segunda-feira, março 20, 2006

Providências 2

Liguei para a empresa que vai transportar meu computador para o Brasil -
"Oi, fiz a cotação e o booking online mas ainda quero saber se o volume é individual ou cumulativo, ou mais claro, rola um desconto se eu mandar mais tralha junto com o micro ??"
"Claro que sim, se você mandar mais coisas junto, tem desconto sim..."
Já fiquei todo animado com a atendente.
"Então é o seguinte, uma mala pequena com mais ou menos 20kgs, quanto rola ?"
"deixa eu ver, quantos quilos tem o micro ?"
" 12 kgs"
"Calculou o volume pelo website ?"
"Calculei, 0.108 cm cubicos"
"Isso dá 300,00 dólares"
"Tá isso eu já sabia, e uma mala da mesma dimensão"
"Aí vai pra... ....550 dólares".
"Esse é o grande desconto ? Acho que sai mais barato pagar excesso"
"O que é que vai dentro dessa mala ??"
Quis responder 10 kgs de cocaína pura, 2kgs de ecstasy e o resto em fluído de isqueiro e armas de fogo. Achei melhor não.
"Livros de receitas, algumas roupas, Cds e facas de cozinha"
"Enrola suas roupas no micro"
"Como você espera que eu enrole 20kgs de roupa em um micro ?? Nem sei se ele usa meu número aliás..."
"uhnnn.. e o que você tem nas outras malas de viagem ??"
Desta vez, quis responder duas AK 47, sete granadas e quatro manuais da Al Quaeda.
"Merdas, coisas, roupas, cuecas, sapatos, meias..."
"ahnnn tá."
"E então, dá jogo ??"
"Não".

Porque perguntar todas essas coisas se ela não pode resolver meu problema ??

Seria mais fácil construir uma jangada e atravessar o mar com minhas tralhas. Merda de vida.

domingo, março 19, 2006

Enfim, providências.

Como agora água bateu nas nádegas (sorry, não posso escrever bunda nesse blog) hoje me dei conta que preciso escolher o que vai e o que fica por aqui, não que eu tenha um patrimônio extenso mas o que se acumula de tralha em três anos não é brincadeira... ...meus amados livros vão ter que ficar (menos os de receitas que não vai dar pra repor depois) meu material de pintura e telas também vão ter que fazer alguém feliz (é de graça poxa...) e meus tão amados edredons (um de pena de ganso) são umas das coisas das quais vou chorar todos os dias por não poder carregar.
Tente resumir uma vida inteira à 64 kgs e veja como vc se sai - eu estou sendo uma tragédia.
Tudo que havia para ser vendido já era, ou pelo menos está para entrega (minha TV, DVD e móvel pelo menos e a moto já se fué) minhas facas definitivamente vão todas (comprei mais algumas coisas e reposições que posso precisar no futuro) jaquetas, blusas e moletons de montes vão ficar mesmo sendo amados e jamais esquecidos, sapatos velhos mas amados ficarão orfãos e até a máquininha de cortar cabelos não funciona no Brasil (plug e voltagens diferentes) então cesta sessão pra ela.
O micro eu vou enviar por correio, mas a voltagem também é diferente (não deve ser complicado para mudar) mas dane-se, eu só preciso dos componentes dele para traze-lo de volta à vida.
O resto é resto.

O resto só eu voltando, de mala e cuia.

Enfim - a confirmação...

Recebi a luz amigos...
Ela veio na forma de dois pedaços de papel - O recibo da STA Travel e o itinerário.
Saio daqui à uma da tarde de Sexta-Feira, 07 de Abril e chego no Brasil sexta-feira santa dia 14 à meio-dia e meio. A razão pela demora ?? O avião não vai congelar no no espaço como alguns imaginaram e nem ficaremos perdidos por uma semana no triângulo da bermudas pelo benefício geral da sociedade brasileira.
É que o avião faz uma parada em Fidji (Papeete, não era só nome de chinelo de patricinha), Polinésia Francesa, e resolvi dar uma esticadinha de uma semana só pra ver o que acontece por aqueles lados.
Chegar lá e pedir de cara qualquer drink que tenha aqueles canudos tortos e coloridos e sentar na areia da praia debaixo de um calor infernal.
Vida ruim essa hein - acho bom eu não acostumar.
Depois me preparar para cair na rotina. Deus me ajude.
Hoje roubaram meu amolador de facas alemão no trabalho - fiquei puto da cara, vai custar umas NZ$50 pilas pra comprar um novo se eu achar.
Nem tudo é perfeito afinal.

Aliás...

Mr Rogério Ragusa,
Nada me faz mais feliz do que receber suas mensagens ultimamente... ...a cerveja já está gelando é bem estimulante, mas que em três anos você tem estado por perto -

- Não tem preço. Para todas as outras coisas, existe Mastercard.

Que não compra amizade verdadeira.

sábado, março 18, 2006

Recomeçar...

É dificil um recomeço, especialmente para quem já teve muitos.
Como disse um amigo, sabe quando você passa meses e meses arrumando aquela prateleira, pondo todos os bibelôs, porta-retratos, Cds, e de repente você acha que não está legal e enfia uma bica e desmonta tudo ??
É exatamente assim que eu me sinto - derrubando uma prateleira que eu construi durante três anos da minha vida.
Quando enfim consegui quase tudo que eu queria, emprego estável, casa legal, minhas coisas espalhadas em volta de mim, segurança, eu resolvo que não estou contente e mando tudo á merda (desculpem meu francês) e lá vou eu arriscar tudo de novo por uma emoção barata... ...talvez nem tão barata, mas com certeza eu devo gostar de caos.
As razões não perguntem, eu mesmo não saberia explicar, estava há semanas de ser promovido no emprego, há meses de conseguir minha residência, a centímetros de comprar meu carro e de repente, sem aviso, eu decidi que tudo isso não valia a pena.
Vai entender...
Talvez eu tenha mesmo uma vocação para o Caos, talvez eu tenha percebido que a vida não é bem assim, talvez eu tenha apenas ensandecido por achar que novas perspectivas sejam melhores que perspectivas usadas mas... ...de que vale tudo isso se não tem ninguém para dividir o momento ??
No começo, confesso que rolou aquela básica pergunta de que estaria fazendo, enlouqueci talvez, talvez seja só uma fase e eu caia na real. Mas o bom estado de espírito em que caí me dizem o contrário - talvez eu esteja MUITO errado (é assim que os grandes erros acontecem também, saibam) mas há dois meses eu estava em contentamento para logo depois cair em miséria... ...não a miséria temporária, mas veio aquela sensação de clarividência e de repente tudo que estava complicado ficou fácil como 2+2 - eu preciso sair daqui.
Achei que fosse apenas uma situação complicada que tive, mas após passada, ainda quis me mandar e pronto.
O gozado é que, eu sei que tudo vai ser difícil, complicado, lidar novamente com estar com a família (complicado para mim, que acostumei a não dar satisfação de onde vou e o que faço - quando se é sozinho não pensa-se nisso) procura por emprego, casa, carro, Tv e dvd, um canto para pôr seus porta-retratos... ...não vai ser fácil.
Mas pensando bem, não vai ser fácil ficar aqui se perguntando o que seria da vida se eu não tivesse voltado, se não tivesse arriscado novamente.
São tantos planos e conjurações que tenho na minha cabecinha que fica difícil explicar - parece que um novo leque se abriu e que não há nada que eu não seja capaz de fazer.

Talvez eu apenas percebi que não se pode passar a vida sozinho - e sozinho é exatamente o lugar em que eu estou - não quero mais isso.

Quero sim, a minha casa cheia de amigos - se Maomé não vai à montanha...

terça-feira, março 14, 2006

Adeus galopeeeeeeeeiraaaaa...

Hoje fui vender minha já empoeirada moto, após quatro meses (ou mais) parada, a desgraçada quase que para me afrontar pegou na primeira só para despedaçar meu coração - que dó, que pena da minha companheira mas a vida é assim mesmo, chega-se a hora de ir e seguimos em frente. Cheguei na concessionária da qual comprei ela em primeiro lugar, o cara olhou, olhou, e perguntou quanto eu queria nela e já mandei NZ$ 1000,00 de cara para ver o que acontecia, ele mandou setecentos e nem desconfiou que estava vazando óleo, enfim, peguei a oferta e me mandei o mais rápido possível com o cheque na mão.
Todas as lembranças das viagens, acampamentos, tudo literalmente vieram à tona quando eu dei tchau pra minha mulinha.

Depois eu mando uma foto pra eles de nós na ilha Sul, a 5000 kms de Auckland.

sábado, março 11, 2006

Choque.

Cliquem no titulo acima e vejam os numeros (principalmente no final, o aumento de 1999-2004), e um choque...
Se nao abrir ai em cima, cole e copie esse endereco http://www.seade.gov.br/produtos/spdemog/nov2005/Sorocaba/Ibiuna.pdf

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Carnaval... é tudo Globeleza !!!

Caramba, é carnaval no Brasil e eu aqui na crise da meia-idade avançada !!!
Porque é o seguinte: eu não sou o maior fã de carnaval que existiu, até gostava por ficar cinco dias longe do trabalho e por poder beber sem ter uma desculpa social pra isso - mas de resto é tudo Panis et Circus, brasileiro esquece da vida no carnaval e nem lembra que CPI existe, nesse momento tá tudo parado no Brasil porque somos exóticos (já cansei de ser chamado assim por aqui também, brasileiro é exótico, se fode e ri ainda por cima), claro que gosto de ver o povo feliz esquecendo das vidinhas que levam todo dia, na verdade nós até precisamos disso para fazer a vida ter sentido.
Mas, pode entrar nos sites de notícias e ver se o Lula, CPI estão nas news, nada crianças, todos os pecados são perdoados no carnaval e uma agenda no governo deve estar programada para o carnaval : vamos aproveitar o tempo fora da mídia e voltar com o quê ???
Abre o olho moçada !!!
E usem camisinha please...
Pecado e carnaval. Até dá saudades...

PS:- Entrem em www.muiedomeidomato.blogspot.com ou peguem o link do banheiro feminino do uol, virei fã há um ano atrás e viciei...

sábado, fevereiro 25, 2006

Moral da história I

Hoje de manhã, estava com Oscar tomando um café durante nosso break.
Oscar é o maníaco da cozinha, tenho vindo ajuda-lo as duas da matina todos os dias com convenções ( a praia dele). Quando comecei na Skycity ele infernizou minha vida e eu simplesmente odiava o cara.
O tempo passou, ele amoleceu e viu que não estou lá para brincadeira - me mantém até mais tarde trabalhando para ter companhia.

Ao ouvir que estou sem flatmates, disse que quem sabe quando a filha dele voltar de não sei aonde, faça a cabeça dela para morar comigo.

Tentando me arrumar com a filha dele - esse homem já tem um lugar no meu coração.

The sweetest thing.

A casa vazia.

Acordei, o despertador berrava alucinadamente e tentei desligar às pressas sem me lembrar que estava sozinho.
Olhei em volta, tudo escuro, aquela escuridão que te faz cerrar os olhos igualzinho quando você está embaixo do Sol, a escuridão revela o que o dia escondeu ofuscantemente, é noite fechada e estou tateando meu caminho até o banheiro e tudo está ainda confuso em minha cabeça, não sei o que se passa e menos ainda por que estou de pé à uma da manhã. Leve contrito cerebral, o motivo é de que eu tenho que trabalhar pois o setor de convenções está pela hora da morte e precisam de heróis como eu (odeio ser herói - eles morrem primeiro, o cemitério está cheio deles) e a casa vazia ainda não entendi direito, preciso de mais alguns segundos.
Só as coisas que alguém não quis estão aqui, cabelos, traços de vida agora parecem fazer parte de uma mórbida,orquestrada e desorientante cena.
Vesti o que encontrei à frente (pelo menos eu passei a roupa ontem) e agora sei o porquê e a razão de estar sozinho, bem, sei não, mas imagino várias possibilidades que não satisfazem e penso também em ligar para o trabalho e dizer que estou doente - mas essa é uma daquelas coisas que penso quase todos os dias e não faço - saio ás pressas, corro enquanto ouço meu MP3 player à toda altura para silenciar meus pensamentos e em parte funciona mas tem essa partezinha do meu cérebro que ainda teima em pensar em coisas que eu evito. O dia seguiu com muito trabalho, e eu ainda pensava na casa vazia, nada se movia ali, talvez as persianas ao vento mas de resto tudo é inanimado, os móveis, as portas e janelas, os armários... ...tudo está a espera de alguém para colocar movimento e cor e eu não estou lá - sinto pena de minha casa até mas tenho que trabalhar.
Ao final do turno estou esgotado, moralmente e fisicamente, me arrasto até a rua e peço um café em copo descartável enquanto ando (MP3 à toda) não faço idéia do que vou encontrar em casa, talvez a casa esteja puta da vida comigo e tenha feito uma reviravolta, minhas coisas estejam espalhadas por todos os lados e a porta da frente não abra, talvez esteja em chamas, talvez o silêncio seja ensurdecedor.
Chego no portão do prédio (a casa não é uma casa, é um apartamento) e fico com receio de entrar, não sei mais o que vou encontrar, subo o elevador com receio e esperança de que alguma coisa tenha se movido ali mas quando abro a porta percebo que a casa está do jeito que deixei - escura, imóvel, silenciosa.
Entro com um suspiro e um grito : Querida, cheguei !!!! Logo após falo comigo mesmo "esqueci que não sou casado".
Tudo está do jeito que deixei, escuro até, abro as persianas e janelas e deixo o vento passar e percebo que o movimento e as cores voltaram em um flash - ela está aqui esperando por mim, aconchegante, viva e chutando.
Limpo os restos de vida deixados para trás, para não me nivelar ao que está nos cestos de lixo principalmente, faço uma rápida limpeza e me atenho em fazer minhas coisas de praxe : escrever, comer, lavar a louça, etc...
As coisas se encaixam novamente, estou sozinho mas em boa companhia - minhas coisas estão espalhadas à minha volta, retratos, roupas, livros, me lembram que tem uma vida ali sim. Olho o celular (que nem lembrei ou não quis pegar de manhã) e tem uma mensagem de um amigo de Queenstown, vindo para cá - que bom ter uma visita.
É domingo e deve ter alguma coisa legal passando na TV, vou fazer pipoca e relaxar...
Os problemas eu resolvo amanhã, de alma nova e descansado, quando é que foi a última vez que eu tive tempo para não me preocupar com nada ?
Estou agora exorcizando alguns demônios, como sempre, mas estou fazendo isso na segurança de meu lar - e é isso que eu preciso.
Eu preciso de um lar, não uma casa, decidi que nada pode me atingir aqui, na segurança de meu LAR.

Amanhã eu ligo para a imobiliária para avisar que estou me mudando - minha casa é qualquer uma, mas meu lar eu pretendo construir - ainda que sozinho.

Where everybody knows your name...


Eu ouvi uma vez que quanto mais nós envelhecemos, mais precisamos das pessoas que conhecemos na juventude - não poderia concordar mais.
Seus amigos sabem tudo sobre você, seus males, seus prós e contras, suas manias, seus ódios de estimação, as coisas que você ama, o que se passa em sua cabeça quando você está com aquele certo olhar de olhos semi-cerrados em direção ao nada, quando você diz não quando tudo que queria dizer é sim. Eles sabem, acredite.
Envelhecer junto deles é delicioso, saber quem casou, quem separou (e levar para a farra imediatamente), quem teve filhos ,quem ainda te liga para saber as novas e contar coisas estúpidas como o tombo que levou em uma escadaria sabendo que você vai se deliciar com a imagem (amigo também sacanea, e por conhecer você tão bem faz com precisão e vice-versa), entrar em sua casa e abrir a geladeira... ...tão bom isso, e faz uma falta daquelas quando eles não aparecem.
Também têm um talento nato em relevar, quando se é muito amigo, ninguém é perfeito o tempo todo e ninguém é santo - todos temos nossos próprios demônios ali, esperando a hora de sair em disparada ao encontro de, bem... ...quem estiver à frente.
E nessas horas, claro que não tem madre Teresa que aguente, mas quando tudo volta ao normal e você arrependido tenta agradar, e consegue, que alívio, que coisa boa ter essas pessoas em torno de você mesmo que você tenha que gastar um salário mínimo em cerveja, vale a pena o investimento que tem esses retornos garantidos.
Meu projeto para a velhice é uma casa cheia de amigos, indo e vindo, parando suas vidas para me dar um pouco de atenção nem que por minutos, trazendo uma coisinha para beliscar ou demandando comida quando chegam de mãos abanando, não importa.
Mesmo de longe, mantenha-os perto.

Digamos que eu tenha pensado muito em vocês.

PS: Pats, você me lembrou o que é ter amigos. Daqueles bons e dos velhos tempos.

terça-feira, fevereiro 21, 2006


pratinha...

Visita da Pats.





Visita da Pats, nos com os cabelos prata - pura falta do que fazer.

Skycity




Caroline e Maria, Oscar mostrando o tamanho da faca dele e William, um dos aprendizes.

As vantagens de se morar com um chef ?




Frango marinado em suco de laranja, alho e mostarda em grao, grelhado e coberto no mesmo molho reduzido. Tenho um que pra comida rustica.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Aprendizes porque não sabezes.

Chego na cozinha as quatro da matina e o merdinha já está lá - ouvidos de pé e olhos estalados para me perguntar alguma coisa.
"Chef ?? A gente tem queijo brie ??"
-E eu lá sei, tenho cara de geladeira ? Entra lá e vê você mesmo !!
Continuo tentando saber aonde enfiaram meus apetrechos durante a noite, amaldiçoando os FDPs. Estou preparando minha área de trabalho e vêm o pentelho de novo :
-Chef ? Será que esse patê tá estragado ?
-Prova para saber.
-Eeeeuuu ? e se eu passar mal ?
-Antes você do que eu, aliás se você passar mal e sumir ninguém vai saber a diferença, enfia essa merda na boca e me deixa em paz.
As vezes eu lembro que fui educado nas mais finas estrebarias da Europa.
-Chef ?
-Que foi agora ???
-Afia essa faca pra mim ?
-Criatura, você me paga cem pilas numa faca pra depois não saber afiar ? Além do que, eu tenho que afiar as suas facas todos os dias, apenas tente não foder com o fio das suas facas desse jeito, era para durar pelo menos um dia inteiro afiada.
Controlo o surto e afio a faca encarando assustadoramente a jugular dele, ele sai todo contente com a bosta da faca. Enfim, comecei a trabalhar, tomara que agora ele se dê por satisfeito.
-Chef ??
-Pelamordedeus o quê ??
-Como é que se faz esse negócio aqui... ...Ju, Juzi,... Jual...
-JUS !! É Jus criatura, caldo de carne com vinho tinto !! Você não tá lendo seu livro não ??? Pra que você quer saber agora ?
-É que tem o teste do aprendizado e tenho que fazer um macarrão á bolognesa.
-Não precisa de jus, usa a própria carne que você vai fritar, põe vinho e deixa reduzir e depois tempera bem antes de juntar ao molho de tomate. Satisfeito agora ?
-Valeu.

Aonde eu estava ? Ah sim, preciso anotar as compras que demora dois dias para as coisas chegarem do fornecedor....
-Chef ??
-O QUÊ É AGORA,Esqueceu como se segura a faca, cortou o dedo de novo, quer QUE EU TE FALE A COR DO CÉU EM AUCKLAND ???
-Tá servido desse chocolate que eu ganhei ? É suíço...
Sem graça, disfarçando e com tom de voz diminuído.
-Não, valeu.

Porque eles tem que ser tão indefesos as vezes ??
Tenho muita paciência, mas assim fica difícil.
Tento pensar que eu já tive dezesseis - mas não era tão estúpido.

sábado, fevereiro 11, 2006

Pats, oh my pats...

Hoje recebi a visita da pats, a primeira visita oficial do Brasil - estamos aqui falando de tudo, todos, da vida e enchendo a cara.
Resolvemos ir comprar um litro de vodka e já estou intoxicado pelo pique da Pats, estamos nos comunicando por telepatia - Não sabemos o que fazer um do outro e parece que não vamos fazer nada melhor.
Mas nada como uma familiaridade, um rosto conhecido, para me fazer sentir vivo.
Meu Deus, aonde tenho passado a vida sem essa gente, meus amigos ?
Bem, ainda não tenho o roteiro, e na verdade estamos mais afins de ficar sem fazer nada - talvez um passeiozinho.
Não quero ter que dividir ela com nenhuma atração daqui - nem a pau.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Jake.


Todo vilão possui o seu parceiro - seu gêmeo malévolo, seu comparsa, seu co-autor, aquele cara que termina sua frases e com um simples olhar sabe que algo (ruim) esta prester a acontecer, que cobre as suas e que espera o mesmo de você. O meu é o Jake.
Jake é o cara que trabalhava na mesma seção que eu só que há muito mais tempo, o cara me deu todas as dicas que eu precisava, eu salvei o couro dele várias vezes também e nossa amizade é uma relação um tanto estranha para as pessoas de fora de nosso pequeno círculo - Não perdoamos nem mesmo um ao outro, sacanagem pura.
Jake é de Hamilton (três horas de carro de Auckland) nunca deixou o país, nunca deixou a região de Auckland e por isso mesmo recebeu o apelido de "Redneck" (caipira) de mim, come o que é possível durante as horas de trabalho pois nunca tem grana para fazer o supermercado (nem que quisesse) e aliás só entra em um para comprar bebida. O resto do salário é usado para comprar maconha ou qualquer outra merda que caia em suas mãos.
Filho de mãe solteira (o pai é mais ou menos como ele, vive em Auckland mas ele sequer sabe o número do telefone - visto que o pai é um duro ele não vê nenhuma razão para ligar para o cara) e desde os dezesseis anos mora de lugar em lugar com as piores corjas de pessoas possíveis, começou sua carreira criminal bem cedo - com várias passagens pela polícia por delitos menores (pequenos roubos, posse de substãncias ilegais, dirigir bêbado e ser pego duas vezes) acabou por pedir transferência para Auckland onde sua ficha não era conhecida pelos vizinhos.
Longe de ser um cara mau - tem um coração de ouro, dentro de seus limites ele ajuda se você precisar, dinheiro para fiança as três da manhã ? Ele estará lá, uma garrafa de vinho surrupiada da geladeira da cozinha ? Ele trará gelada.
Faz piadas sobre o Brasil, insinua que minha família mora numa Oca, que nos comunicamos através de tambores e que as pessoas so sexo feminino na minha família fazem sexo com caminhoneiros por alguns trocados, acha que a Espanha fica na américa latina, não faz idéia do que se passa no restante do mundo pois não lê, ainda não entende por que estou na NZ quando poderia estar morando de graça no Brasil (e porque trabalho ao invés de explorar minha família).
Há alguns meses atrás, o imbecil enfiou o carro em uma árvore a caminho da casa aonde estava acampado (da família de um amigo, sem pagar aluguel) completamente bêbado, apareceu dois dias depois ao trabalho sem carro e sem condições alguma de continuar morando lá e trabalhar na cidade (não tem ônibus). Ficou algumas semanas na minha casa de graça - foi bem na época que o Clayton e a Lorena chegaram aqui, quando mostrei a casa para eles tive mais ou menos que falar para eles ignorarem o neo-zelandês sentado no sofá tomando cerveja e assistindo TV. Eles foram legais e não ligaram de te-lo aqui por mais uma semana e meia até ele se tocar e se mandar daqui percebendo que a coisa estava meio apertada.
Ele aparece de vez em quando, senta no meu sofá (ele agora mora em um apartamento no centro mas prefere o meu pela TV grande, DVD e internet) sempre carregando uma caixa de cerveja e de vez em quando eu decido alimenta-lo, assistimos TV, conversamos na medida do possível e quando estou cansado e quero dormir eu chuto ele pra fora.
Por alguma estranha razão, eu não ligo de emprestar dinheiro pra ele, que ele acabe com meus cigarros, que ele fique sentado na minha sala enquanto digito para o blog - ele tem apenas 20 anos e ficou meio que um irmão mais novo, como digo, ele é um adorável saco de merda.
Ele agora trabalha em outro departamento da Sky e não nos vemos muito.
E este, é meu prezado amigo, associado e cúmplice.

Adorável vagabundo.

terça-feira, janeiro 31, 2006


My mate Fran, o head-chef do Tatler em Queenstown - BDO 2006


BIG DAY OUT - The White Stripes, Iggy and the Stooges... o melhor show da NZ !!

Meus fatídicos últimos momentos.

Tive uma visão, uma imagem na minha cabeça que criei para definir esse momento hipotético do qual fantasiei por muito tempo;

Estarei atravessando uma rua qualquer, Sol raiando, um dia lindo e memorável de Verão e estarei distraído tentando abrir a embalagem de meu fruttare de uva quando avistarei ele vindo : grande, imponente, a sombra se aproximando de mim tao rapidamente que mal pude perceber sua chegada...
...ele, por qual esperei minha vida inteira (e pensar que neste momento estou usando apenas havaianas pretas, short jeans e camiseta do Pearl Jam)e quem me conhece há muito tempo vai reconhecer na hora de quem estou falando - O Danúbio Azul, o símbolo da mercedes já meio gasto pelo tempo e pelos milhares de insetos esmagados e ressecados, o azul marinho sobre branco inconfundível, o letreiro escrito "ESPECIAL" em cima e aquela placa rebuscada a pincel atômico em cima do painel, grudada a durex diz "Aparecida do Norte" em letras tortas verde-abacate escuro, o chiado dos freios, a cara de pânico do motorista com seus óculos escuros enormes e braços esticados grudados ao volante, a camisa azul desbotada de praxe, as malas dos passageiros caindo dos compartimentos acima dos bancos e as duas senhoras de idade no primeiro banco tapando os olhos e rebuscando o que parece os primeiros acordes de uma prece - tudo isso distorcido pelo calor do asfalto pelando e do radiador.
Estarei lá, como uma rã no meio do asfalto hipnotizada pelo brilho dos faróis de um carro apenas aguardando seus momentos finais e tentando avaliar o que seria tudo aquilo, mas agora é tarde demais.
Tenho consciência de que serão meus últimos momentos e muitas coisas se passam pela minha mente, tudo muito rápido claro, mas os saldos e balanços estão todos ali, uma longa e extensa conta aparecerá e verei o saldo.

Não tenho muitos arrependimentos, tenho mais arrependimento do que não fiz na verdade; falar o que quero a quem quero, comer tudo que foi posto à minha frente sem cerimônia, beber aquela cachaça de aparência sinistra em um pote de azeitona em cima do balcão, ter tomado aquele ecstasy no show, ter traçado aquela gracinha do restaurante, visitar lugares exóticos, ir a lugares que pessoas decentes não entrariam, sacanear um amigo mal-vestido, chutar um pombo do meu caminho, pular de bungy-jump, porque não mandei ele tomar no cú, porque não ... ...disso, não levarei arrependimento algum, está tudo lá documentado em minhas memórias finais junto com meus pequenos orgulhos como nunca ter experimentado muitas substâncias ilegais e nunca usar nada regularmente, recomeçar minha vida constantemente ainda que sem muito sucesso, aprender novas profissões, me mandar do Brasil e saber o que é ser estrangeiro, ferrar impiedosamente alguns que me ferraram, ajudar umas poucas pessoas no caminho.
Tenho meus pecados também - quem não tem ?
Negligenciar família e amigos por algum prazer novo ? Não tive problemas. Fazer alguma coisa estúpida e impensada extremamente bêbado ? E quem pensa numa hora dessas ? Cometer atrocidades contra patrimônio alheio ? Check. Dizer em voz alta que acha a igreja um saco ? Perdi a conta. Amarrar um kitchenhand com silvertape e deixar por uma hora imóvel ? Hilariante. Dar aquele chutinho que falta para aquele amigo bêbado cair da banqueta e se esborrachar no chão ? valeu a pena.

Nesse momento, terei um leve momento de consciência e ouço o paramédico dizer "Esse aí já se fu..." enquanto desgruda o logo da mercedes do meu peito com uma espátula para o outro aplicar os eletrochoques, vejo o céu azulzinho, fecho meus olhos para novamente tentar encontrar o saldo - família, amigos, tudo valeu a pena, talvez eu não tenha sido tão ingrato assim tantas vezes, o quanto não faria por eles ainda ?
Os paramédicos estão se levantando, aquele está pondo o logo no bolso (pra quê meu Deus ?) e se vão.

mas o que me deixa realmente puto :

Não pude chupar a droga do picolé.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Diariamente, versao Auckland.

O despertador toca as tres da manha;
Me levanto com dificuldade, rolei durante e noite e acabei acordando em cima de minhas costelas quebradas que me urgem para que eu tire o peso de cima delas imediatamente, me sinto fraco e cambaleante no caminho até o banheiro onde engulo dois Panadols com agua da pia - me visto sem prestar muita atenção a cores e estampas ou qualquer outro senso fashion (quando chega a hora de me vestir para voltar para casa, parece que me vesti no escuro) e ponho mais quatro comprimidos no bolso por precaução: dois para as costelas e mais um para cada aprendiz de cozinha presente.
No caminho ao trabalho acendo um cigarro e paro no Starmart para comprar um Red Bull e mais cigarros, vou precisar do coice de cafeina rapidamente e viro de uma vez a latinha - comprei sugar-free como se precisasse - minhas roupas estão comecando a sentir largas e percebo que estou perdendo peso novamente, estou a caminho de me tornar uma tripa de nervos e ossos além de precisar me exercitar de outra maneira à de carregar caixas de óleo, preciso de exercicio real além de ser uma boa idéia sair debaixo das lampadas fluorescentes da cozinha de vez em quando e ver o Sol, pode-se ver minhas olheiras a kilômetros de distância.
Chego até a Skycity me arrastando após a longa subida (íngreme) da Victoria St., termino mais um cigarro e entro meio que me arrastando até o Guarda-roupas central, aonde peço meu uniforme depois de esperar em uma fila de dez minutos, as mulheres do lugar já me conhecem por nome e número de lote e vem com um uniforme limpo antes que eu peça.
Ponho meu uniforme e vou para o deck para fumantes degenarados que não merecem estar com as outras pessoas normais, tomo minha xícara de café preto instantâneo e fumo mais um cigarro enquanto penso em qual tortura psicológica irei infringir a um de meus aprendizes que nos deixou na mão ontem, fugiu no Sábado sem fazer a preparacao do Domingo (do qual que teve folga) o pequeno miserável terá de pagar com sangue e lágrimas como todos nós, chefs mortais, tivemos que pagar por nossos erros durante nosso longo caminho ao aprendizado.
Entro na cozinha e os FDPs da noite roubaram meu plástico-filme, minhas toalhas de papel e uns tantos utensílios valiosos em uma cozinha moderna, quero matar a tudo e todos. Oscar, nosso maníaco-depressivo-obssessivo Chef de Partie já está lá e comeca a me dar ordens e gritar antes que eu diga uma só palavra, ignoro e digo "Bom Dia" em um tom nada encorajador. Meu aprendiz chega, imediatamente digo que o pequeno ataque de preguiça dele parou três seções da cozinha e que a próxima vez que acontecesse eu o levarei para dentro da camara fria e farei ele soltar gritinhos e arrevirar os olhinhos; ele fica em silêncio por algum tempo e entra na geladeira de onde voltará segundos depois com um mini-pacote de frango defumado com o adesivo "use primeiro".
"Você pode me explicar isso ?" dizia o pequeno bastardo;
Senti a última gota caindo, minha veia que cruza a testa agora pulsava, a visão se tornando avermelhada:
"Talvez estivéssemos muito ocupados consertando a SUA MERDA para prestar atenção em 100grs. de frango !!! Ou talvez eu simplesmente não quisesse usar a sua merda de frango - enfim, EU NÃO ME REPORTO A VOCÊ SEU PEQUENO MERDA !!!
Foi um latido curto, alto e grosso (gosto da minha voz de manhã, as cordas vocais ainda frias dão um tom mais drástico) e até o Oscar está quieto agora, o aprendiz está exatamente aonde eu quero - de costas, quieto e com a cara enfiada no trabalho.
Motim contido, estou feliz por saber que mesmo não sendo mais o dono da cozinha, ainda não perdi o jeito.
Uma hora depois, o aprendiz toma coragem para me perguntar algo e todas sua frases e perguntas sãao precedidos por "Chef", nada como um bom latido para pôr as coisas em ordem, mas os aprendizes tomam muito o meu tempo perguntando coisas que amanhã irão esquecer e fazer todas as merdas logo em seguida e da mesma maneira, já estou atrasado para suprir os pedidos dos restaurantes e ainda tenho que ficar nessa perguntação toda... ...as caixas com as entregas chegam e ninguém se move para pôr tudo no lugar (visto que os aprendizes vão inevitavelmente pôr as mercadorias nos lugares errados, eu mesmo guardo) e a cada caixa de 20,30 kilos, sinto minhas costelas se movendo aleátoriamente dentro de minha pele, a sensação é mais a de um repuxo do que de dor e mastigo mais dois panadols prevendo a justiça divina.
As oito da manhã, quando os restaurantes vem buscar os pedidos o caos se instaura e ponho meus aprendizes para correr enquanto termino de empacotar, pôr etiquetas e separar os pedidos para cada outlet e só as nove e meia (atrasado) consigo me ver livre de tudo. Vou para o meu break, a masmorra para fumantes, tomar mais dois cafés pretos e tentar pensar no que vou precisar para amanhã e no que precisa ser comprado para amanha. Os comprimidos comecaram a agir e me sinto ligeiramente aliviado.
Volto, limpo minha bancada e saio pela cozinha atrás de minhas facas que aparentemente são de uso público, todos adoram minhas facas Victorinox, novinhas e sempre afiadas para me devolverem sem darem ao trabalho de limpar - mais um latido sobre as facas e volto a trabalhar : ainda preciso limpar e cortar 40 kgs de polvo e tentar cozinhar e embalar a vácuo antes de meio-dia.
Coisas a serem feitas aparecem do nada, e meu estomago é agora uma ácida combinação de Red Bull, café e analgésicos que em nada ajudam a enfrentar o dia, agora tento fazer os aprendizes terminar a preparação para amanhã SEM FALHAS, infelizmente sou responsável por estes merdinhas - tortura e opressão são as palavras-chave para definir o tratamento adequado.
Ás duas da tarde, consigo pôr tudo em ordem e estou pronto para ir embora, algumas pequenas coisas a fazer de última hora então duas e meia estou deixando a cozinha engatinhando até o vestiário onde posso amaldiçoar o meu armário que fica bem no meio do corredor principal e na parte de baixo - tenho que me agachar bem no meio do caminho de todos que estão passando, um saco.
Me visto e vou para o Palace - o nome não lembra em nada o lugar, apostem, mas tem uma cerveja decente a preços razoáveis e um ensolarado deck com mesas e cinzeiros enormes - o buteco pé-sujo aonde o staff se encontra após o turno. Peço uma pilsner, sento com os outros chefs e descemos a lenha na empresa como é de praxe. Acrescento o assunto "morte aos aprendizes" e todos queremos realmente matá-los de vez em quando, quem não sabe...
Vou para casa, como qualquer coisa que esteja facilmente disponível e caio duro no sofá, de onde só levantarei para banheiro/banho/cama e depois para o começo deste texto.
Vou entrar para a academia tão logo minhas costelas sarem, Deus me ajude.

PS:- Decidi escrever um livro, oficialmente, só preciso resolver umas paradas sobre o uso do computador (que em casa tem sido difícil, quando estou acordado, não posso usar) e preciso me sentar em frente a esta merda e só levantar pelo menos duas horas depois obrigatoriamente. Agora... falar sobre o quê, quando se tem uma vida como a minha, fica dificil...

terça-feira, janeiro 24, 2006

Pense leve.

Como profissional da area de nutricao (que maneira gentil de dizer cozinheiro) tenho notado mais e mais o quanto somos uma geracao de pessoas saudaveis; em tempo, a evolucao chegou a nossas mesas.
Dando uma voltinha pelo supermercado me deparei com as mais variadas opcoes de tudo que se pode pensar - meu milho verde eh 100% GM free (genetically engineered - nao transgenico) gracas as manifestacoes dessas pessoas maravilhosas que param o centro da cidade causando milhares de dolares de prejuizo para as empresas locais, todos com os bracos levantados segurando placas e cartazes de madeira (nem sabia que podia !) suas sandalias de couro encardidas e sovacos cabeludos, todos em unissono exigindo medidas da primeira ministra para bloquear a entrada de transgenicos na NZ (e eu que achava que as pessoas que nao tem nada para comer, eh que tinham um problema - antes nao comer nada do que transgenicos certo ?) e quando a passeata termina, poem seus casacos D&G, entram nas suas beemers com bancos de couro e vao para casa, comer sua comidinha macrobiotica preparada pelo cozinheiro salvadorenho.
Enfim, meu milho verde eh isento de agrotoxicos (e eh branco ao inves de amarelo) meu suco de laranja tem calcio (esqueca o leite, eh de origem animal), meu frango eh subnutrido, minha margarina tem zero colesterol e zero sabor, meu chocolate eh 99% isento de gordura e leva horas para derreter na boca, minhas batatas fritas tem 75% menos gordura saturada, minhas laranjas sao do tamanho de limoes e minhas costelas de porco receberam tratamento psicologico antes de serem abatidas.
O que tera acontecido com o bacon, a carne com a gordurinha dourada, um naco de manteiga derretendo na frigideira de ferro, pesada, daquelas que dizem, liberam milhares de toxinas na comida mas que fritam, douram no fogao e direto no forno que eh uma beleza - ah, manteiga, se voce entra em um restaurante, principalmente frances, voce estara comendo kilos e kilos de manteiga (amando) e ate uma coisa insossa (nem tanto se bem preparado) como uma sopa Vichyssoisse tem sua parcela de manteiga para dourar a cebola e o alho-poro quando nao presente tambem no pure de batata usado, viva a manteiga.
Mas tentar explicar isso a uma pessoa acorrentada a uma arvore no centro da cidade impedindo a prefeitura de corta-la (mesmo que a arvore esteja podre e ameace cair em cima de um orfanato lotado) fica meio complicado - eles estao sempre certos e corretos (alias, corretos - politicamente corretos - me da ate brotoejas de ouvir) e cada vez que um entrava em meu restaurante comecava o drama, Ceasar Salad sem queijo, maionese, lardons, e esqueca o ovo no topo. Geralmente nessas, eu gritava "sai um prato de alface e pao" atestando a burrice de alguem assim sair de casa para comer. Mais facil ficar vendo tv roendo uma cenoura crua.
Antigamente as pessoas viviam bem, ate menos, mas bem, comendo comida feita com banha, ingredientes frescos eh claro, mas nao tinha essa de colesterol (quando nao se sabia da existencia, acho que nao existia mesmo), transgenico, natureba - cozinhava-se o que se conseguia agarrar e os europeus eram mestres em aproveitar cada pedacinho de carne, vegetais, frutas criando compotas, linguicas, curados, pates (foie gras, que dadiva), entre muitas outras invencoes que perduram como a mais classica cozinha.

Vegetarianos ? Eles nao aproveitam a vida - comer bem e o que se quer faz parte da vida. Alem do mais, um adesivo colado no para-choques protestando contra a matanca de gado soa bem melhor do que dizer que gosta de bife mal-passado.

quinta-feira, janeiro 19, 2006



Dia de branco na Skycity - odeio esse chapeu, pareco uma forma de pao.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Resolucao de ano novo.


Mais um ano e mais um pacote de resolucoes a se cumprir, sera que dessa vez eu engreno ? Putz, todo ano eh a mesma coisa (com excecao de um, em que eu perdi 12 kgs)mas desta vez os anos a mais, meu mau-humor e pessimismo acumulados durantes meus parcos 30 aninhos vao se interpor entre eu e meus mais intimos desejos ?
Na verdah eh tudo uma questan de perseveranca - perseveranca em nao botar aquele cigarro na boca, muito mais perseveranca em nao abocanhar aquela gordurinha douradinha da picanha e se contentar com a Coca-light enquanto observa seus magrelos amigos entornando litros e litros de cerveja - eh mais um exercicio de privacao, auto-punimento do que forca de vontade mesmo. Mas que eu vi meus peitos caidos nas ultimas fotos da praia, ah isso eu vi.
Quando eu decidi me matricular em uma academia, quebrei as costelas e vai levar seis semanas para curar entao digamos que meu entusiasmo ja foi por terra, ja havia decidido levar uma vida mais saudavel e aqui me encontro: sentado em meu sofa com manchas de batata-frita em minha camiseta escrita Janio 85, assistindo TV e me empanturrando, quando nao estou sentado a frente do micro entornando uma cerveja (mas isso, fazem decadas que nao acontece, pegar leve no alcool foi uma das promessas inclusas) me dar um upgrade na carreira, que foi mais uma das resolucoes comecou com uma semana de licenca medica.
Todo ano eu decido me tornar uma pessoa melhor, mas a pessoa ma e antiga sempre vence o pareo - se nem lista de supermercado eu consigo fazer e manter em um lugar acessivel e facil de lembrar, quem dira resolver os problemas do mundo ?
Ser menos relapso com meus amigos e familia, menos relapso com o trabalho, com a saude... ...todas as promessas de ano-novo se resumem a isso : ser menos relapso.
Me digam, como ser menos relapso com burocracia de imigracao quando se trabalha sessenta horas por semana em horarios nada convencionais, como ser pontual, disposto, atuante, moderno, light e ativo ? Apos um turno de quatro da manha as duas e meia, tudo que eu quero eh espancar uma meia duzia de pessoas e dormir como um anjo (ate acordar as tres da manha, e querer matar mais alguem) e como ser educado com o ascenssorista (ainda nao sei como se escreve esta merda de palavra) as tres e meia da manha, sabendo que depois do trabalho voce vai ter que correr 10 kms, sem fumar depois e ainda por cima lavar roupa quando chegar em casa ? nao tem cristao que aguente.
E tem tambem a listinha de compras para o ano, realizacoes :
- Um sapato Helmutt Lang de cromo;
- Uma BMW preta, pode ser 318i, nao ligo;
- Um Ipod daqueles mais caros e grandes, os minis eh pra esconder na bunda, nao quero;
- Um frasco de Mont-Blanc presence, tamanho container de Santos;
- Calcas Caqui Ermenegildo Zegna, so pagando uma fortuna iria me fazer usar aquilo;
- Camera Digital de 7 mega pixels (sempre que tenho grana pra comprar, acho que nao preciso);
- Uma bicicleta Giant speedy, de 18 marchas e quadro de kevlar, para pagar de gatinho em Mission Bay;
- Um par de oculos escuros Armani, tenho uns vinte pares made in Taiwan que juntos devem dar o preco de um churro;
- Valium 11 - umas dez cartelas pelo menos;
- Um corte de cabelo em um salao, com massagem, cafezinho e cafune : nao aguento mais cortar cabelo em casa;
- Uma porra de uma empregada para passar roupa;
- Medicamentos sob prescricao;
- Ajuda profissional.

Coisas obtidas em 2005 :
- Um micro com 80 GB, 512MB Ram, Monitor LCD 17", CD/DVD Burner, caixas de som de gosto duvidoso;
- Um celular Nokia 6320 que ganhei de presente;
- Um frasco de Ralph lauren Safari;
- Um contrato de aluguel de um apartamento no centro de Auckland (incluso energia e telefone + Internet);
- Duas facas Victorinox iradas, da pra cortar ate pensamento leve;
- Meu nome na lista telefonica de Auckland;
- Uma jaqueta da Victorinox.

Como voces podem perceber, 2005 foi muito produtivo para mim.
Entao tenho um objetivo a cumprir em 2006, cuidar mais de mim, fazer mais amigos e realizar que :
- todos os dias, pelo menos 30 criancas morrem de inanicao no mundo;
- Todos os dias, outras ficam cegas por falta de um dolar para a medicacao necessaria (por semana);
- Todos os dias, outras milhares morrem por doencas que poderiam ser curadas simplesmente por penicilina;
- Que a pobreza absoluta deve acabar.
www.one.org

Eu nao tenho os milhoes do Bono para doar, mas quem sabe, minha resolucao de ano novo possa ser realmente me tornar uma pessoa melhor ? Quem sabe eu possa fazer a diferenca ?
Quem sabe eu faca.

segunda-feira, janeiro 09, 2006



Eu estou de volta.

domingo, janeiro 08, 2006



Raio x


Maca, o meu novo kart


Na maca... derrubado.



Essa pulseirinha sinistra...


Edu.


Simone Distraida


Balsa



Pelados a distancia... tirada pelo celular. Esquecam ver detalhes.


Olha essa... a tal da praia da sacanagem.



Paraiso.




Praia !!! Nos invadir sua playa !!!

Curiosidade

Gente, quem mora em Ribeirao Preto ou Tanquinho em Sao Paulo ?
Voces sao leitores fieis, devo dizer - meu mais sincero obrigado, achei interessante alguem que nao me conhece se interessar pelo meu site.
Amo esse site meter.

Naturalistas

Ontem fomos dar uma banda na praia.
Eduardo e Simone me convidaram para ir a Waihiki, uma ilha a meia hora de balsa de Auckland com natureza quase intocada e praias belas, belissimas, aonde os kiwis podem torrar suas bundas europeias e se sentirem em um clima tropical - tudo isso com um tempero a mais : duas praias de nudismo, coisa rarissima na Nova Zelandia.
Chegamos naquela empolgacao - Eu, Eduardo, Simone e Lorena (Clayton eternamente trabalhando), alugamos um carro e saimos como uma ameaca brasileira em meio a bikinis imensos, peles alvas como a mais seda branca, insolacoes aterradoras e muito, muito Sol... ...de certa forma, estavamos nos sentindo no Brasil novamente, praias com gente circulando, areia branca e fina (raro tambem aqui) e um isopor carregado de cerveja. Escolhemos Onetangi Bay, estacionamos o carro e armamos acampamento tentando visualizar os naturalistas em volta : nada. Nos contentamos com as aguas cristalinas e os europeus circulando com seus calcoes imensos, peles avermelhadas que nos encaravam ao ver os bikinis brasileiros, as cores das peles bronzeadas das meninas e a enorme quantidade de garrafas de cerveja vazias em volta das esteiras. Eramos uma comunidade alienigena, uma aberracao tropical em meio ao cenario.
Apos umas duas horas, comecamos a ficar irriquetos pensando nossos proximos passos :
"e a praia de nudismo hein, tem mais alguem curioso ?"
Nao tinhamos ideia da onde o lugar ficava, saimos procurando apos o almoco e basicamente o que perguntavamos aos locais era: "e aqui que a sacanagem rola ? nao ? aonde que eh entao ?"
A tal praia ficava entre uma pedras, lugar paradisiaco, aguas cristalinas e uns poucos naturalistas exibiam seus dotes. Risadinhas, rostos corados fizeram parte da entrada (na verdade eu ja havia ido a praias nudistas e estava nao tao impressionado, me sentia mais curioso) e pudemos comprovar o que ja sabia em minhas experiencias anteriores - 70% dos naturalistas que frequentam essas praias estao acima dos 55 anos, show de horror, pudemos comprovar ao vivo a equacao natureza x gravidade (gravidade 14, natureza 0) mas nao deixamos nossos espiritos de porco serem detidos por esse reves, nos instalamos no meio da praia e curtimos um dos lugares mais belos que ja vi na vida.
Alguns naturalistas mais jovens chegaram, as coisas ficaram mais interessantes : como se paquera pelado ? Fiquei intrigado e pude comprovar que nesse momento crucial, o contato se faz com os naturistas (pasmem) se cobrindo com cangas e toalhas, o misterio, senhoras e senhores, eh ainda o maior afrodisiaco que existe, parece que eh uma lei nao-declarada que o approach deve ser feito sem mostrar suas partes pudendas (apos meia hora de conversa, ai sim, as cangas caem e tudo esta natural de novo). Fiquei curioso com aquilo.
Pensei como seria um mundo naturalista : executivos carregando pastas e usando apenas gravata e meias pretas, secretarias esbarrando os peitos nos teclados dos computadores, amigos se encontrando nas ruas (se abracam ou nao ?), o fato de os restaurantes nao serem mais lugares seguros para se comer (e os chefs? ja cheguei a pensar em milhares de queimaduras e lesoes nada agradaveis)...
Tudo seria muito normal, nudez na TV deixaria de ser um tabu, talvez as pessoas se respeitassem mais sem julgamento... ...e a sacanagem.
A sacanagem, infelizmente, faz parte das mentes e coracoes brasileiros - eramos com certeza os unicos pensando em sacanagem naquela praia.

Brasileiro eh fogo.

Caetano X Gil

Enfim, isso aconteceu.
O ministro Gilberto Gil se indispos com Caetano (ao menos publicamente) quando um criticou a politica de distribuicao de verbas do outro (o artista x o Ministro) - quase surreal isso.
Nao cansados de aporrinhar o cenario cultural brasileiro por quase quarenta anos, agora porque nao aporrinhar uns aos outros ? Nos anos oitenta, principalmente no comeco, ai de quem nao tinha a bencao dos tropicalistas - os grupos de rock dos oitenta que o digam, MPB entao, pior.
Respeito muito o trabalho deles, so nao respeito o fato de esses artistas terem ditado ao Brasil o que seria bom e o que seria ruim em materia de musica (leiam Vamos a luta companheiros : o rock brasileiro nos anos 80) e fizeram exatamente com as bandas o que Caetano esta fazendo com Gil, acusando de centralizador e totalitario. Um duelo de Titas.
Nao que os dois irao deixar de ser amigos, essa deve ser uma briga daquelas de escritorio aonde se quebra o pau, e as seis todos saem para o happy hour juntos para beber e esquecem todas as rusgas do horario comnercial; mas soa interessante duas majestades dessas se confrontando dessa maneira.
Talvez eles devolvam os Cds, os presentes, os discos de ouro e cartoes de Natal, Aniversario, talvez eles apaguem o nome um do outro do celular, talvez nunca mais se falem e dai ? Sera o fim de um dos mais grandiosos movimentos culturais das ultimas decadas ?
E se continuarem amigos, como serao as conversas e festas seguintes ? Precedidas daquele silencio perturbador em quem ninguem se atreve a quebrar (e quem se atreve a se meter em uma conversa entre Gil e Caetano ? Eu nem a pau me metia)... No final da noite, apenas aquele aperto de mao e cada um pra seu lado ?
Eu respeito ambos pelo seguinte : Caetano manteve seus principios de artista mesmo tendo que criticar o ministerio de seu melhor perceiro e Gil por sua vez adotou a postura de ministro e perguntou qual a razao de estar intocado em um debate tao serio, assumindo a responsabilidade das decisoes tomadas.
E no fundo musical de tudo isso, Calypso recebendo discos de ouro, pagodeiros dirigindo seus carroes e iates, diretores talentosos que jamais terao a oportunidade de expressar suas opinioes para o mundo e 99,8% da populacao esta ocupada demais sobrevivendo para ter epifanias intelectuais, e sinceramente, nao dao uma merda pra tudo isso.

Meu conselho de amigo ? Reatem a amizade, se abracem, beijem, quarenta anos soa muito tempo para se desperdicar assim, eu uma crise qualquer.

E sinceramente : quem realmente se importa ?

Da serie : porque eu so me f...

Antes de mais nada, feliz 2006 a todos, que este ano tenha comecado maravilhosamente a todos pois acho que o meu comecou desastroso por todos voces.
Bem, por onde comecar ? Claro, o Natal.
Natal em Auckland pela primeira vez, pela primeira vez junto dos meus amigos e o resultado voces ja viram, enfim, ultimo dia do ano comecei com trabalho as quatro da matina seguido de uma leve cerveja pos-lavoro que resultou em sono profundo e imediato, cheguei em casa as duas e tanto da tarde direto para a cama para meu cochilo ate as nove da noite quando iria acordar e tentar salvar minha passagem gloriosa rumo a 2006 - estava decidido a fazer isso dar certo, queria uma ponta de esperanca para meu ano quem nao quer ?
Acordei as nove com varias mensagens em meu celular da Simone, me chamando para uma festa de ano novo do Stu, um dos Gerentes de RH da Skycity que por sinal eu detesto (ir so para irrita-lo pareceu extremamente sedutor) e alias, nao tinha mais nada interessante a fazer porque nao ? Iria levar a Lorena minha flatmate (Clayton, o namorado dela estava trabalhando) e umas garrafas de champagne para fazer barulho a meia-noite.
Chegamos, festa estranha com gente esquisita... ...me enturmei ao maximo, mas pude constatar que a festa do Stu era um retumbante fracasso (uma leve ponta de prazer ao afirmar isso) e na falta de coisa melhor a fazer enchemos a cara e voltamos para a casa as 2:30 da manha - apenas em tempo de tirar um cochilo de 15 minutos e ir para o trabalho naquela condicao que vcs ja podem imaginar, foi um looooongo dia primeiro, mais uma vez pude me arrepender de ter nascido.
Dia 2 de Janeiro, trabalho, casa, jantar na casa do Edu da Si para compensar o fiasco da virada, tudo correu bem mas tive que ir embora mais cedo para dormir algumas horinhas e ir trabalhar (enche o saco essa repeticao nao ? imagina para mim, que realmente tenho que trabalhar cada vez que cito essa palavra) e dois dias de folga, enfim, apos passar as festas trabalhando de ressaca nada como uma boa folga para animar os espiritos. Quarta-feira, dia de ocio, fui sequestrado por Ricky e sua namorada para ir correr de Kart indoor - adrenalina e um pouco de minha vida antiga, a excitacao,o barulho dos motores, estava vivo novamente... ...mal podia esperar para pular em um kart e sair barbarizando pela pista, extravasar toda a agressividade contida nas festas. Primeira corrida, peguei terceiro lugar e me preparava para o grid de largada : sai enlouquecido perseguindo cada um dos participantes mas Ricky dirige como uma velhinha a caminho da feira, bloqueava todos e irritava por sempre ter uma longa fila atras do seu kart sem ao menos se preocupar em dar passagem. Numa dessas desesperadas tentativas de ultrapassa-lo, o imbecil perde o controle do kart e colide com o meu. Senti minhas costelas esquerdas sendo esmagadas pelo banco e o cinto de seguranca queimando meu pescoco (apenas 5 mins. de corrida haviam se passado) e a dor era lancinante, amaldicoei, xinguei, e meti o pe-na-tabua novamente com o intuito unico de A)Ganhar a Corrida B)matar Ricky fazendo seu kart cair para fora do circuito. Cheguei em segundo por causa da cacetada, meio que bebado de adrenalina, meio que letargico de dor.
Tudo estava bem alem de uma leve dor nas costelas, fomos tomar alguns drinks com amigos e a meia-noite fui embora por estar com dor e cansado.
Quinta-feira, dia em casa me recuperando, leve dor mas sem grandes esforcos - evitei me esforcar muito e resolvi que o descanso era merecido, iria voltar ao trabalho na sexta-feira e deveria estar zero km.
Sexta-feira, levantar da cama exigiu um sacrificio extra - minhas costelas agora exigiam a conta - fui ao trabalho tentando nao exagerar, para mim, aquilo era apenas um arranhao e deveria deixar de ser chorao... ...ja aguentei coisa muito pior, iria comecar a dar uma de bundao a essa altura da vida ?
O trabalho foi longo, o dia nao passava e a dor aumentava, nao podia me virar a nao ser que virasse o corpo inteiro, evitei carregar caixas e coisas pesadas e resolvi contar aos chefs o que havia acontecido, fizeram piadas, etc...
Ao tentar andar de volta para casa a dor se manifestou de vez, a cada passo gemia, urrava, suava frio - as costelas doiam como que agulhadas profundas, me joguei em um taxi e pedi que me levasse para o hospital.
Duas costelas quebradas, uma semana de folga (a parte boa), e 2006 comecou para mim.
2006 vai ser um bom ano.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Feliz Natal... ...uhmmm... Feliz.. ...Natal... ...

Mais um Natal se passa, menos um Natal a frente e muito trabalho.
Quando se trabalha com hospitalidade, uma das primeiras coisas que se deve dar adeus sao os feriados, dias santos, dias de paz e sossego na varanda de sua casa com seus amigos e familiares (mesmo que estejam perto de voce) - e mais ou menos como dizer que voce vendeu sua alma barato, muito barato, seus empregadores querem o maximo de voce, querem tudo de voce, querem seu sangue de preferencia esborrifado em seu avental e suas facas.
Com as comemoracoes de Natal anunciadas, os pedidos dos restaurantes foram estratosfericos, apenas um dos quais sou responsavel pediu mais de 300 kgs de saladas e molhos - o servico aumentou mas eu continuei um soh, oh drama !! Tratei de correr e consegui de uma maneira ou outra abastecer todos sem maiores problemas e ao meio dia do dia 24, estava com tudo em cima e apenas esperando para as comemoracoes de Natal na casa do Edu e da Simone; este seria meu primeiro Natal de verdade na NZ nao poderia deixar passar essa em branco. Como havia comecado o trabalho as quatro da manha do dia 24, e deveria estar de volta as quatro da manha do dia 25, fui direto para casa dormir e me preparar para a festa de Natal seguida de um turno na Sky. Nossa festa de Natal foi um sucesso, amigo secreto, muito vinho e champagne dos quais ataquei sem a menor cerimonia, um presunto gigante assado, mais vinho...
Ganhei duas facas Victorinox do Edu e da Simone das quais trato como meus proprios filhos, meu nome gravado na lamina e tudo !! Confesso que ha muitos anos nao ganhava nada tao significativo, parecia uma crianca com a diferenca de que estava brincando com objetos extremamente pontiagudos sem supervisao adulta.
Cheguei na Skycity as tres e meia da manha, sonolento, bebado, irritado, revoltado, com francos pensamentos em fazer umas tatuagens perturbadoras, agarrar meu rifle e subir no topo do predio para atirar em pessoas inocentes.
O turno foi tranquilo e tinhamos absolutamente nada para fazer,a ressaca era avassaladora, minha cabeca retumbava e ecoava dor e os cheiros da comida atingiam meu estomago como socos desferidos impiedosamente como um castigo divino, poderia chamar assim.
Noite feliz, dizem.
Foi um Natal interessante, completo e diferente em muitos sentidos poderia dizer - claro que senti saudades das familias e amigos, mas essa experiencia eu com certeza lembrarei a vida toda...

...e o ano-novo ja esta ai, para que eu repita tudo de novo. Eu nao aprendo.

quarta-feira, dezembro 21, 2005

A doenca.

Ser um chef, as vezes se compara a uma doenca degenerativa que corroe, pouco a pouco todos os outros aspectos de sua vida - sua relacao com as pessoas, seus pontos de vista em ralacao ao mundo, a maneira como voce encara o trabalho, seus gostos, seu modo de vestir, tudo, tudo gira em torno do fato de voce ser um Chef (ainda que mediocre) e um certo orgulho enrustido ao se usar aquele uniforme fedorento.
Falando pessoalmente, ma cozinha aprendi a nao ter pena das pessoas, a nao ser preguicoso, a estar no trabalho mesmo que delirando de febre, a delegar e acatar ordens, a controlar minha boca enorme, a deliberadamente abrir minha boca enorme no momento oportuno.
Leio meu dicionario "comida de A a Z" com a empolgacao de um garoto de 14 anos a abrir a primeira Playboy, paro na rua para ler o cardapio dos restaurantes afixados nas janelas, gasto uma boa hora dentro de uma loja de facas e o maior sinal de fanatismo : comprei uma jaqueta da Victorinox, a mesma marca de minhas adoradas facas - talvez seja o comeco do fim, mas se a coisa atingiu ate meu senso fashion, deve ser realmente serio.
No ultimo trabalho casual que peguei, eramos apenas meu amigo Ricky e eu na cozinha - apos tanto tempo fora de servico normal, em restaurantes, com pessoas entrando e saindo, esperando na mesa pela comida, garconetes berrando pelos seus pedidos, pensei se ainda teria talento e disposicao para encarar uma noite de trabalho.
Na Skycity, eu trabalho em uma cozinha de preparacao - faco comida a ser enviada para os restaurantes do lugar e nao vejo a cara de um so cliente.
Chegamos no lugar, um restaunte no meio do caminho da famosa praia de surfistas Piha, no alto de uma montanha e com uma vista estupenda; o lugar ainda tem os tracos de dias gloriosos passados, mas a palavra que vinha a minha cabeca era decadente, faltava cuidado, faltava atencao ali.
Entramos na cozinha as cinco e meia e pude observar os chefs do dia terminando seus afazeres - brincos de argola, apenas um usava uma doma e jeans, colares com dentes de tubarao, eles pareciam mais piratas do que chefs - eram o tipico perfil do meio, junkies, loucos e bebados que nao dao uma merda para a profissao, fazem por dinheiro e ate fazem bem. Eles olhavam intrigados para os chefs da Skycity, uniformes completos, estojos de facas, eramos o real deal, almofadinhas da cidade.
A pressao estava no ar, a expectativa das garconetes, da gerente, tudo remetia a uma noite que tudo deveria correr perfeitamente e nao tinha maiores preocupacoes ate ver a cozinha em si : mal-equipada, apertada, uma geladeira nada espacosa e parcos recursos. Tinhamos uma mesa de vinte pessoas com cardapio selecionado e os clientes habituais a servir, soava facil demais, ja passei por coisas muito piores.
Fomos atingidos as sete, quando os vinte comensais chegaram, e com eles mais uns quarenta a La Carte - o peru encomendado para a salada de entrada dos 20, para minha surpresa veio recheado fazendo com que todos os meus planos mudassem, a preparacao para pizzas estava menos que meia-boca (malditos piratas) e o Kitchenhand nao demonstrava nenhuma inclinacao a fazer coisa alguma alem de lavar uns pratinhos e ficar constantemente fucando por comida, tentando aplacar a obvia larica e motivo para sua atuacao em slow-motion; nao me incomodo com pessoas que fumam um baseado de vez em quando, me incomodo com pessoas que fumam um baseado 5 mins. antes de entrar na cozinha. Fiz o peru em fatias (antes seria em cubos em uma salada) sobre uma mesclun salad e um molho de frutas vermelhas que improvisei com o que achei na geladeira,aplicando com uma bisnaga de plastico cortando o prato ao meio, e dois toques de pimenta moida de cada lado - parecia valer bem mais do que realmente poderia valer um pedaco de peru caracteristicamente sem sabor.
Naquela noite, meu trabalho principal foi decorar os pratos, fazer pizzas, saladas, sobremesas, milagres, tudo ao custo de apenas um dedo cortado e NZ$ 100 a mais em meu bolso - mas a satisfacao de saber que eu ainda sou bom nisso - Priceless.

Na verdade, estava pensando em milhares de posts para por hoje, mas apos escrever um imenso e perder logo em seguida ao tentar publicar, cortou um pouquinho meu tesao.
Amanha tentarei de novo.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Seja bem-vinda, a vida.


Caros Lilian e Iuquim;
Fiquei muito satisfeito em saber que a Marianna chegou, bem gordinha, bochechuda, e bem vinda principalmente. Para a mamae de primeira viagem, para o papai de muitas viagens (nao sem o mesmo entusiasmo, acredito) deve ser uma alegria da qual nao posso nem imaginar, ter um filho, algo que veio de voce mas nao eh seu, eh seu mas nao eh, sei la, deve ser alguma coisa extraordinaria, inacreditavel, tentar procurar seus tracos naquela pessoinha, fragil, precisando de sua ajuda, atencao.
Ja nasceu parte de uma grande familia, olha que sorte, tem ate um sobrinho da mesma idade para badalar mais tarde - quer melhor ? Os Natais vao ser incriveis...
Bem, chega de divagar sobre o que nao sei e apenas desejar meus sinceros parabens...

Olha que coisinha...

quinta-feira, novembro 24, 2005

Auckland Redux

Bem, como tentar resumir os ultimos meses em Auckland ?
Assim como me lembrava, Auckland preza o lifestyle de seus moradores que possuem grana, fazendo da cidade um enorme playground a ceu aberto que so admite socios, deixando um chef de segunda categoria como eu a olhar do lado de fora da cerquinha branca e imaginar apenas como seria dar uma voltinha no carrosel com as criancas mais abastadas - intocavel, tao perto e tao longe, o dinheiro esta aqui, mas fora do seu alcance. Algumas alegrias distantes de Queenstown, no entanto se tornaram possiveis, a vasta variedade de restaurantes e vinhos a metade do preco de Queenstown foram uma compensacao e tanto, desde que eu leve uma vida espartana em outros sentidos da metropole.
Meu flatmate, se digna a simplesmente tratar a casa como um dormitorio, um lugar aonde apenas se dorme e joga-se suas tralhas fora do alcance do amigo do alheio, mas mesmo assim paga as contas em dia. Eu sou mais a favor de construir um lar, sua casa deveria ser seu templo, sagrado, intocado, aonde depois de uma dificil jornada de trabalho voce deveria ter prazer em voltar e imaginar que estara seguro, aquecido e intocado dentro dos perimetros sagrados que custam a bagatela de NZ$ 150,00 por semana; um preco muito baixo a se pagar por tudo isso, talvez ?
Na agencia, tive uma semana otima e ate que produtiva (visto que chego imprestavel la, depois da cozinha) e ate minhas relacoes ja desgastadas com o Eduardo estao se reestabelecendo - apos tanto tempo juntos, passamos a nos tratar as alfinetadas mas o aumento dos negocios da agencia tem sido muito estimulante para ambos (bem, mais para ele, que eh socio da agencia) e sinto que meu prezado amigo tem um futuro brilhante pela frente, ao contrario da minha insensata busca por um porto seguro, infindavel. Na real, somos dois ossos duros de se roer, verdade seja dita, e duvido seriamente que alguem alem da Simone (a esposa dele) consiga conviver conosco sem entrar em colapso absoluto e nos matar de madrugada, enquanto dormimos - nao podemos reclamar um do outro - nos merecemos, ate que o inferno nos una novamente, amem.
Na Sky city percebi que poucas coisas efetivamente mudam, as pessoas sao condicionadas a fazer as mesmas coisas, nas mesmas horas e falar sobre as mesmas fofocas sobre pessoas diferentes, ainda assim, nao diminuiu meu interesse e entusiasmo de aprender mais e mais, mas conhecendo como as coisas funcionam por la, aprendi que para se chegar a algum lugar na cadeia alimentar precisa-se de montantes impressionantes de tempo - coisa que nao tenho disponivel no momento, tenho 30 anos e ainda tenho flatmate, uma poupanca de menos de uma entrada para uma casa, e uma capacidade de aprendizagem infinitamente menor do que ha dez anos atras.
Ricky, meu supervisor, aparentemente gostou muito de mim, como amigo, confidente e parceiro de balada, comecando a cada dia ocupar mais e mais espaco na minha vida, definiria mais como todo espaco que tenho disponivel. Comecamos a sair para comer em restaurantes, apreciar a boa comida e bebida, ir tomar um cafe na beira da Queen St. e observar os malucos da cidade zanzando de cima a baixo; ate ai, nenhuma estranheza. Mas com o passar das semanas, ele tem se tornado presenca constante em meu apartamento, em meus dias de folga, em qualquer tempo livre que eu tenha e isso passou a me incomodar um pouco - a namorada dele, alema, ja me incorporou muito amigavelmente e nao se incomoda de me carregar junto para cima e para baixo, mas percebeu que meu incomodo crescia a cada dia e comecou a dar toques nele (infelizmente, na minha presenca) e me tratam como uma crianca de dez anos sentado no banco traseiro do carro discutindo o que eu deveria ou nao fazer. Um desses dias, Ariane, a namorada dele, foi internada com um possivel problema neurologico e Ricky veio ate a minha casa me buscar (no meio do meu sono) para visita-la no hospital, eu estava extremamente cansado, mas claro que em uma hora dessas nao se pode dizer nao.
Chegamos ao hospital, ela parecia bem e estava com ressonancia magnetica marcada para o dia seguinte, fariam um check up total na manha seguinte e etc... ...apos deixar o hospital, seguimos para um restaurante asiatico (ele queria) para conseguir um jantar, meio a contragosto fui, cheguei as onze da noite em casa e tive que acordar as tres da manha para trabalhar - exausto, mas o que nao se faz por uma boa causa. Os dias se seguiram, e a cada tarde, depois do escritorio ele passa em casa para me acordar, e acreditem, a determinacao que ele tem nessa tarefa nao tem limites : Telefones (celular e fixo), interfone, buzina e berros fazem parte do repertorio criativo dele. Acordo, descabelado, de cuecas (percebo tarde demais antes de ir ate a sacada, toda a vizinhanca sabe que tipo de cuecas eu uso) e vou falar com o cara na esperanca que ele perceba que estava dormindo e que pretendo continuar nessa ardua tarefa. Nada funciona, sou carregado do mesmo jeito.
Anteontem, apos a cozinha, ele me fez ligar para o Eduardo (que nao deve ter ficado nada feliz) e quis que fosse com ele e Ariana jogar mini-golf em Albany, North Shore, e acabei ligando meio a contra-gosto mas com um certo prazer pois estava aos pandarecos e achei que um mini-golf requer menos atencao e responsabilidade que um escritorio lotado, precisava de um descanso, seja qual ele fosse.
Fomos para Albany, jogamos mini-golf, andamos um pouco pelos arredores e paramos em Takapuna para esperar que o trafego diminuisse enquanto tomavamos uma cerveja comendo alguma coisa. Cerveja tomada, barriga cheia de batatinhas, embora para casa, claro - e foi ai que o bicho pegou - ao chegar na cidade, pedi que me levassem para casa, nao aguentava mais as minhas costas, minhas pernas estavam bambas, minha mente imersa em uma escura nuvem de cansaco,sinceramente, nao aguentava mais discussoes de casal que sempre acabam em demonstracoes publicas e embaracosas de afeto. Sem me perguntar mais nada, Ricky vira o carro direcao oposta, me avisando que iriamos para o melhor restaurante indiano de Auckland, eu nao podia suportar aquilo, alem de nao estar com disposicao necessaria para aguentar o ritual estacionamento/mesa a escolher/entrada/principal e conversa sem muita animacao (falar do que ? nos vemos todos os dias) teria ainda que encarar o pesadelo maior que era comida indiana - simplesmente vai contra tudo que eu penso sobre prazer gastronomico, disse que nao, muito obrigado, nao queria comida, ainda menos indiana, Ariane tentou convence-lo a me levar, mas ele nao deu ouvidos, mais uma vez. Sentei na mesa do restaurante resignado, tentei fazer daquela uma experiencia positiva, mas o aroma forte de Curry no ar fazia meu estomago se contrair e enviar mensagens expressas ao meu cerebro de "mesmo sabendo que estou prestes a ser violentado, voce vai permitir isso ?" ou entao "Cerebro, amanha farei com que voce lamente por isso" ... Enfim, os pelos de meu braco se arrepiaram, a musica indiana a todo volume nao ajudaram e o bigode espesso do garcom de dezesseis anos no maximo me deram a impressao de estar numa comedia barata, simplesmente nao consegui relaxar, alem de estar emputecido de nao poder dormir.
Pedi um vinho para clarear as ideias - Gerwustraminer, citrico, perfumado, perfeito, o sabor era refrescante e o after-taste com acidez na medida certa, me senti ligeiramente melhor e ate ignorei mais uma discussao matrimonial sobre qual seria a melhor prioridade para uma vida melhor: casa ou carro ? E demais para um ser humano.
A comida foi escolhida pelo Ricky, ainda tentando me convencer que Indiano eh o must - a entrada foi uma Samosa gigante com uma massa que parecia de pastel, o cheiro forte de curry se espalhou pela mesa e comecei a sentir calafrios, rezei por um blackout, um Tsunami, qualquer coisa que me desse a chance de correr porta afora sem ofender meus anfitrioes. Primeira garfada, a massa sem muito sabor e encharcada de oleo com uma parte do recheio cremoso (meio seco) de curry e pedacos de batata parecia crescer na minha boca, quanto mais eu mastigava mais eu sentia que nao poderia engolir aquele troco, mandei uma talagada no vinho para empurrar e disfarcei minha cara de repudio enquanto Ricky contava suas estrelas, comentando sobre a iguaria, a preparacao,bla-bla... ...mais uma garfada e mais uma talagada de vinho e em seguida eu ja estava chamando o bigode de lava-rapido para me trazer mais uma taca, percebendo o desespero em meus olhos, fui prontamente atendido, o curry queimava minhas entranhas, meus olhos tentaram nao saltar para fora das orbitas, o fino suor escorria pela minha testa enquanto tentava disfarcar os arrepios pela minha espinha se estendendo por todo o corpo, meus testiculos rumaram norte particularmente quando uma pelota de curry puro veio parar em minha boca, cheguei a conclusao que todos os indianos podem praticar sexo anal numa boa, se aquilo nao machucasse ninguem ao ponto de correr para um proctologista, nada mais o faria.
Deixei metade no prato, retirado da minha frente quase que com um suspiro de alivio, (que durou apenas vinte segundos antes dos pratos principais chegarem),o main affair era composto de uma massa torrada, em folha, enrolada e com um recheio surpresa do qual nao estava euforico para descobrir - resolvi pedir mais uma taca de vinho por garantia, talvez nocauteando meu cerebro com alcool, todos os outros sentidos se fossem tambem. Ledo engano.
A tal massa, Ricky explicou que so poderia ser feita por especialistas, cruzava o prato de ponta a ponta saindo para os lados do prato, e vinha acompanhada de dois molhos em um potinho, um vermelho e um branco, e um outro potinho que parecia ser uma sopa de curry, o cheiro me intoxicava, pavor, panico, desespero - Deus, cade meu blackout ?
Bem, cara feliz, cortei a massa crocante e macia ao mesmo tempo, talvez nao fosse tao ruim assim - adivinha qual era o recheio ? CURRY E BATATA !! Mais uma talagada de vinho, apelei para os molhos, a sopa era curry puro e nao aliviou, os outros dois eram a base de coco ralado e vejam so : Curry again.
Engoli o maximo que pude da coisa, sem molho algum e deixei mais da metade do prato, agora alem de meio-bebado, exausto e mau-humorado agora estava prestes a uma indigestao secular. A cozinha indiana se caracteriza por excessos, redundancias e um certo apelo rustico que juntos remetem apenas a vulgaridade, na minha opiniao, nao importa quais sejam os ingredientes, tudo sera apagado pelo sabor do curry e desnecessariamente apimentado - nao importa se eh uma batata ou uma lagosta, o sabor do curry sempre ira imperar.
Terminamos nossa refeicao com um certo ar de constrangimento, para nao ter que quebrar o silencio da mesa com meu mau-humor, entornava vinho tentando nao pensar no que isso causaria somado aquela pimenta toda, e tentando nao voar na carotida do Ricky por mais uma vez nao ouvir o que eu quero e me impor o que ele acha que eh bom.
Tivemos uma breve conversa antes de pagar a conta, ele me contou como devemos experimentar de tudo e eu comentei que apesar de ter absoluta certeza de nao gostar de comida indiana, e comentar, mais uma vez ele nao me deu ouvidos.

Na manha seguinte, apos cinco horas de sono e retumbantes gases mortais de curry, cheguei ao trabalho as quatro da manha em um estado deploravel : barba por fazer, olheiras profundas e as promessas de vinganca de meu estomago se fazendo verdadeiras - duas idas de emergencia ao banheiro e toneis de agua nao fizeram muito efeito e acreditem, o curry nao saiu de melhor maneira que entrou, suor, lagrimas, calafrios, urros foram parte da trilha sonora ate as oito da manha - era extenuante, eu estava acabado.
Com a chegada do Verao, o movimento nos restaurantes aumentou 100% quase que de uma hora para outra, os pedidos para a cozinha triplicaram e eu continuei um so - corri, me desdobrei, gritei, minha jugular se expandia a cada novo problema, a cada falta de um forno livre, a cada batelada de caixas de oleo que chegavam em carregadeiras esperando para serem postas em seus lugares - sim - eu vi o inferno, e queimei nele, amaldicoei cada pedaco de samosa, cada hora de sono perdida, amaldicoei Ricky por tomar tanto meu tempo nas ultimas semanas. E como coisas ruins vem em tres, o meu dia de folga, marcado para ser o seguinte, foi mudado para um dia adiante em cima da hora - eu simplesmente odeio isso - diga-me por exemplo "Ricardo, semana que vem, na quinta, vamos enfiar um ferro em brasa no seu rabo e fazer voce guinchar como um porco, mas na Sexta voce esta de folga", claro que nao ficarei mais feliz com a noticia, mas vou apreciar a semana de antecedencia que me deram e marcar um proctologista.
Enfim, como se mais nada pudesse piorar, Ricky me mandou fatiar 30Kgs de pepino no Mandolin, e apos tanto cansaco, falta de sono e mau-estar, depois dos primeiros 20Kgs fica facil perder a concentracao; fatiei meu dedao direito mandando metade da minha unha para a assadeira - se ate agora eu estava puto, agora eu estava furioso - senti a veia da minha testa inchar, a dor lancinante no dedo se espalhava para a minha mao, descendo para o estomago e subindo, queria matar, estrangular, cortar, dilacerar, gritar, queria simplesmente homicidio - virei para o Ricky, que me olhava agora com uma expressao de terror, tentando minimizar a tragedia (inutilmente) ele me disse "agora voce perde o medo de usar o mandolin", apenas me virei e fui fumaceando pegar a caixa de primeiros socorros.
Apos conter o sangramento, ataduras e faixas em posicao, voltei ao trabalho - foram longas horas tentando ignorar a dor, meu corpo nao respondia mais, estava exausto, exilarado, cada assadeira carregada era extenuante,eu simplesmente nao podia mais.
O turno acabou, as duas da tarde, Ricky se vira e me pergunta "O que voce vai fazer agora ?".
E eu respondi "Trabalhar no escritorio e dormir" fulminando ele com meu olhar.
Apenas quero justificar, que nas ultimas duas semanas, ele tem me acordado, me impedido de dormir, me carregado para fazer tudo que ele quer fazer, sendo que eu acordo as tres da manha para trabalhar, e ele acorda as sete (alem do fato de ele fazer a tabela de horarios) e fiquei incomodado com essa intromissao, essa obssessao que ele desenvolveu - talvez seja o fato de ser o unico amigo ocidental que ele tem, somado que eu sou o ocidental diferente : menos frio que os Kiwis, mais amigavel que os europeus - Brasileiro. Mas mesmo tendo um blog, contando toda a minha vida para o mundo, tem uma coisa que eu privo, o meu espaco pessoal, meus limites que jamais devem ser cruzados e sou intolerante com excessos dessa natureza.
Hoje, estou de folga, uma atadura do tamanho do mundo no dedo - mas nem sinal do Ricky - talvez no Sabado, a gente va tomar uma cerveja.
Acho que ele entendeu - sou sozinho - por opcao, nao por disponibilidade.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Lula tem semana dificil.

http://www.estadao.com.br/nacional/noticias/2005/nov/20/88.htm
Lula tem semana dificl pela frente

O presidente da Republica tem uma carga pesada a carregar esta semana, vai acordar as tres da manha todos os dias da semana (menos quarta, que eh o dia de folga do presidente) e estar as quatro depois de uma caminhada ingreme ate o trabalho, pegar seu uniforme no roupeiro e estar vestido e pronto para o trabalho as quatro, quando tem que carregar o carrinho com tudo que vai usar, fazer sanduiches, carregar as caixas de pao, descarregar 25 caixas de oleo de vinte litros, por todos os secos nas prateleiras, cortar vinte kilos de batatas e por no forno a vapor por vinte minutos, tirar e ensacar a vacuo em pacotes de dois kilos, fazer 60 litros de maionese em uma batedeira monstro, carregar a maionese ate a geladeira, cortar cebolas em tirinhas (uns dez kilos pelo menos), fazer saladas mil, empacotar a vacuo e entregar nos restaurantes, quebrar o pau com o cara da producao para poder usar a merda da preciosa cozinha dele, carregar caldeirao fervendo com 40 litros de sopa fervendo, descascar, cortar, empacotar, limpar tudo e ir embora para o segundo emprego, fazer contabilidade, arrumar micro (ou tentar), etc...
E enquanto ele faz tudo isso, eu estou sentado no Palacio (aquele) planejando o churrasco na granja para espairecer meu stress.

Dai, eu acordo, sao tres da manha e ta na hora de trabalhar.
E ele, sera que acorda ??

sábado, novembro 12, 2005

Aos sabores da vida.

Qual a maior vantagem de ser um chef ?
Apos algum tempo, se aprende a aticar o paladar, olfato e visao que se tem de ingredientes, temperos, cores e texturas do que a maioria das pessoas "civis" com costumo chamar na cozinha - a partir dai, nao so seu estomago mas seu cerebro passa a ter conexao direta com a comida, o paladar e ate pode-se imaginar como sao os paises dos quais se prova uma comida tipica, pode-se tentar descobrir se o povo eh hospitaleiro, dinamico, relax... ...pode-se dizer muito, sem uma so palavra ser proferida.
Apos anos com terror absoluto a pimenta (pimenta ardida, claro) estou encontrando perolas da cozinha internacional em lugares absolutamente obscuros e dos quais jamais entraria em nenhuma hipotese. Ricky, o supervisor da minha cozinha, virou um grande amigo - ele eh da Malasia, e tem me ensinado as saladas tipicas (que sao servidos no Fortuna, o restaurante do qual sou responsavel pelas saladas) e sobre a cozinha asiatica em geral. Apos o trabalho, saimos feito duas comadres diretamente a restaurantes asiaticos para provar o que cada pais tem de bom - um em Avondale, uma portinha com cara de pe-sujo e apenas duas mesas na cara de um balcao daqueles de emporio e um senhor com cara de poucos amigos serviu para comecar. Deixei meu anfitriao pedir e esperei pelo pior, uma catastrofe gastrica estava prestes a se seguir em minha cabeca e ja imaginava que meios curiosos e nada agradaveis meu estomago iria tentar se livrar da comida. Pelo menos o chefe estava comigo para saber o que causaria minha fatal convalescencia, menos mal.
Ao chegar os pratos (minto, o prato - o velhinho cozinha prato a prato separadamente, nao importa quantas pessoas estao esperando, e serve um de cada vez, faz muita diferenca isso) um prato imenso, colorido, com muito broto de feijao, legumes de um verde escandalizante fresco e tiras de carne macias entre um tipo de macarrao de arroz chato e curto, o aroma do tempero a base de soja, misso, oleos e folhas da Malasia com toques de cominho simplesmente nao deixam que se concentre em mais nada ao redor, o cominho lembrava terra fresca, um certo cheiro fresco dizia que o lugar era quente, tropical ate, e os sabores e a quantidade de comida diziam Bem-vindo, era como estar provando um prato na mesa de uma familia local, feito com tudo que havia disponivel na despensa, e o sabor residual na boca me lembravam as cores laranja e vermelha, nas casas, nos postes, nas roupas. Pode ser que tudo isso esteja errado, que eu chegue la um dia e tudo seja rosa, sei la, mas a experiencia eh completa - especialmente pelo drink de cha verde e lima-da-persia gelado que parecia apenas exaltar tudo aquilo, preparando meus sensos para mais uma garfada perfeita. Nao sobrou nem um so pedaco de nada no prato ou gole na garrafa.
Pagamos uma mixaria pela comida, mas agora o ambiente do restaurante havia mudado completamente em minha percepcao - o lugar nao era barato, sujo ou relaxado : era tipico.
A segunda parada era um restaurante chines, daqueles que ja estao por lah ha um bom tempo com a vitrine escrita naquelas letras indecifraveis e com a prosaica vitrine ostentando patos degolados, defumados e depenados (gracas a Deus) pendurados em ganchos ao sabor do tempo e o vento : em quaisquer outras condicoes nao entrava la nem a pau - mas coragem, sabemos o que queremos e queremos aventura ao palato.
Entramos, o restaurante era amplo por dentro e tinha aquele ar barato que soh os chineses sabem dar a um ambiente, paredes que pareciam folhas de eucatex, uma parede com placas de espelhos em uma tentativa nada esforcada em sofisticar o ambiente e tudo meio que com uma cara de anos 70 (quando provavelmente o lugar foi aberto) e sobretudo lotado, muito lotado. Restaurante cheio eh sempre um sinal bom, e o fato de ter muitos rostos ocidentais (basicamente kiwis, locais, em ternos e saltos altos em hora de almoco) me animou bastante, as mesas usadas e gastas davam um certo sinal de solidez e o caixa parecia uma escrivaninha montada na sala de uma casa em Pequim, daquelas cheias de penduricalhos, talismas e bibelos para afugentar os mau-espiritos (nao funciona, nao tive vontade de sair correndo em momento algum) e apesar do horario do rush, fomos prontamente atendidos e postos em uma mesa aos fundos - se existe uma coisa que os chineses prezam eh atendimento instantaneo, em segundos uma sorridente chinezinha chegou com cardapios, cumbucas, hachis e um garfo para mim, visto que eu era o elemento x da situacao (eu sei usar os pauzinhos com maestria, nada ficaria entre eu e minha comida, acreditem) e teve a maior paciencia do mundo enquanto tentavamos decifrar o que tinha uma foto para ilustrar.
Em minutos, as porcoes foram chegando - peito de pato defumado em um molho estilo teriaky, sabor puxado no mel e soja, cozido a perfeicao em apenas alguns minutos (lembrem-se, eles so fazem comida mediante ao pedido, se voce ja viu a extensao de um cardapio chines, sabe o que estou falando) e mais uns minutinhos, uma versao de nosso porco pururuca, cortado em fatias finas e largas que pareciam laminas, a casquinha crocante e a parte interna esbranquicada (olhando, nao era nada inspirador) pensei imediatamente no trabalho de fritar uma bola de pele e gordura que provavelmente teve de ser costurada, para manter a parte interna macia e firme para nao se esfacelar ao corte. Ao primeiro contato do porco com minha boca, ja podia sentir minhas arterias se entupindo, seria o primeiro caso de infarte fulminante por um unico pedaco de porco, mas ao sentir a textura, o gosto firme sem ser impregnante, nem tao insosso nem salgado ao ponto de sufocar, tive imediata paixao pelo pequeno prodigio : danen-se minhas arterias, afinal os chineses vivem mais de cem anos comendo porco e pato, minhas pobres arterias coronarias ocidentais teriam que entender isso.
O prato principal chegou - uma grande travessa oval coberta por macarrao oriental, de uma cor escurecida (o macarrao era levemente frito em uma wok) coberta por vegetais de cores vivas, salteados no oleo de gergelim, gengibre, misso, e o resto que nao sei fica pela magia. No topo de tudo isso, costelinha de porco cortada bem pequena, estilo honey-barbecue, macias, tenras, em um molho espesso e escuro.
Desta vez, o sabor era de tradicao, jantares entre familias e amigos com todos sentados em uma grande mesa de madeira escura, a receita passada por geracoes, os alimentos chegando em cestas de sisal e bambu e clima chuvoso - que estimula as pessoas a fazerem mini-banquetes, comerem juntas, entreter-se uns aos outros, o cha chines de jasmin servido dava a lembranca de mulheres, chinesas, usando seda e flores nos arranjos dos cabelos impecavelmente presos. A partir dai, o restaurante obscuro da viela ganhou outro ar - tradicional.
Ao terminarmos, fiquei na esperanca de um grupo de cozinheiro chineses me carregar ate o lado de fora e me colocar em um taxi - estava empanturrado - e a conta, novamente foi uma baba.
Entre algumas coisas que ja experimentei, peixe frito com barrigada e tudo (na Indonesia), me causou arrepios, mas novamente era um restaurante pequeno em uma vila de pescadores no qual o chef (o filho mais velho) servia e sentava-se na mesa conosco, fazendo com que os comensais comam queiram ou nao. Nao me arrependi, e cada vez que provei de novo aqui, Amed na Indonesia, aquela praia, as palmeiras, o calor do Sol voltam imediatamente a minha lembranca.
Sabor: um dos sentidos mais mnemonicos que existem.

No Rain

No Rain

All I can say is that my life is pretty plain
I like watchin the puddles gather rain
And all I can do is just pour some tea for two
And speak my point of view but itts not sane, its not sane

I just want someone to say to me
I'll always be there when you wake
Ya know I'd like to keep my cheeks dry today
So stay with me and I'll have it made

And I don't understand why I sleep all day
And I start to complain that theres no rain
And all I can do is read a book to stay awake
It rips my life away but its a great escape...escape...escape

All I can say is that my life is pretty plain
You don't like my point of view
Ya think that I'm insane
Its not sane... its not sane

I just want someone to say to me
I'll always be there when you wake
Ya know I'd like to keep my cheeks dry today
So stay with me and I'll have it made

domingo, novembro 06, 2005

Morbidez eletronica.

Hoje, li uma noticia sobre uma jovem que cometeu suicidio no Rio, e que morou na Australia ano passado.
Fiquei curioso para saber se ela ja teria passado pela agencia da Information Brazil, AEC, e se a galera de la conhecia a moca.
Lembrei de um texto da minha amiga Rafaella no site www.ideiasmutantes.com.br sobre um cara que havia cometido suicidio e as pessoas mandavam mensagens atraves do Orkut para ele, entao fui tentar descobrir por uma busca no Orkut se ela havia estudado na Australia e aonde, etc... Pura curiosidade.
Ao entrar, me deparei com scraps de pessoas - milhares - amigos, desconhecidos e pasmem, muitos que leem as noticias no jornal e vao direto procurar pelo nome no Orkut (inclusive deixam scraps, alguns, nada agradaveis) e fiquei a pensar nos velhos tempos aonde a privacidade ainda existia - nao que eu esteja julgando nada, afinal eu tenho um blog !! Eu me exponho para conseguir atencao tambem, mas isso eh o tipo de sensacao que se tem quando as pessoas veem um acidente de transito e resduzem a velocidade mais para poder ver a cena, do que prezar pela seguranca das pessoas prestando socorro.
A violencia eh fascinante - e nossas vidas sao tao normais...

Causos da Cozinha

Esses dias, estavamos em mais uma daquelas tardes com tarefas longas, daquelas que tomam horas so em frente da bancada cortando, fatiando, melecando, temperando e tudo que terminar em ando que a cozinha oferece - estavamos cortando Polvo (tem que fazer os cortinhos xadrezadinhos com a faca em cada um, um saco) e comecamos a contar causos da cozinha.
Eu particularmente me lembrei do dia em que recebemos as entregas frias em Queenstown, e tinha que enfiar tudo em nossa minuscula camera fria que por sinal, ja estava abarrotada ate o teto. Como manda o figurino, eu teria que tirar tudo de dentro, checar os baldes, ver o que dava para jogar em recipientes menores, jogar fora o que nao se usaria mais, limpar o chao, as prateleiras e so ai por tudo para dentro.
Chequei as Lagostas (que chegam vivas e agitadas) que chegaram em uma caixa de isopor, contei a quantidade (oito) e pus a tampa de volta e meti a cara na faxina antes que alguma coisa estragasse. O processo todo deve ter levado entre 30 e 40 minutos, comecei a por as caixas para dentro da camara, quando notei o isopor das lagostas - haviam apenas umas duas ainda tentando escalar a parede da caixa.
Sentindo a (horrivel) morte iminente, as desgracadas deram um jeito de abrir a tampa e se mandar - para o meu panico, cada uma custava por volta de quarenta dolares - sai desesperado pela cozinha procurando.
Uma horda de lagostas fugitivas, ao contrario do se que pensa, nao eh uma classe unida ou organizada : elas vagaram erratica e erroneamente em seu caminho por liberdade e tive que buscar uma embaixo do imenso freezer de 500kgs, outra embaixo de uma bancada fixa, outra rumando para a lavanderia nos fundos, uma aparentemente decidiu que o caminho ao banheiro seria o mais seguro a se tomar, uma estava a apenas um metro de distancia no chao da cozinha (acho que ofegante) amaldicoando a falta de exercicios regulares e alimentacao saudavel e apenas uma Lagosta com QI de Einstein (julguei ser a lider da rebeliao) marchava triunfante pela porta dos fundos em seu glorioso caminho ao Lago Wakatipu (levariam horas ainda, mas pelo menos ela tomou a direcao certa).
A situacao era surreal, ate porque eu pensava :
a) No prejuizo que eu ia levar;
b) No absurdo de conseguir perder lagostas, que em terra sao tao velozes quanto as tartarugas;
c) No mico que iria pagar em frente a todo staff.
Felizmente, era no meio da tarde, antes do jantar e ninguem estava na cozinha alem de mim. Ninguem riu da minha cara, a nao ser as lagostas.

Quem ri por ultimo, ri melhor - senti um prazer indescritivel ao atirar cada uma em uma panela fervente...

Mais um dia de domingo...

Domingo deveria ser um dia sagrado, para todos, para descansar, para passear, para ficar bundando sem necessariamente ter que fazer alguma coisa por que eh Domingo (como acontece no Sabado, as pessoas saem de casa por que eh Sabado e quem eh alguem nessa vida, sai no Sabado) mas o tal do Setimo dia (ate hoje nao sei bem esse negocio, uns dizem que nao) foi projetado para apenas uma coisa: se fazer o que quer, geralmente.

Meus Domingos costumavam ser pacificos/agitados/preguicosos dependendo do que eu quisesse : em alguns, ficava em casa deitado na cama de meus pais assistindo TV, outras eu passava em casa de amigos batendo papo, jogando truco, etc... e outros raros a beira da represa, andando de bicicleta, matando tempo.
Quando Deus criou a Terra, descansou no setimo dia, entao que raio eu fiz errado para perder meu direito sagrado a esse dia de conforto ?
Lembro de meu ultimo Domingo no Brasil antes de vir para ca, pela primeira vez quando meu pai chegou e se deparou com o corpo estendido na cama (dele) e me perguntou como seria meus domingos na Nova Zelandia, e eu sem pensar muito respondi "trabalhando, provavelmente" - comprovando a primeira praga auto-rogada da historia, so um imbecil como eu faria uma coisa dessas mesmo.
Hoje eh Domingo, e quando fui trabalhar ainda era Sabado a noite, as pessoas zanzando por ai, bebendo, rindo, os bares lotados e eu passando de cara inchada, cracha pendurando no pescoco ao sabor do vento e meus passos ficavam cada vez mais devagar, em proporcao inversa a distancia que eu chegava ate a cozinha.
Claro que depois de duas horas de rabugice e mau-humor eu comeco a construir um certo prazer em trabalhar, eu gosto do meu emprego nao me entendam mal, mas de pensar que o Domingo estara raiando la fora enquanto eu ficarei ate as tres, quatro da tarde aqui nao eh justo. Nao que o trabalho seja injusto, ninguem poe nenhuma arma na minha cabeca para eu ir trabalhar, pelo contrario, eu pedi as horas extras para sanar meus probleminhas pequenininhos de falta de fundos que causam minusculos transtornos tais como panelas brilhando (por falta de uso, em casa), sindico brabo e aquela maldita caixa indiana do supermercado torcendo o nariz cada vez que a transacao sai como nao aprovada. Como disse, nada que me cause maiores transtornos.
Mas deve ser apenas porque, o Sol e os Domingos raiam para todos.

Pelo menos as Segundas nao significam nada para mim.
 
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