quinta-feira, julho 09, 2009

Este é o KAA

Tarte Tatin (receita neste link)




Adoro Tarte Tatin e aperfeiçoei-me para fazer.

A RECEITA ORIGINAL


Cortar | Descasque e corte as maçãs ao meio. Tire as sementes e divida cada metade em três pedaços. Você também pode usar a maçã inteira, como gosta de fazer o chef Henri Schaeffer. "Não fica exagerado, porque ela murcha."


Untar | Espalhe na superfície de uma fôrma ou panela 50g de manteiga amolecida. Por cima, polvilhe 50g de açúcar. O truque de Schaeffer é misturar ao açúcar 1g de pectina, o que deixa a tarte tatin mais gelatinosa e firme.


Espalhar | Acomode os pedaços de maçã sobre a fôrma, enfileirados e apoiados uns nos outros, formando círculos. Não deixe muito espaço entre os gomos de maçã. Adicione mais 200g de açúcar e leve ao fogo baixo para caramelizar por cerca de 25 minutos. Cuidado para não deixar queimar.


Amassar | A massa mais usada é a sablé – farinha de trigo (200g), açúcar (100g), manteiga (150g), 1 ovo e uma de pitada de fermento e sal –, mas Schaeffer recomenda a folhada. Abra a massa e corte-a em formato de círculo. O diâmetro deve ser um pouco menor que o do recipiente usado como fôrma.


Cobrir | Depois que as maçãs caramelizarem, ponha o círculo de massa por cima. Pressione a massa delicadamente com os dedos, de modo que grude na camada de fruta. Leve ao forno por cerca de 20 minutos ou até que doure.


Servir | Ao tirar do forno, espere um pouco para desenformá-la. Quando ainda está muito quente, a fruta pode grudar no fundo da fôrma. A dica é servi-la morna, acompanhada de chantilly, sorvete ou creme de baunilha.

Quanta dor você pode suportar ?

Quanta dor você aguenta ?

Essa é a pergunta que você deve se fazer ao entrar em uma cozinha profissional, estamos falando aqui, sim, de dor física e moral pois a cozinha é o palácio da dor não tenham dúvidas. Como comparação, nos primeiros dias em um escritório dificilmente acho que você corre sério risco de sair com um abridor de envelopes empalado em sua mão esquerda ou sofrerá queimaduras de terceiro grau enquanto desmpenha suas tarefas, enquanto lá, na cozinha, isso é uma possibilidade constante e
duvido qe os chineses tenham inventado uma sala de torturas (ainda que acidentais) tão variada e eficaz quanto esse ambiente insalubre em que nos metemos diariamete.

Correr sobre um chão engordurado carregando assadeiras de gordura fervendo ou facas pontiagudas não é bem o que sua mãe aconselhou quando você era pequeno - convenhamos.
E fazê-lo enquanto um chef está aos berros com você não torna nada melhor, acredite.

No quesito dor, tenho a minha classificação -

10. Cortes limpos: Cortes à faca afiada, daqueles que separam a pele em duas partes e sangram horrores, por menores que sejam. Não doem na hora, mas à medida que vão inflamando com a constante imersão na pia...
9.Arranhões com metais em geral: Assadeiras, fôrmas e demais são afiadas o suficiente para rasgar e não cortar, deixando aqueles rasgos largos em antebraços e costas das mãos e como sabem, inflamam também.
8.Queimaduras leves de forno: Aquelas famosas tiras em nossos antebraços que fazemos quando temos que alcançar alguma coisa bem funda, lá dentro do forno - sabe aquele joguinho de médico da Estrela : quando você erra o bisturi leva um choque ? Sua primeira reação após a primeira queimada é puxar o braço mais rápido possível e no caso, dentro de um espaço de 5 cms de altura entre uma grade de forno e outra e trinta de profundidade queimando vários outros pontos sucessivamente até que seu antebraço preça uma zebra.
7.Respingos de gordura: O pato Confit está no forno pra ser servido e bem na hora em que você abre para pegar BUM ! Explode uma bolha da pele feito NaPalm, borrifando gordura para todos os lados, rosto, braços, etc... Deixa pequenas bolhas de água ou pontos vermelhos.
6.Cortes de facas e instrumentos menos afiados: A faca de pão, serrilhada consegue partir sua pele com precisão e profundidade deixando aquela pele molenga em volta do corte, principamente na palma das mãos, que é como a vítima segura o pão para cortar a meio, dolorida durante e depois e demorada na cura.
5.Sal e pimenta nos cortes anteriores descritos: Após se cortar, temos aquela misturinha de sal e pimenta nos potinhos que usamos a cada segundo para marinar carnes, vegetais,tudo. Com pequenos cortes abertos nas mãos você os mergulha em um estado de dor intensa, a cada doi minutos como um pequeno masoquismo mas a dor é irritante e constante.
4.Cutículas inflamadas e inchadas: Tudo faz as malditas doerem, água morna,calor, sal e pimenta, produtos de limpeza em geral; esse mal é geralmente inflicto às pessoas que trabalham na pia, com direito à sangramentos, pus e inchaço que faz o dedos parecerem lâmpadas.
3.Queimaduras de imersão em Gordura: Um clássico, faz um pururuca de suas mãos, depois dóem cada vez qe você se aproxima do calor como uma maldição que perdura uma noite inteira, cada pequena onda de calor faz parecer que você está se queimando de novo a cada segundo. Nas pontas do dedos, insuportável.
2.Cabos quentes : Desavisado, você esquece que aquela merda de frigideira acabou de sair de um forno à 200C e mete a mão para pôr a comida ao passe (e não pode derrubar porque a mesa inteira está saindo) então você aguenta e não solta - no começo a pele fica lisa e esticada (vermelha...) e depois surgem as bolhas que também doem no calor. Uma queimadura dessas leva dias e dias para sarar.
1.Vapor e caramelo : Tive que empatar essas duas pois, além de lancinantes, estes pequenos acidentes podem te tirar de circulação por uma quota de tempo - O vapor não só queima, mas liquefaz a pele fazendo com que ela saia na atadura deixando aquela ferida lisa e vermelha da sua segunda camada de pele exposta, é vil e cruel. O caramelo por sua vez, em contato com a pele começa a esfriar imediatmente (grudar)e vai transmitir todo o calor onde estiver sem que você consiga retirá-lo aos prantos e gritos... é desesperador, em slow motion tipo aquelas torturas de filme em que o vilão entocha um ferro em brasa beeeem devagar em seu torturado.

A dor moral, bem, esta nem preciso comentar... os nossos fracassos diários que sugerem que jamais, nunca seremos chefs de verdade geralmente impostas por chefs sádicos e sociopatas (descrição esta arduamente desejada por e para nós, simples cozinheiros) ou simplesmente a gozação de sair da cozinha sangrando à procura de socorro, ainda que seja um Band-aid; enquanto seus companheiros leais imitam um bebê chorando.
A humilhação de não conseguir soltar todos os pratos e fazer a cozinha inteira esperar enquanto o chef vai resolver o problema aos berros (e manda você se afastar da chapa) é uma humilhação indescritível, sabe aqueles sonhos em que você está no pátio da escola lotado, porém nu ? Comparável.

Os prazeres, estes sim, gostamos de falar mas sem saber explicar bem onde achar prazer em meio à isso tudo, a falta de vida social (entre cozinheiros, somos mais uma matilha onde os mais fortes comandam), privação de sono, dores musculares e demais ossos do ofício, talvez seja a satisfação de vencer desafios diariamente - eu faço uma coisa que me assusta todos os dias e isso talvez seja o que não me deixou desistir até hoje (e eu penso em desistir, quase diariamente).

Talvez a dor de desistir seja maior.

segunda-feira, junho 15, 2009

A primeira vez no trabalho, a gente nunca esquece.


A primeira grande espinafrada do chef, a gente nunca esquece.

Não que seja a primeira vez na vida, houveram várias e de vários graus, tipos, intensidades mas a primeira de cada emprego, chef diferente, essa sim a gente não pode esquecer.
Era sexta, dia dos namorados e a expectativa do massacre iminente estava no ar, o staff estava com olhos arregalados, cozinha a todo vapor e pessoas arrastavam as bolas de ferros em seus pés com rapidez, sim, a calmaria sempre precede a maré e cmo digo, somos treinados a esperar pelo pior e sabíamos - haveriam gritos, desespero, lágrimas e violência prontos para nos pegar assim que o relógio soasse as sete da noite para o jantar e as portas do inferno se abririam sobre nós. Não que não gostamos disso, amamos isso, vivemos para contar para as pessoas os records de público atingido mas tememos o horror desses dias prenunciados.
Enfim, aconteceu antes que previsse - assamos os stincos de vitelo que teríamos mas sinceramente ando tão distraído que nem reparei que eram poucos e que poderiam haver mais no freezer (haviam mais 70), ficamos naquela promessa de que faríamos na quinta mas o restaurante não fechou e não pudemos usar a cozinha para preparar os malditos e assa-los na Sexta de manhã.
Ouvi gritos, estou cortando peixes e sinto os passos duros se aproximando, olhei pelo vidro e ele surgiu, ofegante, vermelho, pronto para estourar uma artéria ou coisa assim. Imaginei em minha cabeça a capa do NP (Notícias Populares) e a manchete em garrafais, "Cozinheiros imcompetentes têm membros decepados" e uma foto de nossa pequena cozinha ensanguentada, abaixo tinha um nota que diria "Chef cozinha braços e pernas em caldeirão". Ele entrou, foi um latido rápido, curto e grosso, e saiu - fizemos os 70 restantes em tempo record, quatro homens correndo, suando, amaldiçoando a vida (não pense que tínhamos razão, não, nós merecemos cada palavra pois estávamos fodendo o jantar do Dia dos Namorados caramba) enfim, apenas entreolhei meu colega de cozinha e ele disse "beber hoje ?" e eu só respondi "MUITO".
Quando chegamos na Padaria para beber, mal conseguíamos falar, quando o garçon perguntou o que eu queria eu queria gritar "vingança", mas me vingar do quê ? Eu estava errado afinal. Mas não ligo pra isso. Nunca liguei, e comparado à muitos lugares que eu trabalhei ou até mesmo, se eu fosse o chef, eu teria mascado a equipe em minha mandíbulas e cuspido porta afora, sim, ele foi um santo mesmo ensandecido.

E a primeira vez te prepara para as próximas (que por mais que evitemos, acontecerão). E como acontecem...

K - Ahhhh

Que lugar é esse mesmo ??

As pessoas me perguntam e estranham quando menciono o nome do novo emprego (sim, troquei) após uma não bem tão sucedida temporada no DD, mas há males que vêm para bem e este certamente é um deles (principalmente em uma área na qual trocamos de emprego mais que de cuecas) mas realmente penso em dar um fincada de pé em alguma coisa, meu instinto nômade ainda me incomoda mas estou tentando ignorar a vontade de pular em um avião para Kuala Lumpur ou qualquer lugar que sirvam drinks com guarda-sóis dependurados no copo. Tudo ilusão aliás, aprendi que quanto mais confortável o cliente, mais desconfortável está o staff. Enfim, o Kaá é o cardápio certo, no lugar certo e com a cara certa - adoro restaurante lotado, não quero mais saber de lugares vazios com garçons de olhos mortiços e a equipe na cozinha parada feito estátuas sem fazer nada além de faxina. Mudanças sempre são boas, não importa o quão pequenas, um corte de cabelo, emprego novo, um acessório pequeno para casa ou carro, minha grande e nova taça de vinho de casa - qualquer coisa serve pra quem está constantemente em casa ou trabalhando, estou aprendendo aos poucos a ter vida social novamente e juro, que vou evitar double-shifts enquanto viver.
Ter vida social, amigos à espera, jantares e bares para se ver é até estranho (custa caro em vários sentidos, pois enquanto todos dormem Domingo, eu trabalho) mas vale o esforço, se vale. Me sinto estranho pois após o navio, e turnos noturnos, ter esse tempo disponível e não saber o que fazer dele é estranho.

Enfim, mudanças são sempre bem-vindas. SEMPRE.

quarta-feira, março 11, 2009

You can't always get what you want.

Sou um frustrado.

Sempre quis ser um cara legal, divertido - não consigo mais - não sou nem legal, nem mais divertido, alguma coisa se perdeu no caminho entre estar sempre correndo ardorosamente atrás de alguma coisa, tentar ser o melhor no que faço, tentar ser a melhor pessoa que podia, não, não posso, não sou tão caridoso nem tenho tanta compaixão quanto as pessoas que admiram por terem; se odeio, eu odeio até o fundo da alma, se me desagrada eu falo, ando, saio, deixo para trás e esqueço como a maioria das pessoas não fazem mas sinceramente não acredito que as pessoas mudam até porque, de verdade eu não mudo.

Assisto à comédia humana sem o menor pudor de criticá-la mesmo fazendo parte, talvez a diferença é que eu não finja que acredito tampouco consigo levar a sério alguém fazendo graça (ou drama) para chamar a atenção, sempre quis poder acreditar nas boas razões de alguém fora a vaidade (até acredito, mas não consigo falar mais que dois nomes, ainda duvido talvez) mas de boas intenções, a estrada ao inferno está pavimentada...

Conseguimos não o que queremos, mas em geral, o que precisamos - alguém para estarmos juntos, dinheiro para pagar as contas (nem sempre), um carro para te transportar, uma casa para ter sobre a cabeça e talvez algumas coisas bacanas dentro.

Não consegui minha casa, não aprendi a tocar piano, não fui um publicitário famoso tampouco uma pessoa da qual alguém não consiga viver sem, sou menos do que gostaria de ser mas jamais fui amável ao ponto de alguém não conseguir viver sem mim e tampouco tive sucesso em tudo que fiz. Na verdade, sempre fui cínico, cético e mal consigo acreditar em coisas das quais não sinto, tenho pouca fé e sou racional com o que as pessoas acham que não deveria.
Tenho sim, amabilidade, mas muito mais por empatia, talvez o feliz, o otimista me irritam por não poder ser um, não acreditar no que acreditam por saber que isso também se perdeu em algum lugar, ou até isso nunca esteve lá - eu duvido e duvido, sempre, talvez o quebra-cabeças seja mais atraente do que simplesmente aceitar as coisas, as pessoas como elas são. Eu gosto do lado negro das pessoas, sim, eu sorrio no escuro enquanto as pessoas buscam a luz sempre (nem sempre haverá luz, pelo menos eu não tenho medo do escuro) mas saber que as tempestades virão e esperar por elas não é tão mal quanto ser pego em plena Paulista em um terno Armani, pela chuva, sem um guarda-chuvas por perto e arruinar o Armani eu espero imediatamente que isso irá acontecer e as surpresas são... bem menores. Eu atraio isso ? Se isso fosse verdade, eu teria ganho na loteria várias vezes, parece que só temos poder de atrair o que é mau e nunca o que nos favorece. Besteira. Você tem o que precisa, para acordar, para aprender ou até para se ferrar, geralmente não temos o que queremos.

Não espero mais muito da vida - espero apenas não ser levado por ela, espero estar sempre no controle de minhas decisões e acatar o que elas acarretam e claro, vou fazer muita merda ainda e causar estragos enormes.

O que eu quero ? Viver em paz, com amigos, com inimigos para me fazerem melhor, amando, odiando e não me sentindo culpado por isso, buscando o que quero.

You can't always get what you want - but if you try sometimes, you just might find, you get what you need.

Eu amo Rolling Stones.

quarta-feira, março 04, 2009

Como empurrar um prato novo.

Você enfim chegou lá, vai decidir o cardápio e acha que naquele especial dia de Verão, seus clientes iriam adorar um Gaspacho bem gelado - separa os tomates mais vermelhos e firmes da caixa, o Salsão que não tem uma pinta sequer e até abre aquela garrafinha de Tabasco (vai dar um tempo na pimenta-de-cheiro), hoje sim, vai servir o que quer e... não vende. Eu fiz isso.

Porra, se na Espanha os caras tomam isso feito refrigerante, porque aqui ninguém arrisca ?

Porque, simplesmente você não está oferecendo o que esses idiotas querem/conhecem, só isso.
A raça humana ainda sofre da auto-preservação inerente aos animais, macacos só comem frutas desconhecidas após observar qualquer outro animal (macacos inclusos) comer primeiro - Macaco vê, macaco faz. Vi isso em House MD e achei verdade.
Quantas pessoas viajam e não provam sequer um só prato local, atendo-se à comida de hotel, segura e mantida dentro dos padrões aos quais está acostumado ? MUITAS.
E como obrigar nossos macaquinhos a experimentar ? Boa pergunta.
Pode-se ir devagar, misturando elementos conhecidos à desconhecidos ou apresentar um velho conhecido com uma forma de preparo diferente, uma abóbora em purê com Wasabi para casar com um peixe, Sorbet de goiaba com pimenta rosa, framboesas em um vinagrete, não interessa - disfarce, engane e surpreenda sabendo que você está prestando um favor à estas pessoas por abrir novos horizontes e enriquecer suas experiências com algo inesperado. Olha que eu odeio surpresas, mas gosto de me entregar ao novo deliberadamente e deixar me surpreender, a sensação é ótima de se esperar um sabor e receber uma sinfonia completamente diferente de percepção, esperar salgado e receber adocicado, amargo e descobrir o tênue limite entre adocicado-azedo, enfim, descobrir novas facetas do que acha-se absoluto. E trivial.

Louvável a decisão do Atala, do DOM ao banir o Foie Gras e as trufas do cardápio (notícia divulgada no Paladar do Estadão) pois ele obriga os fãs do DOM a experimentar pratos novos e ingredientes tão ou mais raros e exclusivos que são originalmente brasileiros e completamente desconhecidos pela grande população.
Não foi uma decisão ecológica, política ou financeira (até porque, existem ingredientes brasileiros mais caros e difíceis de encontrar) mas pela afirmação de todo o propósito do lugar que é oferecer o que o Brasil tem de bom através de técnicas de vanguarda, idéias inovadoras. As vezes penso em fazer versões de moqueca montada no prato com um molho à base de dendê e Côco mais acentuado e com essências como a pripioca aplicados sobre a posta com uma bisnaga e a posta pousada sobre um confit de pimentão e cebolas terminando tudo com um ramo de coentro no topo só para implicar. Ainda seria uma Moqueca, ainda teria os gostos inerentes mas com apresentação e finalização diferentes.
Se algum baiano iria olhar aquilo e chamar de moqueca ? Duvido. Mas se ele provasse e contasse aos amigos "aquela coisa que chamaram de moqueca - e não era - estava genial" já valia a pena pois além da apresentação esse cara provou também a piprioca, que não faz parte daquele prato mas foi adicionada à sabores conhecidos.

Mas infelizmente, existem os MacDonald´s (opa, McProcesso se eles vêem isso)massificando os gostos mundiais e fazendo com que bilhões de pessoas ignorem sua culinária e cultura local para ingerirem miúdos, ânus e outras partes de animais triturados a preços que não são mais atraentes há tempos, qualquer vendedor de rua tem mais caráter do que essas cadeias.

Que tal experimentar ? Não gosta de Coentro ? Provavelmente você não mereça comer Coentro ou nunca provou em um prato em que ele é essencial, odeia cebola ? deve comê-las trituradas em várias comidas industrializadas e nem sabe, não gosta de alho ? Você representa tudo que mais desprezo na vida. Exceções para alergias e intolerâncias apenas.

O sabor da vida, é o novo e a novidade assusta - neófobicos em geral, me desculpem mas vocês são um desperdício de espaço no mundo;

Façam um chef feliz. Experimentem e vocês serão recompensados com a gratidão eterna deles.

Sem estrelas.

Todos os chefs querem uma coisa, aliás, não só uma - várias - e elas são estrelas.

Penduradas no salão, acima do bar, as estrelas são almejadas ardorosamente por qualquer chef que se preze, fazem loucuras por elas, anulam suas vidas, destroem casamentos (os deles, mal tem tempo de salvar os próprios quanto mais de destruir dos outros)e quando conseguem enfim o montante que achar necessário ao invés de curtir o momento chega a hora do merchandising, acordos com empresas, fornecedores, a TV, as revistas, o livro, as festas e eventos dos quais ficam indispensáveis e... ...loucura incessante. Tudo bem que a grana extra ajuda a fazer o que querem nas horas livres e garante a aposentadoria quando saírem da voga mas a verdade é que manter o status (e as tais estrelas) custa caro em vários sentidos.
Quando descobri que um restaurante três estrelas Michelin não tem lucro pois precisa dos melhores ingredientes do mundo e o mesmo número de funcionários que clientes para poder manter o status quo, desanimei (o lucro vem de royalties e acordos, entrevistas e blá,blá...) será que devo correr feito louco para no final de tudo não poder sentar à minha cadeira e ver as pessoas gastando no meu maravilhoso restaurante ? Será que depois de tudo vou ter pique para correr atrás da fama ? Parece muito trabalho, mesmo para pessoas que customeiramente trabalham 14 horas por dia.

Às vezes, a vontade é de ter um bistrozinho de trinta lugares, aconchegante e com uma área de jardim fresca no Verão e que possa ser aconchegante no inverno (aquecedores a gás fazem milagres)aonde não se tenha pressa, a comida é sua e é boa (apenas para poucos) e seus amigos possam parar para bater papo na boqueta da cozinha ao menos para dizer oi, após servidas as refeições, naquela folguinha, você possa sentar-se à mesa deles e tomar uma limonada que seja. Sonho.

O que vi acontecer por exemplo, é o chef da Sal Gastronomia (chef revelação Veja 2008) que fez mais ou menos isso e com sua pequena cozinha ganhou o prêmio e agora começõu a ampliar o espaço e logo, logo... ...vai estar em seu restaurante de cem lugares ligando para sua relações públicas para saber sobre aquela matéria e : cair no mesmo rumo dos que quiseram essa vida em primeiro lugar. Sucesso acidental, ou simplesmente porque ele criou espaço e tranquilidade para cozinhar o que quis no tempo que quis ? Acho que nunca vou saber, talvez eu pergunte um dia.

Mas quando descobri a história por trás de grandes restaurantes estrelados, todo o trabalho envolvido, vidas privadas se tornando públicas e brigadas pequenas e íntimas se tornando times grandes e impessoais que sequer consideram tomar uma cerveja após o trabalho juntos, sim, aqueles caras em uniforme com apelidos e vidas passam a ser "o eficiente", "o problemático", "aquele assistente" e a partir daí, naturalmente a rotatividade aumenta junto com a impersonalidade da equipe. Uma pena.
Acho que alguns chefs não sabem os nomes de quem trabalha atualmente para eles mas jamais esquecerão o nome daquele primeiro lavador de pratos que fazia ele rir durante o serviço (e que depois era o primeiro a sentar-se no boteco e pedir as cervejas), do souz-chef que diziam ter matado uma pessoa mas que ninguém sabia se era verdade, daquela garota que se trocava no depósito de secos sem se importar se os caras estavam olhando ou não. Devem suspirar ao lembrar disso, eu aposto.
A grana era curta, o aluguel pago de raspão este mês (e o próximo ?) mas tudo bem, chegava-se para trabalhar e o time estava a sorrir, brincar (sacaneando uns aos outros) ao som do rádio engordurado tocando punk-rock. Agora, tudo que tem é o metálico "marcha-e-sai" e ainda tem de gritar para fazerem silêncio pois se 100 pessoas falarem ao mesmo tempo, vira caos.

As domas não tinham nomes bordados e eram herdadas de antigos funcionários (a minha primeira foi, e tenho ela até hoje) os sapatos eram tênis de skatista cheios de silver tape, as calças xadrez arroxeadas pelas constantes lavagens à cândida e ao invés de toques, bandanas com caveiras e tribais adornavam as cabeças suadas além de esconder longos rabos-de-cavalo. Piercings então, quem tinha mais ganhava. Bem diferente da monotonia branca-e-xadrez daquele exército que se move não com a música mas com os bipes constantes de fornos combinados hi-tec. Eles se movem em um constante mover de troncos e braços mas nunca como o ballet de piratas da primeira brigada. Beliscões, toalhadas na bunda, assédio e imoralidades comuns às brigadas pequenas agora não são toleradas por precaução (assédio sexual, toda grande empresa tem que se precaver). As coisas mudam, e a vida desse chef também mudou.

Ele tem dinheiro, carro, casa própria e o caramba, mas não pode tomar um porre com os lavadores de prato para não afetar a moral do restaurante - também não pode encher a cara nos eventos pois os fotógrafos iriam adorar, resta beber em casa sozinho ou chamar os poucos amigos que restam (aqueles, de verdade) para um churrasco mas chegar carregado em casa, entregue à porta e amargar aquela ressaca no trabalho no dia seguinte definitivamente está fora de questão (e a RP falou que iria ser um desastre). Deve sentir falta até da ressaca, da limonada feita às pressas pelos cúmplices para disfarçar a tragédia humana em uniforme amassado e barba por fazer (não era sempre, só de vez em quando) e dos cafés pretos contrabandeados do salão. Hoje, não toma nenhum café que não saia de uma máquina italiana e que não tenha sido feito para ele, há quanto tempo não senta em uma padaria e pede aquele, com pó de serragem que por algum milagre continha alguma cafeína necessária ? Aposto que nem lembra.

Dá para ser feliz sem estrelas ? Pode ser - manter simples, dicreto e familiar pode ser uma opção para os não tão talentosos que vão passar a vida lembrando daquele colega que sucedeu e agora tem as tais na parede, vê as fotos nas revistas e pensa em como seria se fosse ele, antes de despertar com o acorde de "California Uber Alles" dos Dead Kennedys (a molecada da cozinha não conhece mas adora) e marchar o especial do dia bem alto, para se certificar que os idiotas vão mandar a coisa certa desta vez. Suspira antes de alertar sobre o steak que está a caminho de ser carbonizado e pensa "feliz é ele".

O outro não trocaria de lugar, jamais, mas que deve sentir uma pontinha de inveja, e até trocaria algumas estrelas pela simplicidade, isso até poderia ser.

Será que alguém consegue parar na primeira estrela ?

Estrelado.

Como será ser um chef celebridade ?

Bem, imagino que nunca, jamais ter que esperar por uma mesa em qualquer restaurante (e talvez até de graça) já é uma grande vantagem, receber royalties por panelas, utensílios e cacarecos em geral também não deve ser mal, Jacques Pepin que o diga pois o cara assina cardápio até de parque de diversões se bobear...

Ser recebido na melhor mesa e saber que a galera dentro da cozinha está suando para agradar seu paladar exigente (enquanto o sommelier fuça a adega atrás de uma garrafa adequada só para você) me deixa longe de deprimido, aliás seria difícil esconder minha excitação - e será que tem que esconder ou pega mal salivar quando se tem estrelas ?? Acho que eu não esconderia.

Bem, ser bem-recebido em cozinhas que atualmente, não me deixariam entrar pela porta (nem de serviço) além de um exercício de curiosidade serve para aprender o que os caras estão fazendo de novo, que delícia, imagina só, o Troisgros dando aquele toque de amigo só para você ? (bem, desde que você possa corresponder, mas não é disso que estou falando). Ter seu programa de TV, poder viajar pelo mundo em conferências, comer no El Bulli sentado ao lado de Adriá... ...as possibilidades são infinitas se pensarmos que a celebridade em questão realmente chegou lá, sem dúvidas.

Esses chefs tem tudo, mas quantos de verdade continuam em suas cozinhas ?
Não espere que Anthony Bourdain vá preparar seu Filé no Les Halles, ele não vai até porque vocês não acham que ele já sofreu bastante ? E, para falar a verdade, se eu fosse ao El Bulli e não puder ver Adriá, não vou me surpreender porém não ficaria menos desapontado, claro, mas fazer o quê ? Será que eu me sentaria em meu escritório e não daria nem uma mexidinha naquele molho ? Será que isso é possível, não morrer acorrentado à um fogão nessa indústria ? Penso no que horas e horas de pé em um ambiente desértico e estressante farão à pernas de 50 anos e tenho arrepios, sinceramente não acho que conseguiria.

Bem, eu conheci alguns deles (não de perto, nem intimamente) ma saber que existem alguns com pés no chão, que ainda amam cozinhar e amam sua cozinha, que falam de igual para igual com suas equipes é reconfortante (apesar de saber que em dez anos eles poderão não estar em suas cozinhas) mas saber que estarão sempre por perto para vigiar seus cardápios, sua comida e o que os levou a cozinhar em primeiro lugar é mais que inspirador, é quase esperançoso. E torcer que não não comecem a patrocinar fast food, nunca, endossar nada que não seja... ...parecido com comida, melhor.
Como todos, ao entrar no restaurante eu rezo para o chef em pessoa chegar empurrando o carrinho à minha mesa, fazer o quê?

Mas se ele não aparecer e ainda assim a comida for dele (aquela, que ele sonhou, testou, experiemntou e imaginou), vou elogiar, contar à todos, dar uma festa e distribuir cópias do menu aos convidados - ah, isso eu vou.

Será que um dia viro celebrity Chef ? Algo me diz que não...
...mas se virar, não me espere empurrando o tal carrinho. Torça pela comida.

terça-feira, março 03, 2009



Enfim, estamos lá.

Bem, estamos abertos à todo vapor.

Estar em um restaurante com total cobertura da mídia, diga-se de passagem não é a melhor coisa do mundo, pois se não podemos agradar à todos quem dirá agradar especificamente um crítico - tarefa difícil e delicada hoje em dia, em um mundo de emulsões, espumas e nitrogênio, um mundo pós Adriá, pos-Alex Atala, sim um mundo que conheceu o edge culinário e agora não pode voltar atrás. Deve ser tudo muito complicado, pois quem espera o D.O.M., deve ir ao DOM, e não outra coisa.
Mas não deixemos nos abater, trabalho é trabalho e trabalho deve ser parte de sua vida, não a vida em si eu digo, meu trabalho não define quem sou e quem sou muito menos define meu trabalho (ainda) o que é uma pena pois adoraria imprimir minha transloucada personalidade em um cardápio, sabe-se lá o que iria dar, Asiático com Adriático, Mediterrâneo com Brasileiro, uma mistura louca que talvez revelasse um pouco do que vi e senti, talvez eu devesse ser um cozinheiro mais livre, talvez o mundo não mereça (e não queira) o que talvez poria è mesa mas se Deus sabe o que faz, não deixou ainda eu ter meu cardápio por uma boa razão. Respeito isso. AS vezes ele faz assim comigo, as vezes até não gosta de mim por capricho meu.

A vida sim, mudou bastante, vejo pouco meus amigos e família e o tempo livre que gasto é comigo mesmo a maior parte do tempo, lavar, passar domas e aventais, limpar a casa, quase causar um incêndio depois de um turno quase ininterrupto de dois dias (e conviver com o cheiro de queimado) são a minha vida agora. Pelo menos tenho as madrugadas e Deus sabe como eu adoro a madrugada, fico mais ligado, mais criativo, mais tudo pela madrugada. Odeio dormir, se pudesse, não dormiria jamais.

Penso que o peso que tenho co meus amigos diminuiu até porque, geralmente eu não estou lá - a criança deu os primeiros passos, caiu de cabeça e soltou um pum em seguida e eu não estava, o churrasco incrível à beira da piscina, as fofocas, as pessoas e o caramba e eu não estava lá. Simples assim. Não esperam que eu esteja lá e na verdade, quando estou isso faz tudo bem mais colorido apesar de que quando estou lá, estou cansado. O cachorro alcança o carro e quando ele pára, não sabe o que fazer com ele. Sou um cachorro cansado.

Bem, ainda testo meus limites à estupidez humana (que parece não ter fim), penso que pessoas deveriam ser castradas para não procriar e ainda assumo inteiramente que gente em geral faz nada mais que foder a vida alheia - somos escravos da desgraça alheia (veja todas as revistas de fofoca em circulação e quais as machetes que vendem mais, boas ou ruins ?)mas talvez existam boas almas e o Gustavo ainda tenta me convencer que a humanidade tem solução ou talvez a vida seja bela. Hmmm.. Não.

Bem, somos macacos batendo com ossos em uma caixa sem saber abri-la.
Basicamente, ainda, é isso, causamos guerras sem sentido, discriminamos, matamos, refugiamos e estamos mais para a auto-preservação do que a tal da solidariedade, aquela, que deveria ser mais do que discar um número de doação e menos que dar um trocado à alguém que pode riscar seu carro caso desagradado (sou consciente, mas se alguém tocar meu carro eu mato). Se eu tenho esperança ? Não muita.

Mas trabalhar em um restaurante é ter a paisagem humana exposta à sua frente, isso não dá para negar - temos tudo ali, os trabalhadores, os patrões, a clientela (que tem pena de saber que você trabalha fins de semana mas que é impiedosa se alguma coisa chega mais passada do que deveria), as relações, as intrigas, os territórios, tudo está ali desdobrado pelos seres mais egocêntricos e territoriais do mundo que somos nós, chefs. Ahhh.. eu adoro a falta de sutileza deste trabalho.

Gritamos, falamos, interrogamos e detestamos receber ordens apesar disto ser a base de tudo que fazemos, obedecer ordens... ...um paradoxo delicioso, sempre nos achamos melhores que as pessoas que nos comandam, mesmo errados (e puxa, como estamos) escolhemos quem vamos respeitar e ainda assim, somos (em geral) leais mesmo àqueles que nos mandam, não existem muitos empregos assim. Se a humanidade fosse uma cozinha, existiriam guerras sim, mas acho que elas seriam travadas até o último homem de ambas as partes ou talvez, ninguém aparecesse por saber que não teria uma finalidade prática. Travamos guerras para que as pessoas tenham prazer, trabalhamos na indústria do prazer, somos soldados do prazer.

Eu simplesmente continuo me perguntando porque fazer isso, porque sacrificar tanta coisa para que as pessoas tenham momentos de prazer enquanto eu sofro.

Talvez seja isso que os soldados pensem durante uma guerra - mas ninguém morre de cozinhar...

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Enfim, inauguramos.

Enfim, abrimos as portas.

Em um mes de trabalho, já tivemos baixas, desertores e mais - a brigada que continua pelo menos já está se separando em clusters e panelinhas (olha o trocadilho) mas no geral, somos um time unido (talvez porque estejamos ainda com egos contidos, receios e pés atrás em geral) mas tem sido um grande prazer trabalhar no Dalva e Dito (pronto, falei), o Chef da cozinha é muito confiante e sinceramente, paciente (eu, às beiras de abrir um restaurante novo estaria dando saltos até o teto, matando, esquartejando, dilacerando pessoas entre minhas mandíbulas) a calma e confiança desse homem com a equipe é extra, sobre-humana (e é mais do que se pode esperar de um chef francês, acreditem).

Minha praça é a de peixes, até que se descubra como fazer com que anchovas cheirem à Dior, meu cheiro característico não será dos melhores, mas têm sido um desafio estimulante.

No soft opening (só para convidados, um test-drive com cobaias VIP) nossas trapalhadas e erros ficaram evidentes mas sobrevivemos todos empregados, muito obrigado, e as críticas na mídia foram favoráveis o que me faz pensar que estaremos empregados contanto que ninguém envenene nenhum comensal ou suba nu em uma bancada para fazer a dança do siri a ordem está se estabelecendo no restaurante. O mais incrível, chef confiou na equipe e nos subchefs para descobrirmos a melhor maneira de fazer as praças trabalharem (outra coisa raríssima).

A minha vida mudou radicalmente mais uma vez : estou em São Paulo (morando com endereço fixo e tudo) apesar de sobreviver com o que cabe numa mala ainda, estranho o fato de estar de volta ao Brasil, à São Paulo e mais ainda de estar trabalhando com Gastronomia no Brasil (tem palavras do vocabulário de cozinha aqui que desconheço) me sinto uma aberração velha e desinformada em meio à jovem brigada com quem trabalho... ... estudantes do Le Cordon Bleu na França, Paul Bocuse, Senac, Anhembi-Morumbi, gente que trabalhou no D.O.M. (a meca da culinária brasileira atual), Hotéis chiques e restaurantes estrelados. E eu, bem, eu sou aquele velho mercenário que está se auto-educando na lida e nos meus livros de receitas. Culinária Brasileira era um assunto Tabu para mim, nunca pratiquei e meu foco era sempre na cozinha francesa old-school (minha paixão) e ainda sou um pouco resistente à nova Nouvelle Cuisine (molecular dizem) que está invandindo o Brasil através da visão além do alcance de Alex Atala (tenho que admitir, o cara é um gênio criativo) e com a ajuda do Alain Polleto, que tem técnica e ciência em favor da culinária (que não considero arte, cozinhar é uma ciência, caso contrário, você poderia misturar pato com feijão e carambola e dizer que é arte).

Até pupunha é novidade para mim. Conhecia, mas nunca tinha apreciado suas aplicações em sopas, forno e outras variações.

O ritmo do restaurante, para mim, é moleza, os pedidos entram super ordenados e dá até para fazer mise en place durante o serviço se você se organizar - comparado ao navio, onde após sete horas de trabalho (duas no grill) eu ainda teria que fazer guarnições para 200 pessoas em quatro horas à La carte sozinho, estou em férias apesar de dizerem que a coisa vai aumentar eu duvido que chegue aos pés do massacrante ritmo do Insígnia. E ainda tem o adicional mais importante: a cozinha não balança durante o serviço...

Minhas mãos estão macias, minhas queimaduras são leves e os cortes são poucos, sem a pressa espartana da cozinha de navio fica mais fácil evitar pequenos acidentes corriqueiros como atear fogo em seus cabelos e sair correndo feito uma tocha humana pelo salão. Iria ser uma atração à parte. Creio que iria render boas gorjetas (aliás, sabiam que vivemos, á princípio das gorjetas ?) Então deixem de ser miseráveis e liberem nem que seja um real, por favor, contribuam com minha passagem de ônibus e a cervejinha após o trabalho.

Enfim, life goes on. O show continua. E eu rodo.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Resumindo.

Ok, já se passaram dois meses sem posts, mas muita água passou por debaixo desta ponte.

Voltei para casa, após um vôo longo de Milão/SP, a coisa mais nutritiva que comi à bordo foi um garfo plástico - incômodo, ansiedade inevitável de ver pessoas, entrosar e voltar ao mundo real fora de quatro paredes metálicas.
Á parte de meu amigo Trovão, que foi me buscar no aeroporto, ninguém foi me buscar (minha família não foi por orientação minha) e fiquei aliviado por isso pois fazer as pessoas esperarem é terrível, vôo atrasa, malas (as minhas para variar são sempre a últimas da esteira) ninguém merece, os meses seguintes eu passei matando as saudades dos amigos, família e minha conturbada relação com o mercado de trabalho brasileiro em cujo relacionamento consiste em tentar entrar e não conseguir (e ponto). Estava resignado a voltar para o navio e me conformar com mais alguns anos de senzala flutuante, afinal essa é uma carreira e para quem não tinha nenhuma é o que vale nesses momentos delicados da vida.

Resolvi tentar outra companhia de cruzeiros em busca de mais dinheiro - dsecobri que a vida a bordo é igual em todas as companhias e a maioria é um pouco pior do que a atual em termos de trabalho, mas mesmo assim, preciso ganhar a vida como qualquer pessoa que se preze, e como qualquer pessoa decente que se preze em momentos como este resolvi apunhalar meus empregadores em busca de grana : mandei CV para a Royal Caribbean e eles me convocaram para uma entrevista (da qual passei) e depois para uma segunda para acertar detalhes que solicitei, cargo maior assim como o salário.
Como esse emprego não iria acrescentar muito à minha técnica, vamos atrás da grana...

Nos dias ociosos, fiquei na frente do micro mandando CVs para todos os restaurantes de São paulo que gostaria de trabalhar, fui até atrevido dada as proporções que estava almejando, quero trabalhar para os melhores. Um dia antes da segunda entrevista, meu celular toca, era um restaurante famoso de São Paulo me chamando para uma entrevista, o sonho de qualquer aspirante a chef (não vou revelar por razões éticas) marcando entrevista para o dia seguinte. Fiquei excitado, nervoso, me preparando para o pior afinal, aqueles caras eram feras, eles são bons, eles aparecem na Tevê e eu... ...eu sou eu, aquele eu que está acostumado a sofrer.
Cheguei à entrevista uma pilha, ponho jeans ou calça social ? Cabelo em pé ou penteado ? O que esses caras levariam em consideração ? O emprego era para um novo restaurante do grupo - estou embasbacado e sem palavras. O chef me recebeu, falou montes de coisas que deseja de um funcionário e minha falta de atuação em várias praças ainda é evidente, mas ele viu alguma coisa em mim - deve ter sido minha cara de "espero pelo pior, já vi o pior" que diz quem aguenta choques sem reclamar; somos uma classe resignada e obediente.
Antes que batesse as pestanas estava contratado e com uma lista de documentos a trazer nas mãos - andei meio cambaleante até o carro, entrei e antes de dar a partida agarrei o volante com as duas mãos e gargalhava alto no auge de uma barato indescrítivel, a sensação de que fui aceito pelo meu país, pelos chefs (que não são brasileiros, vá lá) ,mas pela afirmação de que as pedras que empilhei (e foram pesadas) estão finalmente cosntruindo um castelo (e rezo para que nenhuma role de volta para me atingir a cabeça)...
Arrumei um apartamento por perto, me mudei em menos de uma semana e estou aprendendo pracas com o chef executivo (o cara já é meu ídolo), nunca vi um chef ser inteligente, rigoroso e considerado ao mesmo tempo como ele, é o tipo de cara que é respeitado ao invés de temido, alguém em que pode-se espelhar.
Agora, pretendo dedicar mais este blog à culinária e como ela é intrínseca com os fatos da vida, preciso evitar falar sobre nosso dia-a-dia pois não quero fazer nada que arrisque este emprego ou minha reputação dentro dele. Espero que compreendam, mas situações inusitadas sempre estarão presentes em minha vida e espero poder divertir meus amigos leitores no caminho.

Vou rebatizar o blog, alguma idéia ? estou precisando de um nome permanente...

quarta-feira, outubro 29, 2008

Reta Final.

Bem, faz tanto tempo que nao escrevo que nem sei onde parei, para variar.

Barcelona foi um sonho, o que dizer deaquele lugar ? Dominei as ruas, bairros, mercados, vi quase tudo que havia para se ver na cidade, sai a noite e voltei as sete da manha para o hotel direto para o cafe da manha, que sensacao incrivel de liberdade - voces nao imaginam o quanto esperei para isso...
Depois de Barcelona, Paris, imaginem um lugar... ...grande, Paris eh grande em todos os sentidos e tudo parece grandioso em Paris, os Palacios, os monumentos, as estatuas, as igrejas, tudo enaltece a grande experiencia que deve ser ser frances (em minha proxima vida quero ser frances) e nao estamos citando Napoleao ainda...
A torre Eifell eh muito maior do que esperava, mesmo sabendo as dimensoes ainda me surpreendi ao ve-la ao vivo e acreditem, parece um exagero como tudo na Franca.
Ao andar pelas ruas pela primeira vez, tive a mesma sensacao que tenho cada vez que abro uma revista de moda : a sensacao de que sou feio, barbaro ate, comparado as pessoas bonitas e bem-vestidas de Paris (nao da Franca, Marseilhe nao se assemelha tanto) me senti um orangotango feio e mal-cheiroso se comparado aos Parisienses - tive uma experiencia mal-sucedida com a comida em primeira instancia mas pude apreciar um pouco da culinaria francesa e ir ao supermercado na franca eh por si so, uma aula de culinaria tanto nos temperos quanto nas mercadorias, a variedade de tudo eh surpreendente e cada vez mais acredito que para ser um chef de respeito, eh preciso morar na Franca por pelo menos um ano.
Amsterdam comecou com chuva e frio, um hotel vagabundo e uma noite maravilhosa - Amsterdam eh a disneylandia para adultos - tudo que os outros paises escondem debaixo do tapete, Amsterdam faz questao de mostrar e mais, faz disso seu diferencial. O distrito da luz vermelha com suas vitrines (com o melhor e o pior do mercado), a venda de maconha, haxixe e o que mais possa ser enrolado e fumado nos bares, a liberdade de escolha das pessoas faz do lugar ate um paradoxo de si mesmo e um ponto de reflexao a todo o resto do mundo, como seriamos se fossemos todos livres ? Segundo Amsterdam, nem sinal de caos.
Comprei o basico misturado com tabaco, fumei em um bar - escolhi de um cardapio (?) dentro do Bulldog bar e sentei-me do lado de fora juntando-me aos turistas, os casais de meia idade e ate os Avos que estavam fumando seu baseado na mais pura paz e tranquilidade do mundo... ...ao meu lado, estava um casal de mais ou menos sessenta anos que dividia seu baseado muito romanticamente. Claro que meia hora depois estava transtornado, ria sem parar e devorei um Burger King package em segundos antes de pegar o Tram de volta para o hotel antes da meia-noite (acreditem, a ultima coisa que eu precisava era de uma noitada).
O cansaco do navio ainda esta pegando, ainda tenho dores nas costas e sinto-me abatido do nada, as vezes atacado por uma onda de sono ou simplesmente meu corpo recusa-se a responder a minha excitacao. Fui avisado que isso iria acontecer por umas duas semanas pelo menos.
Londres eh um choque.
Para nos paulistanos, fica dificil se ver e estar em uma cidade maior que Sao Paulo e nossa arrogancia nao fica tao evidente ate que estejamos em Londres ou Nova York - a loucura de ruas entupidas de gente, caos no metro, gente por todos os lados... ...Londres eh cara, e assim como a Franca, ostenta os sinais de grandeza de um ex-pais mais rico do mundo com seus castelos, parlamentos e igrejas interminaveis, Soho eh bem legal, Museu Madame Tusseau (nao lembro se escreve-se assim) e suas lojas elegantes, a Harrods (carissima) eh um tapa na cara da classe media com seus andares lindissimos, precos exorbitantes e uma estatua de Dodi & Diana de gosto extremamente duvidoso (inocentes vitimas, diz a inscricao logo abaixo da imagem de Dodi e Diana flutuando com passaros) que me deu arrepios. A parte culinaria da Harrods eh de enlouquecer, pecas de carne quase pornograficas, vinda de diversas partes da Europa, Charcuterie entao... ...o bar de caviar e champagne te poem em seu devido lugar, principalmente quando cobram £ 45,00 por uma entrada apenas composta de 6 ostras rockfeller. Vi camisetas de £ 150.00, o que para se ter uma ideia em reais, basta multiplicar por 5.
Amanha, pego meu voo para Barcelona, e depois Brasil.
Nao sei se estou pronto para o Brasil; o sonho da Europa ainda esta em minha cabeca, talvez nao devesse voltar, mas se nasce eu um pais por alguma razao talvez.
Nao sei o que o Brasil tem a me oferecer, e tenho medo do que talvez tenha a oferecer, talvez eu nasci para rodar o mundo, nao sei.

So sei que por agora, estou feliz de passar um tempo no Brasil, seja la quanto for.

sábado, outubro 11, 2008

sexta-feira, outubro 03, 2008

Ultimo Cruzeiro

Bem, cheguei la.

Estou em meu ultimo cruzeiro, cansado, humilhado, pisoteado, mas como todo bom bambu, eu envergo mas nao quebro.
Ultimo cruzeiro, dia de embarcacao de novos passageiros em Veneza, comecei as onze da manha no buffet de recepcao no carving (eu corto uma peca gargantuesca de carne na frente dos passageiros ultra-excitados apos longos voos para a Europa) e temos o habitual "Bem-vindo a bordo, madame" com sorrisos amarelos e gestos ultra cordiais que me dao enjoos, particularmente eu nao tenho mais paciencia e logo pergunto se a criatura quer ou nao a merda da carne, coberta com a droga do molho ou nao e despacho a vitima para o setor de saladas sem nem me incomodar - enfim, estou na frente de um desses americanos de classe media salivando pela grotesca perna de boi e tentando cortar a crosta do primeiro pedaco (que sendo a ponta, fica dura) mas a faca disponivel esta SEMPRE cega, imprestavel, por mais que eu tente avisar todas as vezes a maldita companhia nao troca nossas facas. Enfim, entre uma tentativa e outra, o cansaco, a falta de cuidado, a faca que aparentemente nao cortava a carne (e nao cortou) deslizou diretamente em meu dedo indicador esquerdo que segurava o garfao de churrasco, a faca que nao funcionava bem com a carne pareceu ser bem eficiente em meu dedo, bem na base, aquela parte gordinha do dedo onde temos pelos, disfarcei mas senti que era um pouco serio quando vi o sangue jorrando por dentro da luva de latex, esguichos pequenos porem vermelho-vivo atraves do latex transparente.
A companhia tem regras contra sprays de sangue nos passageiros. Pena.
Mantive a mao abaixada, chamei o cara que corta o peru, pedi-lhe gentilmente que cuidasse daquilo e voltaria em cinco minutos; entrei na cozinha e dei de cara com o chefe jamaicano que agora estava mudando de cor (negro para palido-branco) enquanto eu punha a luva cheia de sangue no lixo e amaldicoava a faca, a vida, os passageiros e o que mais passasse pela minha cabeca, peguei umas toalhas de papel e tentei estancar o sangue para nao passar sangrando litros pela area de hotel ate o centro medico quando, Chef Cris entra para saber o que estava acontecendo mas a reacao foi ainda pior : ele entrou em panico, mandava eu me sentar (retruquei que nao haviam cadeiras ali) e de repente ele estava no telefone.
Quando ele desligou, ouvi em todos os alto-falantes do navio "CODE MIKE" dando a localizacao da cozinha, eu so tive tempo de dizer "DUDE, NOOOOOOOOOOO..." e a merda estava feita, todas as pessoas do navio estariam ali em segundos, General manager, medico, a equipe medica inteira (da qual ironicamente faco parte) e tudo que encontraram foi um cara segurando o dedo com toalhas de papel - no minimo embaracoso.
Depois da multidao dispersar, desci ate o medico, tomei cinco pontos no dedo e voltei a trabalhar, pensar que eu achei que seria mais facil, mas se tratando de minha persona, sem surpresas.
Todo este ultimo cruzeiro tem sido um desastre, me mudaram de estacao de trabalho na qual trabalho quase nada porem, odeio algumas pessoas que trabalham comigo agora e acontece de serem os chefes da secao, por pura ironia do destino.
Bem, faltam cinco dias para o meu mundo voltar a ser real, se bem que comecarei meu mundo real na surreal Barcelona, dream-like start.
Nao sei quando vou postar agora, se conseguir, conto mais.
Estou meio aterrorizado com a vida real, voltar ao mundo encarar desemprego, falta de perspectivas, pessoas, situacoes, dinheiro (a falta dele) e estou meio que em um surto psicotico. Mas, parte de mim esta feliz, pelo menos a maior parte.
 
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