-passado.

quinta-feira, janeiro 19, 2006



Dia de branco na Skycity - odeio esse chapeu, pareco uma forma de pao.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Resolucao de ano novo.


Mais um ano e mais um pacote de resolucoes a se cumprir, sera que dessa vez eu engreno ? Putz, todo ano eh a mesma coisa (com excecao de um, em que eu perdi 12 kgs)mas desta vez os anos a mais, meu mau-humor e pessimismo acumulados durantes meus parcos 30 aninhos vao se interpor entre eu e meus mais intimos desejos ?
Na verdah eh tudo uma questan de perseveranca - perseveranca em nao botar aquele cigarro na boca, muito mais perseveranca em nao abocanhar aquela gordurinha douradinha da picanha e se contentar com a Coca-light enquanto observa seus magrelos amigos entornando litros e litros de cerveja - eh mais um exercicio de privacao, auto-punimento do que forca de vontade mesmo. Mas que eu vi meus peitos caidos nas ultimas fotos da praia, ah isso eu vi.
Quando eu decidi me matricular em uma academia, quebrei as costelas e vai levar seis semanas para curar entao digamos que meu entusiasmo ja foi por terra, ja havia decidido levar uma vida mais saudavel e aqui me encontro: sentado em meu sofa com manchas de batata-frita em minha camiseta escrita Janio 85, assistindo TV e me empanturrando, quando nao estou sentado a frente do micro entornando uma cerveja (mas isso, fazem decadas que nao acontece, pegar leve no alcool foi uma das promessas inclusas) me dar um upgrade na carreira, que foi mais uma das resolucoes comecou com uma semana de licenca medica.
Todo ano eu decido me tornar uma pessoa melhor, mas a pessoa ma e antiga sempre vence o pareo - se nem lista de supermercado eu consigo fazer e manter em um lugar acessivel e facil de lembrar, quem dira resolver os problemas do mundo ?
Ser menos relapso com meus amigos e familia, menos relapso com o trabalho, com a saude... ...todas as promessas de ano-novo se resumem a isso : ser menos relapso.
Me digam, como ser menos relapso com burocracia de imigracao quando se trabalha sessenta horas por semana em horarios nada convencionais, como ser pontual, disposto, atuante, moderno, light e ativo ? Apos um turno de quatro da manha as duas e meia, tudo que eu quero eh espancar uma meia duzia de pessoas e dormir como um anjo (ate acordar as tres da manha, e querer matar mais alguem) e como ser educado com o ascenssorista (ainda nao sei como se escreve esta merda de palavra) as tres e meia da manha, sabendo que depois do trabalho voce vai ter que correr 10 kms, sem fumar depois e ainda por cima lavar roupa quando chegar em casa ? nao tem cristao que aguente.
E tem tambem a listinha de compras para o ano, realizacoes :
- Um sapato Helmutt Lang de cromo;
- Uma BMW preta, pode ser 318i, nao ligo;
- Um Ipod daqueles mais caros e grandes, os minis eh pra esconder na bunda, nao quero;
- Um frasco de Mont-Blanc presence, tamanho container de Santos;
- Calcas Caqui Ermenegildo Zegna, so pagando uma fortuna iria me fazer usar aquilo;
- Camera Digital de 7 mega pixels (sempre que tenho grana pra comprar, acho que nao preciso);
- Uma bicicleta Giant speedy, de 18 marchas e quadro de kevlar, para pagar de gatinho em Mission Bay;
- Um par de oculos escuros Armani, tenho uns vinte pares made in Taiwan que juntos devem dar o preco de um churro;
- Valium 11 - umas dez cartelas pelo menos;
- Um corte de cabelo em um salao, com massagem, cafezinho e cafune : nao aguento mais cortar cabelo em casa;
- Uma porra de uma empregada para passar roupa;
- Medicamentos sob prescricao;
- Ajuda profissional.

Coisas obtidas em 2005 :
- Um micro com 80 GB, 512MB Ram, Monitor LCD 17", CD/DVD Burner, caixas de som de gosto duvidoso;
- Um celular Nokia 6320 que ganhei de presente;
- Um frasco de Ralph lauren Safari;
- Um contrato de aluguel de um apartamento no centro de Auckland (incluso energia e telefone + Internet);
- Duas facas Victorinox iradas, da pra cortar ate pensamento leve;
- Meu nome na lista telefonica de Auckland;
- Uma jaqueta da Victorinox.

Como voces podem perceber, 2005 foi muito produtivo para mim.
Entao tenho um objetivo a cumprir em 2006, cuidar mais de mim, fazer mais amigos e realizar que :
- todos os dias, pelo menos 30 criancas morrem de inanicao no mundo;
- Todos os dias, outras ficam cegas por falta de um dolar para a medicacao necessaria (por semana);
- Todos os dias, outras milhares morrem por doencas que poderiam ser curadas simplesmente por penicilina;
- Que a pobreza absoluta deve acabar.
www.one.org

Eu nao tenho os milhoes do Bono para doar, mas quem sabe, minha resolucao de ano novo possa ser realmente me tornar uma pessoa melhor ? Quem sabe eu possa fazer a diferenca ?
Quem sabe eu faca.

segunda-feira, janeiro 09, 2006



Eu estou de volta.

domingo, janeiro 08, 2006

 
Zilek : Immobilier Vervins
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Vervins