sexta-feira, maio 27, 2005

Sao Sebastiao...

Ninguem merece essa New Zealand !!!!
Sei que hoje eh romaria de Sao Sebastiao, to passado aqui com a impossibilidade de estar com a Tropa Tudo passeando por ai, chegando no Sertao por volta das cinco e meia da tarde, se instalar e aproveitar aquele churrasco com cerveja e vinho para esquentar os ossos cansados da viagem...
Agora sao nove da manha ai, e ja sei ate onde o pessoal esta, o retardatarios estao saindo do ventania, os cavalos ainda meio rebeldes , despertos e aquele Solzinho fraco ainda saindo... ...os passos do cavalo no ouvido e muitos Kms pela frente, ah que vontade de estar ai.
Fui a academia, corri uma hora, malhei, fui comprar enfim um relogio decente para mim, mas a tal da data nao sai da cabeca... ...fico pensando quem foi, como eh a camisa, etc...
Entao... viajando Tropa Tudo !! To sempre com voces, aonde quer que estejam.

Abracos.

sexta-feira, maio 20, 2005

Do tempo da Vovo...

Hoje em dia, me meti a chef de cozinha ate brincando um pouco com a ideia - nao fui eu que escolhi a profissao, foi a profissao que me escolheu - sempre tive um que pela cozinha e sei da onde veio a veia culinaria : Dna.Abigail foi a fonte de inspiracao com certeza.
Nao foi por acaso que hoje, eu sei e lembro dos pratos que ela tanto fazia e repetia como sendo "as especialidades" ou traduzindo as coisas que el poderia cozinhar mais rapido e melhor para alimentar a todos e ainda ter tempo de observar as panelas serem escarafunchadas por nos, os rostos, a surpresa (as vezes ate a decepcao, crianca eh um problema)e o delirio de encontrar dentro daquelas panelas pesadas e mega-usadas (com marcas carbonizadas e ferro com porosidades imensas do uso) um novo sabor, um prato daqueles que vc espera ansiosamente que alguem faca ou simplesmente o arroz que nunca estava com o fundo queimado (como sera que ela fazia ?)...
Agora eu entendo a genialidade simplista com a qual ela executava os pratos que fazia, todas as opcoes foram exploradas durante os mais de 50 anos de fogao e tenho certeza absoluta que nada do que ela aprimorou poderia ser feito melhor - abusava dos temperos comuns a mesa brasileira como cebola (amava, principalmente cortada grossamente e deixada amolecer ate ficar insipida), alho, pimentas e salsinha, muita salsinha que demorei aprender a apreciar e sempre me perguntava "porque tanta salsinha meu Deus do ceu ??" cuspia os pedacos no guardanapo sem saber (nem ter ideia, na verdade) do privilegio de se ter salsinha fresca na comida. O sal ela aprendeu a controlar depois de muita insistencia e uma nefrite incidental, minha, por sinal.
Mas ela sabia o que cada um de nos gostava mais e de vez em vez, fazia so para nos observar devorando cada pedacinho sem deixar espaco para respirar, sabia que eu adorava frango a passarinho, pelo menos e sempre me lembro de termos a mesa. Santissima senhora era.
O kibe cru, nao era apenas um kibe cru e ate hoje nao achei concorrentes para o dela; ja vinha com tudo dentro, a cebola em cubinhos, a hortela esmigalhada e ate um pouco de alho alem do tradicional trigo e nao parecia nem um pouco com os outros que vc encontra por ai, nao era necessariamente vermelho, era de um mescla de cores e temperos (a pimenta siria feita por ela inclusa) que simplesmente necessitava um fio de azeite para a perfeicao total e completa e quando sobrava um pouco para o dia seguinte (o que raramente acontecia) era ainda melhor: todos os sabores e aromas se fundiam e simplesmente era como provar um pedaco do paraiso moido...
A simplicidade de um arroz com lentilha se perdia em seus truques, ate hoje nao imagino o que iria para dentro daquela panela enorme (ela nao sabia fazer pouca comida, era uma piada secreta entre a familia ate) fazia de uma coisa tao basica um prato principal que dispensava acompanhamento (que alias nunca faltava).
A genialidade de seu bolo de fanta (isso mesmo) hoje cai em minha cabeca como uma tonelada de tijolos: em uma culinaria que hoje em dia serve pudim de pao com manteiga em restaurante cinco estrelas, o pao-de-lo encharcado em uma mistura de coco ralado, leite condensado e garrafas de fanta laranja soa simplesmente uma sacada de genio : cada pedaco era meticulosamente embrulhado e pedacos de papel aluminio separadamente o que sugeria apenas um estimulo a comer o tal bolo (na epoca) e hoje eu sei que, se deixado aberto na geladeira o tal bolo, pela natureza esponjosa do pao-de-lo principalmente, ficaria esturricado em menos de dois dias. Quer mais inventividade que isso ?
Sopas entao, eram sempre quase solidas - mas era aonde ela podia usar mais a criatividade - nunca percebi sopa sendo feita de restos naquela cozinha, sopa era um caso serio para ela e por sinal lembro-me de ser um dos pratos dos quais ela mais repetia. Mas a sopa de feijao e macarrao dela ultrapassava os limites do vulgar dos ingredientes, sempre tinha um sabor puxado para o alho igualzinho os caldinhos (caros) servidos no Piraja. Ela sabia das coisas a danada.
E tenho certeza que, se cinco chefs tentarem executar um prato que ela fazia com maestria seguindo uma receita basica e adicionando o que quer que eles quisessem, cada um iria por apenas um dos condimentos ou truques que ela usava formando cinco pratos incompletos da Dna.Abigail.
Ela tinha um ciumes mortal de sua cozinha, e cada experiencia minha ou da minha irma era vista com desconfianca e desprezo; nao por maldade, mas ela sabia que podia fazer direito e melhor e tentava nos salvar do fracasso iminente e mesmo sabendo disso, nunca interferiu em nossas tentativas culinarias. As poucas, devo acrescentar.
Receitas perdidas ? muitas. Ela levou todas com ela...
Os beijinhos e olhos-de-sogra que atraiam multidoes especialmente no Natal se foram para sempre, e o Cabrito refogado nunca mais tera o mesmo sabor com certeza (este, feito especialmente para agradar o gosto do meu irmao) e principalmente a Ceia de Natal quase toda (minha irma salvou algumas receitas) se foi para sempre como o melhor dos misterios : os nunca descobertos.
As visitas eram sempre muito interessantes para ela (aquelas que nao eram "enjoadas", palavra usada por ela para pessoas seletivas com comida) e se recusar a comer na mesa dela era bem mais que uma decepcao, ate uma afronta, um acinte por assim dizer.
mas isso nao acontecia, nossos amigos miavam, urravam na mesa ao provar a comida dela e isso valia mais que todo o dinheiro do mundo, dava para ver o rostinho dela reluzindo a cada "HMMMMM" pronunciado e a cada prato repetido, era simplesmente a gloria.
Cada vez que entrava em regime era um suplicio, ela simplesmente nao conseguia ver aonde precisava perder peso (nenhum dos doze quilos, em uma certa ocasiao) e era um suplicio para ambos - eu, nao queria fazer desfeita para ela e ela, por sua vez, nao suportava ver alguem em qualquer tipo de negacao/sacrificio fazendo uma dieta se tornar uma verdadeira prova de forca de vontade e culpa (por nao comer, essa eh nova) mas acabei abrindo a excecao aos almocos de Domingo, afinal, valia a pena.
Alias, os almocos de Domingo, de ressaca muitas vezes eram o que ha de mais tormentador na vida de um adolescente - tinha que comer porque a familia toda estava assistindo e principalmente porque se nao comesse a quantidade usual, ela iria notar e comentar. Hilario, para falar a verdade.
Saia de la entupido, verde, mas com a sensacao do dever cumprido. rs
Mas uma coisa, a principal, hoje em dia eu entendo e muito bem; e o desapontamento de ver um prato voltando para a pia pela metade quando nao quase intocado - se eu me sinto mau vendo isso no restaurante, aonde nao conheco os clientes e nao sei a razao da recusa, imagino vindo de uma pessoa que voce nutre e ama...
...nao deve ser facil.

Para ela, a comida era sinonimo de amor, e isso ela deixou bem claro ao longo dos anos - se voce se importa com alguem o suficiente para alimenta-lo, bem... ...demonstre isso com um prato bem cheio.

Isso eu aprendi. E ai de vc se estiver de regime.

quarta-feira, maio 18, 2005

Por que vc tem essas ideias... ...entende ?

Muita gente me fala sobre o que penso e o que escrevo, tenho pessoas que gostam e pessoas que odeiam acho que na mesma proporcao ate, eh uma coisa que me leva para frente na verdade, eu sempre gostei de uma polemica quem nao me conhece que me compre.
Mas... ...sabe aquelas coisas que passam em sua cabeca que voce nem pensa em comentar ?? Entao... ...eu falo.
Se por um lado a sinceridade reina, por outro muitas coisas se perdem na traducao entre um comentario e outro, talvez por eu nao ter muitas travas, talvez por simplesmente ser atrevido demais ou talvez por ser alguem que se faz entender mas a verdade eh sempre a solucao melhor : nenhuma mentira dura tempo o suficiente para se tornar verdade e alguem sempre vai saber, tenha certeza, uma mentira requer mais manutencao e trabalho do que uma verdade bem dita - aquela, unica e certeira que vai te livrar de muitos incomodos pode ter certeza.
Mas ainda, se voce acha que pode enganar a tudo e todos por periodos indeterminados, tenha a minha mais profunda admiracao: isso requer mais que inteligencia, isso requer tatica e timing perfeitos sem falar numa imaginacao de Julio Verne ao menos...
E se por acaso vc eh um desses simples mortais como eu, que nao gosta do que nao gosta, que gosta muito de quem gosta e que nao pretende ter ninguem ao seu lado quando tiver sessenta que ainda espera poder te passar a perna, por favor diga sempre a verdade.
Existem coisas que, pasmem, o protocolo ainda nao permitem que sejam procifereadas em publico e aide quem quebrar o protocolo : nao gosto da sua amiga, nao tenho paciencia com seus filhos ou simplesmente nao tolero sua familia podem te levar a mais profunda das solidoes e dai, o que fazer com o protocolo ? Ai meus Deus, quebrei a merda do protocolo !!!! Simplesmente nao faca isso. Ate porque voce nao precisa.
Dicas uteis : converse sempre com todas as pessoas ao redor, vc pode aprender muito com elas - inclusive aprender o que nao fazer e como nao agir;
- Se uma situacao qualquer nao te agrada, pule fora, va pra casa, para o bar, para o banheiro mas nao se agrida dessa maneira;
- Fofoca, por mais tentador que seja, nao entre nessa roubada, assim como a mentira (quando nao sinonimo) requer trabalho e alibis perfeitos para se livrar depois, e quando se esta no meio geralmente a fofoca cai para o seu lado tambem;
- Viu a amante do deputado ? CALE-SE !!! a nao ser que a amante seja famosa e tenha dormido com vc, nem um pio - se for o outro caso, de uma festa e distribua copias das cartas e fotos dela para seus convidados...
- Deixe claro quem sao seus amigos e qual a relacao que vc tem com eles, impossivel tratar a todos da mesma maneira e ter o mesmo grau de intimidade com todos eles; ate porque alguns vem e vao e outros mesmo sem contato perduram por anos;
- Nunca espere mais de uma pessoa do que voce realmente ofereceria por ela; essa eh dificil e requer altas doses de realidade mas geralmente vc sabe aquele que te deixaria falando sozinho pelo primeiro rabo-de-saia, aquela que ao menor sinal de grana te pisa a cabeca, aquele que te rodeia para descobrir alguma coisa... ...seja realista e pese o que vc faria por esta pessoa e o que ela faria por voce. Surpresas acontecem, mas nesse caso, tudo que voce pode ganhar eh um bom amigo (ou uma tremenda decepcao);
- Nao julgue aquele que te deixa falando sozinho pelo rabo-de-saia, ou qualquer um, essa pessoa nao tem nenhum compromisso com suas expectativas ou voce com as dela entao, leve a coisa se um jeito plausivel para o interesse de ambos. Tenha sempre uma saida de classe para cada uma dessas situacoes...

E como ja dizia Sr.Maquiavel - tome a casa de seu inimigo, mas nao durma com a mulher dele. Lealdade ate com seu inimigo.

Porque eu escrevi isso ? Nao faco ideia, mas tem um amigo meu que mede as pessoas pela simpatia que tem comigo - se nao gosta de mim, nao eh boa pessoa e isso eh simplesmente lisonjeante ao maximo...
...enquanto eu acho o mesmo por ele.

E assim, vc acha as pessoas que vao estar do seu lado pelo resto de suas vidas. Simples ??? Talvez.

sexta-feira, maio 13, 2005


Oi eu ai de novo !! Posted by Hello

Uma pausa para atualidades

Bem, nem sei se vou ter paciencia para prosseguir a longa historia na qual me meti a contar, mas de vez em quando um post tem que pintar na pagina...
Queenstown esta em baixa temporada para variar, e estamos proximos do inicio de mais um Inverno com direito a festival e o caramba entao, nada de novo no front. Desde o tal Tsunami, os turistas estao correndo de medo do pacifico e isso inclui a Nova Zelandia que sofreu as baixas do verao com turistas amedrontados, ajuda as vitimas do Tsunami e com os terremotos (ainda que leves) que ameacam o pais, tem ate programa de TV sobre o assunto explicando quais sao as medidas preventivas, etc... Brasil, nesse sentido eh um lugar abencoado quem nao sabe ?
Discute-se nas religioes se este nao seria o tao anunciado final dos tempos (ou comeco de outra era, quem sabe ?) mas fatos podem mudar o trajeto de nossa historia a partir de 2005.
O Papa.
Desde que passei a entender de historia e religiao passei a entender o quanto eu e a igreja nao nos relacionamos em quase nada; uma igreja que condena o uso de contraceptivos (qualquer metodo, inclusive a camisinha) que condena o uso de celulas-tronco para medicina e que acha que homossexualismo eh uma doenca nao pode e nao deve ter nada parecido ao que tenho em mente - mas o Papa, aquele homem que dizem, comanda tudo isso finalmente merece meu respeito.
Admito ate entao, minha total ignorancia sobre o homem supra-citado mas com sua morte iminente, passei a entender um pouco dos ideais dele e fiquei surpreso com os esforcos que ele fez pela PAZ; em um mundo em guerra (nao uma grande guerra, mas varias esparsas) em que ninguem parece se entender ele fez todos os esforcos possiveis para unir varias religioes nessa missao de paz. Ponto pra ele.
Mas ainda entro em um missa de Domingo tentando me concentrar e tudo em que penso eh se deixei a janela aberta, no que eu tenho que fazer amanha e por ai vai... ...sem fe, acho que o ritual (qualquer um) nao funciona, pelo menos para mim.
Tsunami.
O Tsunami, uma forca da natureza, um fenomeno sismico foi interpretado por muitos como uma reacao do mundo aos humanos, mas se algum de voces ja esteve na Asia sabe que a populacao Asiatica eh um povo pacifico e que a justica divina poderia ter acabado com algumas guerras se tivesse concentrado seu maremoto divino sobre territorios bem mais interessantes, digamos assim, do que um povo que vive para cuidar de seus proprios interesses e cultiva um pacifico estilo de vida. Mas a realidade bateu, e nos deu consciencia que um segundo basta para sermos varridos da face da terra sem tempo nem para pensar, e ai ? Qual a moral ? qual a licao que devemos assimilar do episodio ? Principalmente nos, brasileiros, nos isentamos de qualquer coisa que aconteca no resto do mundo por termos nossos proprios problemas para cuidar, se nao conseguimos nem por a propria casa em ordem como podemos pensar em ajudar o mundo ?
Ahhhh a diplomacia, a tal.
Adoraria saber o que um diplomata faz nesses casos, manda uma carta ? faz um discurso ? Deve ser muito complicado ser um.
Cultura.
Enquanto nacoes como a Coreia e Espanha concentram todos seus esforcos em educar seus cidadaos, e se firmarem como as novas potencias mundiais em tecnologia e comercio, nos, brazucas ainda estamos tentando encher a barriga de nossas criancas para que elas tenham forca e saude para frequentar uma escola - li sobre casos em que as criancas iam para a escola apenas pela merenda, e ainda existem escandalos pipocando sobre prefeitos que desviam a verba das merendas - e tudo isso acaba em um circulo onde : a crianca das classes baixas nao pode frequentar a escola por ter que trabalhar e ajudar os pais (porque ela come a merenda, e o resto da familia? morre de inanicao ?), se frequenta a escola nao termina por ter que comecar a trabalhar cedo, nao tem vaga nas escolas publicas para todos os alunos entao vai trabalhar a ficar em casa com os pais ou pior, vai para as ruas aprender o que as ruas ensinam; e por ai vai... ...tudo bem que existem bibliotecas, alternativas para uma pessoa interessada se educar, mas quem eh que pode se preocupar com isso quando sua casa nao tem nem agua encanada ? Aonde se resolve tudo isso ? Na escola ?
Fome Zero, desemprego, sistema de saude aos frangalhos...
...e as pessoas da sala de jantar, ainda estao ocupadas em nascer e morrer.
Violencia.
A violencia brasileira finalmente atingiu os niveis alarmantes de uma guerra civil - por dia, quatro policiais morrem no RJ - e em Sao Paulo a coisa nao parece estar nada melhor e que dira no resto do Brasil, em que nao temos muita ideia de como medir ?
Claro que violencia revolta, revolta quem sofre e quem pratica.
Ou voce acha que o assaltante prefere estar nas ruas fazendo o que faz do que estar numa bela casa (na Zona Sul) assistindo a um DVD em seu novo home-theather, ou numa bela praia cercado de gatinhas tomando caipirinha e beliscando um peixinho frito ?
Onde eh que foi que este sujeito resolveu adotar o crime como modo de vida ? Num documentario que assisti sobre o trafico de drogas no Rio, descreve a situacao perfeitamente; o garoto da favela, que ja tem uma vida dificil e quer o que todos os garotos querem vai preferir engraxar sapatos para fazer 10, 20 reais por dia ou vai preferir trabalhar para os traficantes por R$ 300,00 semana ? E vc, na situacao dele, o que faria ? Inclua-se na situacao a sua familia com uma renda mensal de um salario minimo para dividir entre no minimo tres, quatro pessoas.
Sinceramente, vcs acham que essa pessoa tem alguma condicao de ir a uma escola, universidade, quando se tem um panorama desses a frente ?
Acho muito dificil, salvo as excecoes, que sempre existem - mas mesmo em minha realidade, eu nao sou uma excecao e por isso chamamos assim : excecoes, raridades.
Atribuimos a culpa a quem ? Ao governo, a nos mesmos ? AMBOS.
Quantos ai fazem algum tipo de trabalho voluntario ? Eu tambem nao.
Ai entra o item civilidade - cidadaos da Republica Federativa do Brasil. Cade eles ?

Estao pagando o crediario do DVD. Atrasado.

Aonde quero chegar com isso ?
Na verdade a lugar algum, estavamos tendo um debate aqui outro dia sobre o assunto e apenas quero abrir este debate mais uma vez ao maior numero de pessoas possivel - afinal o que um monte de brasileiros que deixaram o Brasil sabem sobre ele ? Fica facil criticar o Brasil quando nao se esta nele, mas por outro lado temos a visao do que o Brasil poderia ter sido quando vemos um pais como este, e quase sempre penso que no Brasil poderia ter um parque assim (provavelmente melhor) que no Brasil nao temos terremotos, que o Brasil tinha tudo para ser uma Australia ou melhor.
E o final do debate foi a conclusao que todos gostariamos de estar no Brasil, com bons empregos, com os amigos, com as nossas familias.
Tudo isso seguido de um silencio ensurdecedor.

Comecei falando do mundo, e terminei falando do Brasil para variar...
...e enquanto isso, vejo na manchete do Jornal que Ronaldinho e Cicarelli se separaram. E isso, ainda por cima eh considerado chocante.

quarta-feira, março 30, 2005

Ainda no Tatler...

Meses haviam se passado, eu ja preparava molhos, cortava e limpava pedacos gigantescos de carne e aparentemente nao havia mais o que se aprender naquela cozinha, o menu mudou apenas para ser uma variacao das mesmas coisas do antigo (Mark eh um vagabundo de carteirinha) e eu nao aguentava mais o Steve me enchendo o saco, mas eu comecei a perceber o que estava acontecendo realmente quando passei a fazer a preparacao da area quente. Uma noite, no auge do desespero Mark berra por root veges (vegetais tuberculos, cortados em cubinhos) aparentemente Steve deu mancada, e la fui eu com minha faca de dez dolares cortar legumes - o que geralmente levava horas para aqueles dois, eu fiz em minutos - e nao estava usando as facas Victorinox, Globais da vida nas quais eles prezam como seus proprios orgaos sexuais (na verdade, ainda acho que a faca, para o chef, ainda eh um simbolo falico de poder) e agora eu entendia o porque de geralmente serem seis da noite, enquanto eu me descabelava para terminar toda preparacao das pracas de saladas e sobremesas os dois estavam em frente dos fogoes lendo jornal, batendo papo e observando os decotes, a anatomia das freguesas que passavam em frente da boqueta em direcao ao banheiro. Passei a entender a situacao : havia sido eleito o Heroi, aquele cara que nunca falta, nunca liga falando que esta de cama (a nao ser que vc tenha uma hemorragia interna, vc TEM que estar la) e nunca reclama que esta sobrecarregado, alias este e o perfil ideal de um ajudante de cozinha - mesmo que vc acorde na sarjeta com cachorros lambendo a sua cara e com uma dor de cabeca herculea, VC TEM DE ESTAR LA as nove em ponto, de uniforme limpo, barbeado e hiperativo. Nem sempre correspondi a descricao,mas estava lah, durante meses e meses e nunca dei mancada, Sarah a gerente me apelidou de "reliable Ricardo".
Na semana seguinte, estavamos la nos matando (eu, bem claro) e quando eram quatro da tarde, as pracas ainda arrasadas pelo almoco, Chegam Steve e Mark, ao passo que joguei o avental e estava batendo o ponto quando em polvorosa eles me perguntam aonde iria - como assim vc vai sair e deixar a gente na merda ? Apenas mostrei que a MINHA praca estava reabastecida e que iria tirar meu break sim, "voce quer um heroi ? o cemiterio esta cheio de herois, sao os primeiros a morrer" e fui para meu break de uma hora.
Isso mudou bastante as coisas por la.
Estava comecando a ficar viciado em Panadol, no comeco era porque tinha constantes dores-de-cabeca por falta de sono, alimentacao irregular (para quem trabalha em cozinha, um simples macarrao com molho de tomate eh uma bencao) e raros dias de folga contribuiram para me colocar na mais profunda das depressoes - chegava ao trabalho feito um zumbi, andava pela cozinha me arrastando e ferias nao eram considerada uma possibilidade, mais um sonho.
Apos mastigar a seco, mais dois Panadols, agora porque descobri que alem de amansar a dor-de-cabeca estes continham doses cavalares de cafeina descobri que o novo chef da manha havia chegado - Francis, Irlandes, oculos-fundo-de-garrafa e um sotaque gaelico incompreensivel estava prostrado em frente aos fogoes feito uma barata tonta. Nao despertou o menor interesse em minha ja abalada fe no Tatler. No inicio, claro.
FRAN.
Francis (carinhosamente apelidado de FRAN) foi jogado na cozinha sem nenhuma explicacao, sem nenhuma ideia do cardapio, sem a menor dica do vagabundo do Mark que estava agora feliz por ter se livrado de uma vez por todas do inconveniente de encontrar um day-time chef.
No inicio, achei que ele era um desses NERDS que andam por ai tentando ser simpaticos com todos, pensei em mais um idiota para aguentar toda a manha (depois da Brenda, uma vaca extremamente religiosa que deveria seguir os proprios mandamentos) e nao estava contente com mais agruras que possivelmente surgiriam, fui com cuidado, dizendo a ele o que deveria ser feito e me senti um pouco desconfortavel ao dizer a um chef experiente o que deveria fazer.
Comecamos a trabalhar juntos numa sexta, acho eu, e no sabado ele me chamava para cozinhar junto com ele, dividindo comandas e assistindo ele - achei brilhante, um sopro de vida em meio ao deserto profissional que me encontrava - mas a prova de fogo estava por vir, a apenas um dia de distancia, na forma de um dia de cafe-da-manha.
Domingo, o dia dos turistas e caipiras irem tomar seus cafes da manha fora de casa, estavamos eu e Fran, nos preparando para mais um dia de esbarroes e encontroes devido a nossa total falta de familiaridade na estreita area quente, quando as nove da manha em ponto (mal tinhamos tirado as coisas da geladeira) comandas comecam a ser cuspidas pela impressora, fato raro em qualquer dia da semana obter pedidos nos primeiros minutos de funcionamento. De repente, as nove e meia, tinhamos 14, 15 comandas dependuradas e corriamos, Fran gritava com seu sotaque gaelico "fock,fock, bastards !!" enquanto eu dividia minhas tarefas entre cozinhas, fazer as saladas e sanduiches, lavar pratos e reabastecer a area quente com bacon (que deve ser pre-cozido no forno), Hash Browns, salsichas, Cogumelos silvestres (tambem pre-cozidos no forno) e toda a parafernalia que o continental Breakfast exige. A cozinha enorme do Tatler exige pelo menos tres pessoas trabalhando, uma basicamente no fogao, outra entre abastecimento/assistencia e saladas e outra para lavar os pratos e ir buscar coisas na camara fria - eramos um exercito de dois homens, fomos levados quase as lagrimas e so conseguimos ajuda (virtualmente) quando depois de horas as duas mariquinhas admitiram para a gerente que a coisa estava desandando.
Ligaram para o Steve, o unico disponivel e ele apareceu uma hora depois (por volta das uma) totalmente chapado por resquicios das drogas da noite anterior, levava horas para lavar UMA frigideira e nossos pedidos por molhos Barnaise, bacon e afins eram apenas ruidos em sua confusa e dolorida cabeca (tanto que dispensamos ele as duas e meia) e as tres e meia da tarde, ainda tinhamos pedidos entrando e nao sabiamos o que fazer para abastecer aquele povo que nao parava de entrar no restaurante. "Motherfockers !!" gritava Fran entre um prato e outro, enquanto eu lavava os pratos correndo para reabastecer a estufa de pratos quentes.
Entre urros/berros/gritos e sussurros, foram por volta de 200 pessoas atendidas naquela manha - recorde de publico do Tatler para cafe da manha, ganhamos uma cerveja cada um da gerente (que quebrou o protocolo de alcool zero no trabalho) e as quatro da tarde estavamos no beco atras do restaurante sentados em caixas de leite encostados na parede, bebendo a cerveja e fumando avidamente os primeiros cigarros do dia. "Fomos estuprados" falei, e ele devolveu "Voce eh bom" - concordamos entre nos, e partir dai surgia o duo-dinamico das manhas.
Viramos parceiros, de trabalho, de bar e da vida - como costumo dizer, meus colegas de bar tem um problema de trabalho e com Fran nao foi diferente : saiamos para o break do dia e voltavamos levemente embriagados para trabalhar e ainda sim, trabalhavamos brilhantemente. A essa altura, ainda era Abril, Fran entrou no ritmo de Queenstown tipo, bar/pilulas/snowboard/baseado e trabalho enquanto eu procurava me focar no trabalho, mas ainda estava descontente com um monte de coisas, entendam que as pessoas que trabalham em uma cozinha estao a uns cinco niveis abaixo da humanidade e sao em suma : drogados, bebados e pessoas com passados criminosos e ate entao, era considerado como tal naquela escala, e na verdade sou um dos unicos que nao usa drogas e talvez, o unico interessado em aprender mais e mais. Fran tinha uma razao para estar la, ele era qualificado entao a satisfacao profissional estava em segundo plano - o trabalho era apenas dinheiro para esquiar e beber - para mim o buraco era mais embaixo, nao estava mais vendo razoes para estar lah, comecei a pensar em dinheiro.
Visto que Fran era qualificado, e ganhava exatamente o que considerava um salario decente para mim, apos dois meses tentava convence-lo a pedir aumento de maneira que, eu pudesse ter um aumento tambem de forma justificada (e com certeza, a direcao iria querer manter o duo-maravilha) mas Fran era muito bundao para pedir um aumento e isso encrencava meus planos tambem.
Percebi que enquanto a direcao do restaurante me visse como um brilhante drogado, bebado, oportunista de temporada, nao iria para lugar algum, queria sim, meritos e grana, ainda que fosse para ser um otimo kitchenhand, queria mais.
Ai, comecei a arquitetar minha fuga.

Tatler: paixao e odio.

Ao me lembrar da primeira vez vez que entrei no Tatler, estava recem-chegado de uma peregrinacao de mais de 4000km em minha moto 100cc. para passar o ano-novo em Queenstown, e decidi ficar aqui ate a hora de pegar meu voo de volta para o Brasil dia 15 de Fevereiro, precisava de um emprego para pagar o lodge onde estava hospedado e uma graninha para gastar na balada de Queenstown.
Apos Auckland, todo o trabalho duro, a falta de reconhecimento (a minha falta de compreensao sobre a industria ajudou a ser um mimado empregado que odiava ser contrariado) me ensinaram que eu nao deveria a qualquer custo pegar o primeiro emprego que aparecesse, nem por miseras quatro semanas ainda que fosse, estava no fim da minha paciencia e estava decepcionado demais por nao ter conseguido um visto para permanecer mais na NZ e enquanto circundava a cidade em busca do emprego ideal, me deparei com este templo ao bom gosto que e o lugar : todo em madeira envernizada tipo nougat, luminarias e apetrechos de bar em cobre e uma sobria cortina de veludo dividindo o salao o lugar era tudo o que queria - podia me ver detras daquele bar, ou circulando pelas mesas rindo, fazendo gracinhas e encantando os clientes em troca de generosas gorjetas (que, tinha ouvido falar, sao generosas em Queenstown) e entrei com a maior cara-de-pau, barbudo, cabelo descolorido e botas pesadas pedir pelo meu lugar ao Sol. Cheguei ate a beira do bar aonde, o bartender (e gerente) estava distraido e quando falei oi, ele se virou e me mediu de cima a baixo - ele era magro e alto, cabelos curtissimo sem um so fio fora do lugar, uniforme impecavel e um sotaque ingles de botar lordes no devido lugar, quem diria o brasileiro tampinha prostrado em frente ao balcao - "to procurando emprego" anunciei em voz alta em meu ingles macarronico que devem ter ferido os timpanos da criatura que sem sequer mover uma pestana me pediu um curriculo na esperanca e certeza de que eu NAO possuia um, e que me mandaria para sempre de la e parasse de infectar o ambiente com minha indesejada presenca. No dia seguinte, consegui emprego de garcon em um restaurante indiano por um salario de merda e o staff do lugar mais parecia uma mafia do que colegas de trabalho, o lugar parecia escuro e sem vida alguma e de alguma forma, sabia que aquele nao era o lugar para mim, o Tatler parecia mais e mais o Olimpo dourado dos garcons. Voltei no dia seguinte com um CV em maos, de barba feita, cabelo escovinha (emprestei a maquina de cortar de uma amiga) e jaqueta de couro marron bem-cortada e o tratamento agora foi diferente, ao inves do gerente me olhar como uma barata de esgoto agora ele me via como uma barata voadora, insistente e perigosa na proximidade que passa pelo seu rosto - pegou meu curriculo e antes que eu cruzasse a porta, me vierei para ver o que ele faria com a folha, e alias nao fui decepcionado, fiz milhares de vezes isso em Auckland, enfiou o CV em uma pasta com milhares de papeis que provavelmente jamais seriam lidos e iriam, em uma semana para a "Cesta" sessao.
Nao me dei por vencido, e nao apareci na mafia indiana para trabalhar pois enfim realizara que aquele nao era o lugar, aquelas nao eram as pessoas e eu nao era exatamente a pessoa certa para se trabalhar em um lugar cheio de indianos, morenos e baixinhos, e seria eu la - bem no meio, louro, olhos azuis e um pouco agigantado para os padroes. Enquanto ainda pensava em como me enfiar no Tatler, Eduardo, carioca e lavador de pratos amador do Tatler me aparece dizendo que estava se mandando para trabalhar em um hotel e que haveria uma vaga no Tatler, por assim dizer disponivel, mas eu nunca havia lavado pratos ou trabalhado em cozinha em minha vida, ate ai, nada a ver - mas ele conhecia o dono e tinha falado de mim pro cara havia cinco minutos, ele TINHA O CONTATO que eu precisava para passar por cima do gerente, o dono chama-se Grant e mais que depressa me mandei para la com o cartao de visita do homem decorando o nome, aquele cartao preto e impresso em letras classicas brancas.
Cheguei chegando, e entrei feito uma bala ate o balcao e novamente o gerentinho encardido estava lah, no lugar de costume atras do bar e nao falei mais nada : perguntei se podia falar com Grant.
"O que voce quer com ele ?" retrucou com o ar mais desconfiado do mundo, dizendo que ele estava ocupado e em minha cabeca o mundo parou por alguns segundos e agora a cena congelada a minha frente e as opcoes apareciam em uma legenda em minha cabeca:
a) Soco esse almofadinha e passo correndo pelas escadas ate o escritorio;
b)Digo que sou da inspecao sanitaria da NZ, e que tenho seriedade em falar com o dono;
c)Grito "FOGO" e aproveito a chance enquanto todos correm;
d)imploro;
Implorar, infelizmente pareceu a opcao mais sensata e menos divertida, entao comecei a dizer que tudo que queria eram cinco minutos do tempo dele, ate jurei que nunca mais apareceria por la caso eu nao conseguisse nada - mas tudo que queria eram cinco minutos com ele...
O homem sentado atras de mim, com uma voz firme e alta quase esbravejante disse "eu sou Grant, o que voce quer ?" e se levantou pondo-se ao alto dos seus quase 1,90m, cara marcada por uma adolescencia acneica, bochechas rosadas de beberrao e cabelos brancos desgrenhados e rebeldes, engoli em seco e disse que o Eduardo tinha me mandado.
No escritorio, ele se serviu de vinho (nao ofereceu) e me perguntou o que queria com ele, parecia um homem firme e justo, gostei disso e me peguei entrevistando ele para ser meu empregador; fui de uma sinceridade constrangedora e disse que queria trabalho por tres semanas, e que nao aceitaria um nao como resposta ate porque, aquele era o unico lugar na cidade aonde me via trabalhando, contei que nao tinha visto de trabalho e por fim, que tinha experiencia como garcon e bartender quando perguntado o que queria fazer. Ele disse que nao precisava, e perguntei pela primeira vez " do que voce precisa ?" - lavador de pratos durante o dia, ouvi, e pensei nisso como uma entrada pela porta de tras - aceitei e me mandei prometendo voltar no dia seguinte as dez da manha.
O resto, voces ja devem ter lido antes, ate ser contratado e ser treinado para Larder Chef (chefe de partida) e em um mes, ja sabia pelo menos 2/3 do que os outros dois iniciantes sabiam - e ai comecaram os problemas.
O sub-chef, na verdade era mais um assistente do Mark, a putinha dele, para ser mais preciso era Steve - loiro, olhos azuis e kiwi, estava sempre tentando me impressionar com seus truques de cozinha e para quem nao nos conhecesse poderia dizer que eramos irmaos gemeos , mesma altura, estrutura e aparencia nos tracos europeus e o mesmo cabelo acinzentado que cheguei a conclusao, nos odeia.
Exceto pelo fato do FDP me odiar do fundo da alma.
Todo e qualquer erro cometido por mim durante o dia era profusamente relatado para o Mark durante a noite, desde uma simples queima de um bolo de chocolate, ate o desperdicio de um tacho de Cremee Brulee, tudo era minuciosamente relatado na minha ausencia ou durante o jantar, momento em que Steve se sentava com Mark do lado de fora do restaurante para destilar o veneno. Mark apenas entrava na cozinha e me perguntava se realmente as pequenas tragedias haviam ocorrido, apontando Steve atras com o canto do olho - jogando lenha na fogueira, para ser mais correto - fomentando a "competicao" entre nos enquanto Steve ficava de costas fingindo fazer alguma importante e ouvindo tudo. Como eu sou incapaz de mentir se perguntado diretamente, sempre dizia a verdade e no futuro isso acabou fazendo toda a diferenca entre nos tres, ficou claro quem era o alcaguete e quem estava jogando sujo.
Certa noite, apos meses de enchecao de saco por parte do Steve (todos na cozinha sabiam o quanto ele fazia o possivel para me irritar) perguntei para ele o porque de tanta delacao, sendo que eu vira Steve fazendo altas merdas e nunca o joguei na fogueira, ao fato que obtive um "porque eu sou o Sub-chef, e voce nao, tenho responsabilidades" - isso trouxe meu sangue a temperaturas elevadas - e apenas disse que se estivesse em meu pais, lidando com um brasileiro e com as leis me protegendo, ele ja teria levado um soco bem no meio do nariz. A partir dai, a coisa ficou pior, mais dissimulada. Steve agia pelas minhas costas, punha garcons contra o meu trabalho e numa ocasiao, quando Mark saiu de ferias por uma semana, cortou minhas horas e fez de minha vida um inferno terreno mas aquilo foi um divisor de aguas para mim. Durante aquela semana, intoxicado pelo poder, ele comecou a dar ordens para Chefs com quinze anos de experiencia e simplesmente ferrou com os nervos de toda equipe, claro que o alvo principal era eu.
Na volta, todos reclamaram para o Mark durante o dia e eu so trabalharia a noite, ao passo de que quando cheguei, o barraco ja deveria estar armado. Eramos naquela noite, uma equipe de quatro pessoas, todos os chefs menos Steve, de folga, e na area quente estavam Craig e Mark conversando quando entrei.
Mark me perguntou se "Steve se comportou bem ?" ao passo que apenas de cara resignada falei que sim, sem nenhum problema e me virei para fazer a preparacao de minha sessao, enquanto eles trocaram olhares (fui saber mais tarde) e assentiam um para o outro, eu nao CAGUETAVA colegas de trabalho e incoscientemente, devo todo o respeito que a equipe me deu ao Steve, ate hoje alias, ele nao imagina o desservico que deu a si mesmo, e o beneficio que me entregou de bandeja.
A partir dai, ficou claro que eu era um dos caras, toda a equipe passou a ver raios de sol saindo do meu rabo (SIC).
Mais tarde, saimos para tomar uma cerveja eu e Steve e falei abertamente de toda merda que ele me fez passar, e agradeci - nao por nenhuma falsa modestia, mas se nao fosse por ele, eu nao seria atento ao que faco, nao procuraria ter tanto apreco por detalhes e provavelmente nao teria tanto respeito pela equipe. Fora do trabalho, Steve tem um coracao de ouro, mostra o quao inseguro se sente e ate hoje somos bons amigos - colegas de trabalho, jamais porem. Os meses restantes foram de puro trabalho duro e dedicacao, ataques de mau-humor, ataques de riso, e novos importantes membros da equipe dos quais falarei logo.
Estava comecando a achar possivel me tornar um chef, e quem sabe ate cozinhar, de verdade.

domingo, março 27, 2005

FAB.

Muito mais que despertar meu interesse pela culinaria, Fabrizio me fez ver a primeira vantagem pratica de ser um chef - poder trabalhar em qualquer lugar do mundo, seja na Grecia, Japao ou China, esse argentino de 29 anos esteve em todo lugar com sua faca em maos.
Fabrizio trabalhava no outro restaurante do meu chefe, a apenas duas portas de distancia e cobria os Domingos e Segundas da Chefe da manha e era um prazer imenso trabalhar com ele.
O choque cultural era incrivelmente menor entre nos e Fab (apelido dado a ele) tinha uma experiencia incrivel e explicava o porque de cada coisa ser preparada do jeito que era, usando termos de fisica e quimica para ilustrar o porque das coisas darem certo ou errado na cozinha alem de ser um grande amigo.
Apesar de ser um ano mais novo, aparentava ser mais velho que eu pelo menos uns 6 anos devido ao trabalho duro e a vida desregrada que levou ao redor do mundo - seu curriculo incluia EUA, Cuba, Espanha, Franca, Inglaterra, Grecia, Australia e mais recentemente Japao - parecia nao haver nada que Fab nao soubesse, seja da cozinha, da vida ou das pessoas, creditava todas as frases celebres e ditados profeticos a sua mae, segundo ele a pessoa mais sabia no universo. O jeito como tratava as pessoas quando queria, era bem mais truculento do que jamais imaginei poder ser na vida, mas o mote era que em 90% dos casos, ele estava irremedialvemente certo.
Mulheres, dinheiro e viagem, nesta ordem, sempre guiaram a vida de Fab, safado e malandro, era o oposto do que sou - sempre pensava e colocava a si mesmo em primeiro lugar e costumava me dizer que sou um otario de carteirinha por ser muito bom para as pessoas (pasmem) e que enquanto nao pusesse a mim em primeiro lugar, as pessoas fariam o que queriam de mim.
Mais uma vez, as profecias de Fab provaram-se verdadeiras e estava ha sete meses fazendo split Shifts (trabalhava das nove as tres, e das seis a meia-noite) e estava cansado, irritado e sem muitas perspectivas a frente. Fab pediu demissao do Tatler, e estava procurando um novo emprego para deixar definitivamente o Captain's (o outro restaurante ao lado) e arrumar alguma coisa mais facil e com horas mais flexiveis, alem de evitar o stress de lidar com o dono do restaurante diariamente, segundo a lendaria mamae, "uma mudanca, as vezes eh melhor que ferias", e na verdade ambos procuravamos uma mudanca, procuravamos talvez uma oportunidade e combinamos para a partir do primeiro que encontrar um emprego, iriamos trabalhar juntos, achar o emprego e abrir espaco para o outro chegar. Ai, entra John Jones, bartender, irlandes e ambicioso homem.

A vida de Chef.

Desde minha volta, evitei tocar no assunto e talvez mistificar o que tenho aprendido e o que tenho a aprender talvez ate para nao criar expectativas grandes em relacao ao que faco, apesar de gostar do que faco - provocar reacao instantanea nas pessoas ao verem um prato bem servido e bem decorado - existe a responsabilidade que pesa sobre voce desde um jantar para 60 pessoas ate um jantar para 10 para amigos (do qual senti pesar muito mais a responsabilidade por medo de decepcionar as pessoas que voce gosta) mas por ora, vou tentar focar a trajetoria que me levou a fazer o que faco.
Ao conseguir o emprego de lavador de pratos, observei com inveja e admiracao os chefs se movendo graciosamente dentro da cozinha de dentro de meu avental de PVC enquanto esfregava panelas, frigideiras fervendo e tentando saber a razao de tanta agressividade no trato de utensilios de cozinha ao serem atirados para dentro da pia a me encharcar os ossos de detergente, gordura e pedacos incidentais de comida que grudavam em meu rosto e cabelo. Minha primeira grande atracao foi pelas sobremesas, Yanick, um chef franco-canadense fazia pequenas torres de chocolate marmorizadas com apenas umas tiras de plastico e clips de papel, para mim foi a primeira vez que quis realmente tentar preparar alguma coisa, as sobremesas bem-decoradas e guarnecidas pareciam muito melhores que a comida que saia do fogao na hora do almoco, tinham um que de grand-patisserie e uma dignidade muito maior do que os ovos e Hash Browns empilhados em pratos de maneira quase desconstrutivista ou uma versao piorada de uma pintura de Picasso, olhos desgovernados e fora de centro ao redor de um nariz horizontal, um total horror aos meus olhos. Eu sabia o que queria e o que queria nao era fast-food, pretencioso eu sempre fui.
As pessoas que porventura acabam em uma cozinha, sao, de longe, anormais em relacao aquelas com as quais voce trabalha no escritorio, no forum, na loja; sao desajustados que estao sempre em posicao de fuga, seja da familia, da vida da realidade dos dias nove as cinco das pessoas normais - a vida de chef eh mais atribulada mas deixa exatamente os horarios certos e preferidos para fazer o que mais gostam : beber e fumar maconha.
Yanick por si soh ja era uma epifane da profissao : sempre de barba por fazer, usuario de cocaina inverterado estava sempre com a cara de quem nao dormiu a noite toda e os longos cabelos desgrenhados sempre entafuiados para dentro do chapeu de chef, mas com sabedoria de quem ja trabalhou em muitas cozinhas e sabia que nao havia nada de novo que alguem pudesse jogar em sua cara, nao dava a menor ao que acontecia ao redor - ele era a lei.
Vendo que eu dava conta da lavagem e ficava procurando o que fazer, ele me introduziu a praca das saladas, aonde me ensinava devagarinho os pratos frios com aquele ar de "voce nao sabe o que te espera".
Eu realmente nao fazia ideia.
Apos tres semanas eu ja dominava as saladas e mezze plates e ja fazia uma humilde entrada no mundo das sobremesas, aprendia a fazer as guarnicoes e enfeites como uma crianca na aula de educacao artistica fazendo um cinzeiro de argila. Yanick em hipotese alguma era a companhia que desejava para circular por ai, era rude (o lado frances) neurotico e drogado, mas dentro da cozinha se tornou a pessoa certa para se estar e em pouco tempo, ja havia me dado uma jaqueta de cozinha (meu primeiro uniforme) um gorro e muita coisa para fazer e apesar de seu jeito desleixado tinha uma disciplina nazista em relacao a limpeza, arranjos e trato com a comida.
Ao final de tres semanas, ele pediu demissao, e eu vi a chance ali, uma pessoa a menos na cozinha, uma pessoa a mais a contratar.
Pedi o emprego numa quarta-feira e na sexta estava de contrato na mao e com a promessa de treinamento para a posicao de Larder Chef por um ano (a qual se revelou um treinamento totalmente na pratica, estilo militar) e quando comecei a trabalhar noites (jantar eh o objetivo de todos os aprendizes, eh onde tudo acontece) comecei a ver mais e mais a fauna culinaria.
Andrew, chef ingles, havia sido contratado ha uma semana e todos estavam contentes com o seu trabalho ate a noite em que ele saiu para fumar um cigarro e nunca mais voltou - me deu bem uma ideia do tipo de relacao que esses trabalhadores tinham com seus empregos.
Mike, kitchenhand que trabalhava ha meses antes de mim, nao fazia a menor ideia da onde vinha uma sobremesa, uma salada, e vivia chapado de maconha e talvez por isso, foi declarado nao-elegivel ao aprendizado da cozinha limitando-se a lavador de pratos; em varias ocasioes chegava para trabalhar apos fumar um baseado nos fundos do restaurante e ficava segurando as manoplas da lavadora de pratos industrial como se estivesse em uma moto, imitava inclusive o ronco da "Harley-Davidson" imaginaria, que inveja nao saber o tempo todo o que se passa ao redor. Em Queenstown, cidade turistica, tive mais contato com a industria da hospitalidade e pude observar o staff de temporada :
-Pessoas que estao fugindo de suas realidades;
-Beberroes e notivagos em geral;
-70% dos trabalhadores usam regularmente algum tipo de droga;
-Pessoas que em geral, tem horror a estudo;
-Gente que, em vinte anos, provavelmente estara fazendo as mesmas coisas, vivendo da mesma maneira em qualquer pais que nao seja o deles.

Mark Beeby.
Ao trabalhar noites, conheci o head-chef do restaurante, Mark Beeby trabalhou em Queenstown por vinte anos e eh conhecido por ser um "Cowboy" - termo designado no meio para Chefs que fazem servico "matado", daqueles que botam um steak na fritadeira ou no microondas para servir mais rapido (ofensa grave no meio) e que gerenciando pessoas nao tem a menor ideia dos limites entre ofensa pessoal e profissionalismo. Por ser um dos unicos Chefs qualificados e com certificado, sempre conseguiu trabalho apesar de ser esta a primeira experiencia como head-chef eh brilhante para trabalhar com custos e lucros da cozinha. Seus menus sao pessimos e a grande parte da industria o odeia.
No comeco temia a ira dele durante as horas de maior movimento, os berros, os xingamentos eram simplesmente insuportaveis e com o tempo, quanto mais convivi com ele, mais aprendi a ignorar seus acintes e achaques a partir do momento que o chamei para a briga (pra fora, agora!!) ele desenvolveu um respeito inesperado por mim e ate hoje o homem me adora, nao consigo entender ainda a razao ate porque, ate hoje, eu nao o trato diferente do que costumava no comeco. Se por um lado aprendi muito do que fazer com ele, aprendi tambem muito do que NAO fazer.

O trabalho no Tatler comecava a me cansar, principalmente por nao poder tocar no fogao, e tratei de aprender a fazer as sobremesas para ter acesso a essa meca sagrada da cozinha - a area "quente" onde estao fogao, fornos e fritadeiras, aonde a magica acontece e durante uns raros segundos durante o almoco, entre a troca de chefs, fui permitido cozinhar por alguns minutos diarios as refeicoes, prazer este, muito maior do dirigir um carro pela primeira vez, que a primeira trucada, que o primeiro dia de faculdade - eu comandava ainda que apenas por raros minutos mas estava lah, esperando a minha chance.

Apesar disso ser o maximo que consegui em sete meses, mas a minha sorte estava por mudar.

domingo, março 20, 2005

Ahhhh.... antes que me esqueca...

Li, meus parabens pelo aniversario e pelo presente que voce esta recebendo !!! Alias, presente para todos nos que te amamos tenho certeza que todos concordam. Parabens a voces !!! Beijos

PS:- Acho que foi a inspiracao para o texto abaixo... ...nao tem nada a ver :) eu sei, mas sei lah, enfim...

Quase 30.

Como nao poderei fugir do assunto por muito tempo, vou encarar agora e ficar livre !!!
Como em Queenstown todos os backpackers estao por volta dos vinte e poucos anos, semanas atras estavamos reunidos para uma cerveja ao Sol enquanto eu revirava minha bolsa atras de minhas chaves ate que no calor de achar as danadas comecei a por tudo para fora da mochila, inclusive meu passaporte que imediatamente comecou a ser vasculhado pelas meninas. Ao verem que eu tinha 29 anos, a surpresa - "Voce eh velho" eu tive de ouvir de quatro garotas entre 21 e 25 anos (afinal, elas tambem nao estao longe) mas notei como sete, cinco, tres aninhos fazem a diferenca entre duas pessoas; nao que eu seja completamente mais experiente, sabio ou pratico, isso eh muito subjetivo - mas percepcoes comecam a divergir.
Comparando a digamos, sete anos atras, estou mais critico, cansado e um pouco mais ranheta, mas na verdade tudo passa a ser constituido de mudancas. Medus interesses mudaram, e enquanto algumas coisas perdem a graca, outras ganham novas cores; ficar tres dias seguidos na balada e acordar de manha para trabalhar tornaram-se impossivel enquanto passar um Sabado a noite em casa assistindo um filme deixou de ser uma desgraca completa, andar vestido com o que houver de mais caro no Brasil quando sair com os amigos nao eh mais fundamental (alias, seus amigos passam a andar mais a vontade fora do trabalho tambem) e seu carro nao esta mais sempre brilhando, voce deixa sujar um pouco antes de gastar com lava-rapido ou seu precioso tempo livre.
Livros passaram a ter mais importancia ao inves de servirem de suporte para mesa manca e esconderijo para boletins, conta bancaria e afins, agora eu paro em uma livraria e passo horas e horas vendo os livros ao inves da revistas de carro, quadrinhos e cds (paixao da qual nao abandonei, nem acho possivel).
As musicas que eu gosto nao tocam mais nas radios (a nao ser na sessao flashback), os programas de TV que eu gostava muitas pessoas nem sabem que existiram (TV Pirata, Armacao Ilimitada) e ultimamente falamos de pessoas que metade do grupo no barzinho nao sabe quem sao.
Ai, quando voce acha que sabe todas as respostas, a vida vem e muda todas as perguntas - de quem vou ser no futuro passa a quem sou eu agora ? de sera que um dia vou casar passa a porque nao me casei, quantos amigos tenho para quantos restaram e por ai vai...
As pessoas que voce conheceu na infancia podem nao estar por perto mais sao as quais mais me lembro, e seus amigos passam a ser poucos e leais - falo daqueles que entram em casa e abrem a geladeira, esses sim falam tudo na tua cara, riem, fazem o que querem de voce e ainda assim voce ama. Os gostos mudaram um pouco, ficam um pouco mais refinados ao tempo que voce fica mais simples, as ambicoes passam de uma mansao com quatro carros na garagem a uma casa com um carro do qual voce aguente pagar o seguro e sua saude passa a ser importante, passa-se a temer por sua propria seguranca igualzinho seus pais temiam por voce, pular de uma pedra a oito metros do mar sem pensar um segundo : antes possibilidade, agora impensavel.
Ja ouco de pessoas tendo enfartos aos 30, ja sei que tenho que fazer exercicios mais frequentemente e ate ja descobri que os cabelos raream, os dentes sao menos brancos e agora comeca a fase na qual a renovacao celular diz chega e voce que se vire para manter o que tem.
Mas existe a promessa de quando chegar aos quarenta, voce se aproxime dos vinte de novo, faca uma tatuagem no braco, ponha um piercing, monte uma banda e viva por ai, se virando para pagar as contas, sendo um "tio bacana" e talvez ate esqueca que um dia tive trinta anos e era mais bonito, rapido e pouco esperto em comparacao do que eh agora, aos quarenta, quando dizem, a vida comeca.
Dizem que a juventude eh a melhor fase da vida, mas eh quando voce mais trabalha, mais duvida, mais tropeca, e quando voce acha que a melhor fase passou, esta lah, mais tranquilo, mais perene e muito mais sabio do que ha vinte anos atras - nao pode ser tao ruim assim, afinal. Talvez eu seja apenas um velho ranzinza, com minha bengala correndo atras das criancas, mas uma coisa sempre foi certa para todos nos desde criancas : Nao adianta chorar, se chorar fica sem sobremesa.
30, 40, 50, 60 - nao importa, somos resultado de todos os erros e acertos durante o trajeto e quando ficamos perto da perfeicao, injustica, estamos nos ultimos anos de vida, talvez porque tudo que eh bom, dura pouco, especialmente se compararmos que a velhice dura muito menos que a juventude.

Mas minha unica certeza, meu unico conselho que pode realemnte mostrar resultados ao longo da vida eh : use o filtro solar.
O resto, a gente tira de letra.

terça-feira, março 15, 2005

Aos meus amigos !!

Valeu pelo incentivo, mas por um lado, minha mae esta certa, nao se deve escancarar sua vida intima e privada desse jeito (sim, sou aparecido mesmo...) e para um dia estar andando pelas ruas e neguinho te tacar havaianas, ai nao da ne ? Na verdade o que preciso eh de uma auto-avaliacao par saber o que vale a pena ser dito, de que forma e em qual linguagem, sei que as pessoas que me conhecem nao vao levar tao a serio o que eu digo ate porque... ...bem, voces me conhecem ne ?
Poxa, brasileiro tira sarro de tudo e soh eu nao vou poder ????
O que ouvi foi tambem que "eu meti o pau em Ibiuna" e a coisa nao eh bem assim, pois eu me incluo no grupo de Ibiuna so que desta vez eu tenho a visao de quem passou bastante (bem, nem tanto, va la) tempo longe e agora tem niveis de comparacao para avaliar o comportamento das pessoas, fiquei mais velho, critico e ranzinza com certeza, mas ate ai, quem nao estiver afim de ler, simplesmente muda de site e vai ler o que achar mais interessante e instrutivo oras...
Mesmo assim, quero que as pessoas compreendam que eu poderia ter ido a qualquer outro lugar do mundo e escolhi voltar para casa (alias, a passagem mais cara daqui para qualquer lugar do mundo) gostaria que as pessoas levassem em consideracao tambem que nunca andei com quem nao tenho afinidade e nao tenho segundos interesses nas minhas amizades, isso sim nunca vai mudar - meus amigos, ha muitos anos sao os mesmos e tenho muita gente que conheci durante estes dois meses que com certeza estao me fazendo falta. Para as pessoas que leem este Blog e gostam, meu muito obrigado pelo apoio, mudancas acontecerao daqui por diante mas um amigo uma vez me disse "uma mudanca eh melhor que ferias as vezes..."
Alias, ja cansei desse assunto. Vamos ao bussiness.

Abracos a todos Ricardo.

segunda-feira, março 14, 2005

A volta parte 2.

Bem, as semanas se passaram no Brasil, Guaruja foi legal, despedidas mil (a pior parte) e estava com dor no coracao de deixar o Brasil para tras mais uma vez (mas enfim, nao vou comentar nada sobre isso, promessa eh divida) e cheguei de volta a NZ com zilhoes de expectativas para 2005, ano novo e vida nova.
Chegando em Auckland, fui visitar o Eduardo e Simone, agora morando em um predio de classe media-alta de Auckland fiquei impressionado com a grande virada que eles deram, me deu felicidade e uma ponta de esperanca de que as coisas vao melhorar, sim.
Chegando a Queenstown, decobri que as coisas nao estavam exatamente do jeito que pensei, o emprego novo havia ido pelo ralo mas ao menos ainda havia emprego - menos mal - mas as semanas me mostraram que eu nao estava feliz, expectativas desencontradas talvez.
Quando se acha que tudo esta perdido, sempre aparece uma luz, e uma proposta de emprego apareceu, caida do ceu, mais grana, mais trabalho e menos tempo para pensar na morte da bezerra. Muitos erros, poucos acertos mas as coisas tem que andar para frente, ando meio cabisbaixo, e ate com medo de escrever sobre, parece as vezes que tudo que faco da errado, e meu talento para me meter em encrenca ja eh um fato consumado. Estou aprendendo a ser cuidadoso com as pessoas e menos "truculento", nao vou virar santo, mas pelo menos ainda estou aprendendo alguma coisa. Isso por si so, ja eh um aprendizado.

Ainda sobre...

Vamos la...
Fiquei assustado e impressionado com as repercussoes que tive, meus amigos sabem que eu tenho o talento e pachorra de distorcer situacoes e colocar tudo da maneira mais divertida possivel, mas contemplar o dia em que estarei passando pela rua e serei atropelado por alguem/por algo que escrevi em um Blog, ja eh outra historia.
Falando serio, os fatos que descrevo aqui sao exagerados e vistos atraves de meus olhos criticos, cada situacao eu imagino da maneira que seria mais divertido ler, nao sao situacoes tao literais - como cronica, assumi a liberdade de contar historias, nada mais.
Mas visto que, a interpretacao pode variar, decidi considerar a hipotese de encerrar este Blog.
Quase tive um ataque quando ouvi o que as pessoas acharam dos textos, mesmo sabendo que faco parte e faco tudo o que as pessoas fazem nas descricoes, para o bem e para o mal - nao me coloco a parte de nada, como podem ver nos textos anteriores aos dos ultimos meses. Nao quis agir de ma-fe, nao quis ofender ninguem e nao quero mais complicacoes quaisquer que aparecam por causa de um diario.
Sobre o que vou falar daqui em diante ? Da meteorologia, politica (nao, perigoso), televisao nao da, sinceramente nao sei, tudo que sei eh que o estrago esta feito e nao tem nada que eu possa fazer a respeito a nao ser apagar os posts e esperar.

Complicada essa coisa. Vou tentar continuar e ver no que da.

domingo, março 13, 2005

Esclarecimento

Bem, queria esclarecer que no texto sobre o jantar, (acho que foi isso que fui referido) o que descrevo o tempo todo era o meu medo de arruinar a ocasiao destruindo o jantar - foi uma responsabilidade grande e mesmo assim as pessoas que estavam la ignoraram as coisas que sairam errado (eg.seria um sonho se meus clientes fossem todos assim) e em momento algum quis criticar ou diminuir a atencao dada pelas pessoas que estavam presentes, assim como nos outros textos descrevo o que acontece no dia-a-dia, em momento algum me excluo dos fatos que aconteceram e em uma cronica, geralmente os fatos sao apresentados na linha da pessoa que as descreve (no meu caso, acidez) mas como li em uma celebre frase "um bom contador de historias nao deixam que fatos fiquem no seu caminho"; o que apresento sao figuras caricatas e exageradas apenas para realcar nuances e fazer com que a critica e o cinismo sejam engracadas. Em momento algum pretendo ser destrutivo ou negativo. Geralmente, a pessoa que esta em situacao dificil sou eu mesmo - neurotico e nervoso - tentando justificar o porque das coisas acontecerem do jeito que acontecem comigo. Fiquem livres para colocar criticas e me mandar e-mails, afinal todos tem o direito de expressao.

Sinceramente, Ricardo.

sábado, março 05, 2005

Praia, enfim...

Natal passou, alias, foi um otimo Natal (valeu Pri e familia !!) e o ano-novo prometia muito, alias prometia tanto que ninguem sabia exatamente o que faria, aonde iria e com quem estaria - eramos um bando de cegos correndo em meio a um tiroteio na favela Naval tamanha foi a desorganizacao. Eu com certeza, estaria com o Trovao pelo menos, mas as opcoes variaram tanto que entre Guaruja, Floripa e talvez Ubatuba, ficamos com Jureia mesmo soh para variar, afinal nos nuuunca vamos para Jureia para dar um tempo do povo de Ibiuna...
Mas a intencao (ao menos a minha) era que nao importasse o lugar, estariamos juntos e felizes e chegamos ate a vislumbrar o Reveillon na imensa casa da Marina, que inexplicadamente adiou tudo na reta final (agora que estou a milhares de kms de distancia posso falar : a galera ficou puta da vida Ma!!) enfim, acabamos indo para Jureia por livre e espontanea obrigacao. Mas justica seja feita, adorei ir e ficar com minha irma, cunhado e sobrinho e rolar aquele clima familiar, entao maos a obra - filtro solar, repelente, bermudao e camisetas muito largas para disfarcar o barrigao de cerveja.
Fomos saudados na balsa com uma legiao de pernilongos em estado de inanicao; acho ate que eles aprenderam a abrir a porta do carro, os malditos, e cheguei ao outro lado quase precisando de uma tranfusao.
Ver Jureia novamente foi quase uma viagem a adolescencia, apesar de ter ido para la ate antes de me mudar, sempre tem aquele gosto de passado, quando tudo era mais gostoso : a unica coisa que se precisava para se ir a praia era uma bermuda, cinco reais e um maco de marlboro para se dividir em tres e a festa estava armada - musica vinha dos carros estacionados em volta, e a cerveja quando acabava a grana era patrocinada pela tatica de "cerveja no vacuo", estratagema armado para afanar aquelas cervejas que ficam em cima do balcao enquanto os reais consumidores estao de costas, conversando.
O lugar cresceu muito pouco, a pequena vila continua do mesmo jeito mas o publico mudou e muito - a periferia descobriu os encantos de Jureia e agora os moradores vivem uma relacao de amor e odio com os visitantes; se por um lado estes movimentariam a economia do lugar, por outro destroem o clima da praia sujando, badernando e sendo eles mesmos, digamos assim.
O dia seguinte amanheceu com Sol, um belo Sol, escaldante e radiante e imediatamente senti meus pes virando um par de paes franceses de tao inchados (nao estou mais acostumado ao calor, acho) e minha vontade era de ficar deitado, imovel e nu no chao da sala com um potente ventilador ligado, mas a vida eh assim - vamos encarar a praia. Chegamos a Sucursal do Inferno, guardas-sol, esteiras, isopor, cadeiras de nylon que prendem os pelos entre a trama e muita areia entrando no short, ah que saudades da praia. Depois de varias cervejas quentes, decidimos pedir umas porcoes geladas de lula para acompanhar (a infra-estrutura de Jureia eh incrivel, Mediterranee que se cuide) e Tico e Pedrico (suprimidos de minha descricao do grupo, desculpas) brincavam com meu sobrinho enquanto Vanessa aproveitava os momentos de paz ao Sol, que inveja poder ficar estendido ao Sol por quanto tempo quiser.
Apos dois dias, e vermelho como uma lagosta, estamos em casa eu e Trovao, Nanci, que estava no Sul, chegava a porta de casa para dizer "oi, me arrependi e vim para Jureia" para justificar o fracasso do Reveillon perfeito arquitetado meticulosamente para ser um feriado em familia - virou um motim em familia, todos quiseram ir para Jureia, inclusive uma resignada Nanci que exibia seu meio-bronzeado-bem-passado denunciando os motivos para nao se dormir de costas para o Sol. Agora eramos um grupo, quem disse que meu feriado nao iria vingar ? Tudo que eu queria estava lah: Familia e amigos e um inferno tropical, tudo ao mesmo tempo agora.
Tudo correu como esperado, inclusive a implacavel chuva de verao que durou tres dias, nos forcando a ir para casa.
Jureia ainda eh o lugar aonde quero estar, na maioria das vezes.

domingo, janeiro 30, 2005

Sociedade. Socio ou nao ?

Agora tres semanas se passaram e estamos no meio de Dezembro, que eh quando as coisas (supostamente)acontecem, o Verao em toda a sua plena e indefectivel forma preenche as mentes e coracoes das pessoas, roupas leves e sim - vida social acontece principalmente no Verao, os que viverem para ver o Verao, verao.
Eu, de pessoa com vida social praticamente inexistente passei a VIP num piscar de olhos, batizados, casamentos, funerais, abortos, inauguracao de casa de baixo meretricio, churrascos, nao importava o evento la estava eu, sorridente com meu copo em mao e pronto para a proxima.
A Adega em Piedade virou um dos meus pontos-chave aos fins de semana (como todos em Ibiuna) e o pessoal da portaria ja me conhecia, minhas fotos agora saiam no site da balada e ao inves de ver as pessoas la, agora eu tambem seria visto, e ai comecam alguns incomodos de uma "celebridade local", um deles, das pessoas que sao IN em Ibiuna... ...sim, pois existe um grupo social ali, e esse grupo frequenta os mesmos lugares, ve as mesmas pessoas e faz as mesmas fofocas para diferentes pessoas, e quem nao gosta de ver sua foto no jornal local ?
Quanto mais se ve, mais se eh visto e quanto mais visto, mais oportunidades de se encontrar pessoas das quais voce optaria nao ter contato - apos dois anos, desenvolvi uma certa paura para pessoas indesejaveis por pura falta de habito de se livrar de gente que nao merece sua consideracao, na verdade o que sinto quando vejo essas pessoas eh uma imensa preguica de ter que olhar, conversar ou ao menos parecer simpatico - simplesmeste estou desprovido da boa e velha diplomacia social, aquela que torna a vida e a propria sociedade possiveis e quem disser que nunca fingiu um sorriso na boate que atire a primeira freira. Existem aqueles, que apenas pelo fato de todos te cumprimentarem, querem te cumprimentar a todo custo, mesmo tendo passado os ultimos cinco anos ignorando sua existencia : te perseguem com a mao estendida no caminho entre teu braco e seu copo, perguntam como esta e te dao os mortais "tres tapinhas" nas costas que na verdade significa uma sondagem da melhor area para estancar um punhal, outros, simplesmente chegam e perguntam se eu sou o "cara da Nova Zelandia" e fazem milhares de perguntas que nao sao interessantes nem a mim, nem a eles proprios, tudo que eles querem eh agradar os amigos em comum que por um acaso, me conhecem por anos a fio.
Existem aqueles que falavam comigo e depois ficaram estranhos; passavam com um oi rapido e evitavam olhar diretamente na minha cara como se eu fosse portador da lepra (contei pelo menos uns cinco casos agora) e simplesmente nao entendem que nao, nao fiquei rico na Nova Zelandia, nao, nao acho grande coisa ter morado fora do pais, nao, nao me acho melhor que ninguem (bem, alguns..) e sim, eu me lembro que tinhamos o habito de conversar antes da nefasta viagem a NZ. Tudo que peco eh : SINCERIDADE JA !!!
Adoraria que alguem chegasse e dissesse na minha cara : Cara, eu ate te cumprimentaria, mas acontece que nao sou seu amigo, mas poderiamos ser/podemos por favor, nao conversar/ poderia manter distancia ? Garanto que qualquer opcao seria perfeitamente acessivel/aceitavel/viavel segundo as regras da civilidade ditam.
O lado bom sao as pessoas que gratuitamente gostam de voce, apenas por ter ouvido sobre voce atraves dos amigos em comum, estes sim sao em primeira estancia estranhos mas se tornam bons companheiros por afeicao gratuita, coisa rara estes dias.
Entre toda essa fauna, existem aqueles, que se despedem de voce com lagrimas nos olhos, mandam e-mails regularmente, contam para voce comemorar junto a compra do carro, a nova namorada(o), diz o quanto sentiu sua falta em uma festa,lembrou de voce por um filme, fez macarronada do jeito que voce gostava, esperou um, dois anos, guardou um segredo e tem memoria curta para suas cagadas - com gente assim quem precisa conviver em sociedade ?

Trovao e Nanci, valeu por serem meus amigos e principalmente; por nao me darem tres tapinhas nas costas - NUNCA.

O carro parou. E agora ?

Apos duas semanas no Brasil, comi tudo que queria (estava uns 5kgs mais gordo) bebi tudo que queria (estava com uns 10 anos a menos de vida) e falei com quase todas as pessoas que importavam apesar de ter deixado o pais sem ver um monte de gente que amo de verdade.
Na primeira semana, meus amigos pararam suas vidas para me mostrar os arredores, jogar truco, ir a lugares suspeitos e durante essa semana vi meus pais tanto quanto nos dois ultimos anos- nada - me senti verdadeiramente culpado, mas nao poderia falar nao ate porque, sabia que apos eles retornarem as suas rotinas, eu nao teria mais toda a atencao que estavam despendendo.
Depois de passar um ano em uma cidade de nove mil habitantes, tudo que se quer eh estar numa cidade com 20 milhoes de pessoas, sentia falta do barulho, da correria, das lojas, dos drinks em lugares aonde iria fingindo ser uma pessoa que nao sou, para impressionar pessoas das quais nao gosto e conheco - isso e Sampa - mas para se estar em Sao Paulo, se faz necessario um carro, e nesse caso, eu nao tinha. Comecei a me irritar por me sentir preso novamente em um lugar pequeno e como ja disse, o tempo era uma comodidade que nao tinha e nao poderia desperdicar a fio andando feito um maluco a pe por Ibiuna, as pessoas depois de alguns dias comecaram a me olhar como se fosse maluco, zanzando pela cidade a pe sem destino e na verdade, eu estava realmente ao limite da sanidade.
Resolvi alugar um carro e me mandar antes que enlouquecesse minha familia, a mim mesmo e aos meus amigos - por tres dias inteiros visitei, bebi, comi e nao precisei fingir ser um paulistano, parece que isso fica nato nas pessoas apos se passar alguns anos la - sabia de tudo, aonde ir, o que pedir, quem ver e o que fazer. Eh como andar de bicicleta, menos o incomodo do assento.
A pungencia de Sao Paulo quase me fez esquecer da hora de ir para casa enquanto tomava meu Cosmopolitan e assistia as pessoas bem-arrumadas, cheirosas e pretensiosas circular pelo bar fingindo estarem nadando em dinheiro enquanto carregam as dividas e as contas em um abarrotado porta-luvas de um carrao pago a prestacao.
A certo ponto alguem perguntou como funcionava o meu simples e despretencioso celular "eu ponho um numero por estas teclinhas, falo por aqui e escuto por aqui, alem de poder escrever nessas mesmas teclinhas !!" sem foto ? Nao tem GPS ? Aparentemente, podemos esquecer o relogio e os sapatos caros - o acessorio mais quente hoje em dia no Brasil (e no mundo) eh o celular : quanto menor ele for e mais coisas inuteis ele fizer, melhor, alem do fato de custar o supermercado de uma familia carente por um ano. Que saudades do tempo em que um par de Levi's era uma das coisas mais caras a se carregar no corpo. Comprei o par de tenis mais feio do mundo (segundo Trovao e Leo), comprei muito pouca coisa por achar tudo muito caro (na verdade, meus pais me disseram para guardar meu dinheiro, entao tinha parcimonia com o dinheiro deles) e ao terceiro dia, enjoei de Sao Paulo.

Meus amigos estao com carros legais, escritorios, filhos e tudo isso me deu uma certa confianca no Brasil, sim a vida pareceu possivel novamente e quem sabe em tao pouco tempo eu nao tente voltar ?
Voltar ao Brasil definitivamente parece agora, mais complicado do que vir para a Nova Zelandia. Estou como os caes que perseguem o carro pela rua,e depois que o carro para, o que fazer com ele ?

Ja estava no Brasil, ja havia feito o que queria, entao o que se fazer agora que tudo parece estar feito ?
Praia, esta eh a solucao, mas soh apos o Natal.

Mais uma volta... ...ao mundo.

Sei mais uma vez que, decepcionei muita gente ao nao atualizar o Blog, mas estava ocupado tentando me adaptar a minha vida mais uma vez, mas comecemos do comeco;
Apos dissimular por tres meses minha volta ao Brasil, ca estava eu pronto para duas semanas de expectativas e planos a minha triunfante (?) volta a terra Brazilis com tapete vermelho e tudo mais - tudo comecou em uma tarde de Outubro aonde o Sol brilhava e la estava mais uma vez eu, trabalhando durante um dia de folga - pensei comigo "foda-se isso" e nesse espirito, entrei em uma agencia de viagens com todas as minhas economias nas maos e pedi, please, uma passagem para o Brasil.
As semanas se arrastaram ate o dia 21 de Novembro, a data e a terra prometida me esperavam, mas as mudancas nao paravam nunca (assim como nao param MESMO) e meus flatmates Simone e Edu resolveram que teriam uma vida melhor em Auckland, e estariam se mudando na semana anterior a de minha viagem; alem de tudo, estaria desabrigado na minha volta. A semana foi de puro desespero : caixas por todos os lados, a Sky TV se foi, a casa agora vazia clamava por minha alma.
Alguns amigos apareceram, talvez por pena, talvez por pura e leal fidelidade mas as coisas ainda estavam conturbadas em minha cabeca : tantas pessoas que adoraria ver e tantas que desejaria, na mesma intensidade, nunca mais por os olhos e se possivel, por favor nao pise em meus Helmutt Lang please...
Malas arrumadas, caixas lacradas e duas malas imensas esperavam na porta de minha casa e minha bagagem emocional pesava mais que os 64kgs. permitidos pela Aerolineas, o que encontraria na volta ? Um bando de jovens senhores usando camisas polo e calcas caqui enquanto bebem para ignorar as criancas correndo por toda a casa ? Simplesmente minha vida parecia nao se encaixar nas das pessoas que realmente "fizeram alguma coisa de suas vidas" ao inves de vagar por algum pais longinguo atras de nao-sei-o-que procurando apenas levar uma vida menos monotona (e o que poderia ser mais monotono do que passar 12 horas numa cozinha ?) e que ao inves de um relacionamento, possui 12 pares de sapatos diferentes ? De repente nos, pessoas sozinhas nao merecemos nenhum credito ? Neurose era pouco.
Dia chego, passagens nas maos, conferencia de passaporte a cada cinco minutos ate o aeroporto e uma breve despedida de UM amigo, uma senhora honraria em agradecimento a dois anos de comprometimento total a este pais. Entrei no voo de Queenstown a Auckland me sentindo meio zonzo ainda por deixar minha nova vida para tras e reencontrar a velha, mesmos lugares, mesmas pessoas e antigos problemas dos quais nao tinha ideia se ainda existiam - Quando foi que eu cresci tanto a ponto de me importar ?
Auckland, mais uma parte da historia voltava a me assombrar apesar do ensolarado dia que fazia (incomun ao lugar) mas agora estava a um passo mais proximo do que tanto ansiava, sentia tudo ficando para tras, o sofrimento, o trabalho e ate a diversao e percebi o quanto dois anos podem fazer a voce : te tranformar numa aberracao distante e neurotica.
Ao entrar pelo corredor ate a plataforma do aviao, segurava minhas imensas bagagens de mao (que inveja das pessoas que carregavam apenas uma 007 nas maos, Louis Vuitton, com uma troca de roupas dentro) e amaldicoava as cias.aereas que alem de te cobrarem os tubos, limitam a quantidade de volumes a serem despachados e a primeira classe ? nos, comuns mortais somos apenas permitidos a ter uma leve visao do paraiso quando entramos no aviao; telas LCD individuais, poltronas altamente reclinaveis e espacosas e tres opcoes de menu, afinal, porque esses bastardos nao compram a merda de um jatinho de uma vez por todas e deixam os pobres mortais como eu conseguirem uma oferta barata de primeira classe ?
Corredor do meio, exatamente poltrona F, avioes sao como uma loteria ou um encontro as cegas, sabe-se la o que voce vai encontrar ao seu lado. Um senhor grisalho e imensamente gordo sentou-se de um lado (e brasileiro) e agora ? Enterrei minha cara em meu livro e esperei pelo vizinho do lado direito (que revelou-se ser tao corpulento quanto o do lado esquerdo) e acabei em uma mini-poltrona e espremido pelo menos uns 15 cm de cada lado. Amaldicoei mais uma vez as Cias.Aereas por nao realizarem uma inspecao corporea antes de organizar os assentos, igualzinho fazem com nossas malas.
Apesar do incomodo, controlei os impulsos e conversei com todos ao redor (engenheiros de Piracicaba voltando de uma feira agricola em Sidney) mostraram-se simpaticos, cultos e portadores dos odores mais nauseantes que ja conheci. Em troco, tive um leve ataque de gases durante a viagem que soou mais como justica divina do que apenas espasmos comuns a qualquer pessoa que passou a noite enchendo a cara de cerveja.
Buenos Aires, dezesseis horas depois e mais quatro de cha-de-cadeira a frente, achei um unico aeroporto com uma area de fumantes no mundo (a Franca tambem deve ter, mas nao sei ainda) observei com calmas as pessoas circulando, em grupos e mostrando fotos de suas viagens e tentando ligar para casa avisando que o aviao nao caiu e que a feijoada ainda estava em pe, me arrependi fatalmente de tentar chegar de surpresa em casa, tirando todo o aspecto familiar de uma volta para casa. Aeroporto de Cumbica, check out, eu por meia hora na esteira amaldicoando a mala preta (sabiam que 90% dos viajantes tem uma mala preta ?) e a demora para descarregarem as malas da merda do aviao, meu Deus o Trovao esta me esperando sozinho no aeroporto... ...mais de trinta minutos, eu e minhas malas deixamos a alfandega (da qual passei ileso) e pude ver a cara amiga e sorridente do Trovao na saida, nada podeer melhor depois de dois anos de nao-familiaridade. Entramos no carro e ganhei uma caixa gelada de Brahmas, a vida comecava a fazer sentido novamente - a pressao da cabine ainda fazendo efeito e misturados ao alcool deixam qualquer Valium 10 no chinelo, especialmente associados a 20 e poucas horas sem dormir espremido entre dois obesos fedorentos.

Ibiuna pareceu surreal a chegada, aquela cidade escura e vazia demonstrava o quanto um lugar pode ser estatico ao correr dos anos : tudo estava la, a prefeitura, os postes, o bar do Julio (gracas) e a casa de minha irma, aonde o carro de meus pais estava estacionado.
A campainha toca em um Domingo as dez da manha, e na porta voce ve uma pessoa que NUNCA toca sua campainha em dia algum, o que voce faz ? Abre a porta e encontra um babaca sumido ha dois anos correndo para dentro de sua casa (meu cunhado vai morrer com essa) gritinhos, olhos esbugalhados e voce finalmente esta de volta a casa, seus sonhos viraram realidade enfim. Entrar em minha velha casa (de repente nao parecia mais MINHA) foi estranho, mas tudo estava no mesmo lugar que deixara, as fotos, a sala, meus CDs, tudo parece ter sido montado como um templo a alguem que se foi para sempre, uma morbida homenagem digamos assim, especialemnte quando se espera que a vida siga em sua casa do mesmo jeito que a sua seguiu. Esperava mudancas mais drasticas.
Como meu irmao e a namorada estavam na sala, dormi no quanto de minha irma (ex-quarto) apesar de nao querer exatamente dormir pela excitacao de estar de volta, toda a casa em silencio e eu sem nem uma TV, uma distracao, apenas aquele quarto que apesar de estar a minha espera, nao era meu.
Senti uma das maiores solidoes do mundo, e adormeci.

Sabia que ainda tinha muito por vir, e tempo seria uma commoditie cara, muito cara, nao teria muito tempo para me acostumar. Mas o cheiro da casa, dos lencois, da familiaridade nem o tempo apaga.
E bom estar de volta.

terça-feira, outubro 12, 2004

Mais um dia no Paraiso

Hoje, tive que resolver problemas de imigracao.
Quando eh que foi que alguem chegou em um lugar e pensou "essa terra eh minha, e so entra quem eu permitir ?" pois ainda nao consigo aceitar que lugares como a Australia barram a entrada de brasileiros por pura e simples arbitrariedade - afinal, o mundo nao eh de todos nos ? Quem eh que declarou que aquele pedaco de terra e de alguem e vc nao pode pisar ?
Diplomacia, ao meu ver, deveria ser um conceito muito mais amplo do que rever questoes comerciais e evitar guerras, diplomacia seria permitir que cidadaos do mundo tivessem acesso a ele e nada mais, acesso ao mundo, nos mortais que vivemos aparentemente uma vez so, so temos o privilegio de conhecer nosso mundo se formos ricos ou muito espertos...
O mundo eh muito pequeno para se restringir ao pais em que voce nasceu, talvez todos devessem conhecer diferentes povos, nacoes e costumes para aprender a tal da humanidade : em alguns paises pode-se tudo e aceita-se todos os tipos de gente e em outros nao pode-se nada e certos comportamentos sao tidos como ilegais/imorais/engordativos e ainda assim, conhecendo melhor o que se passou e passa nestes lugares voce entenderia o porque das pessoas serem tao diferentes apesar de estarem vivendo no mesmo mundo e serem humanos como todos nos, doa a quem doer.
Mas voltando ao assunto, peguei um formulario que pediu mais dois, mais documentos mais provas de que nunca fui julgado, preso, indiciado, infectado, pecaminoso e que minha mae se orgulharia de mim; sou a perfeicao em pessoa e ai de quem duvidar disso (bem, a imigracao duvida) e ai de mim se confessar que ja tive o absurdo pensamento de ficar aqui - ai o bicho pega mesmo.
Apos pegar e pesquisar todos os formularios fui trabalhar naquela monotonia de sempre, pus meu uniforme manchado, limpei a cozinha toda e fiquei horas e horas sem fazer nada devido a baixa temporada em Queenstown que nos assola e devasta (principalmente financeiramente).
Apos o trabalho, fui ao PUB que frequento e descobri que Camilla (a galinha de borracha pendurada atras do balcao) havia sido sequestrada e um bilhete feito de recortes de jornal pedindo o resgate ocupava o lugar tradicional de Camilla. O staff estava em polvorosa em busca de Camilla, e fotos dela estavam sendo impressas nas caixas de leite com os dizeres "Voce viu esta Galinha ?" na tentativa desesperada de encontra-la com vida; apos algumas cervejas percebi que as pessoas estavam seriamente discutindo sobre o sequestro, provaveis suspeitos, circunstancias e rastros inutilmente : os sequestradores sao profissionais e nao deixaram vestigios.
Apos uns vinte minutos, perguntei se estavamos seriamente discutindo o sequestro de uma galinha de borracha e recebi olhares reprovadores dos quais, rebati com um "entao... ...sera que vao mandar uma espora dentro de uma caixinha ?" para alivio de meus colegas de bar.
As coisas aqui em casa estao meio surreais, na verdade me sinto em meio a uma novela do Manoel Carlos (se eh que eh o nome dele) de tanta banalidade e chatice, contas de luz a serem contestadas, lavanderia em constante funcionamento e faxinas incriveis tomam as minhas manhas. A vida anda bem enfadonha por aqui.
Na verdade, estou apenas cansado, e nem sei o que estou escrevendo e para que.

Talvez para ter a sensacao de estar contando para alguem.
Alguem que se importe, bem claro.
 
Zilek : Immobilier Vervins
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