quarta-feira, março 04, 2009

Sem estrelas.

Todos os chefs querem uma coisa, aliás, não só uma - várias - e elas são estrelas.

Penduradas no salão, acima do bar, as estrelas são almejadas ardorosamente por qualquer chef que se preze, fazem loucuras por elas, anulam suas vidas, destroem casamentos (os deles, mal tem tempo de salvar os próprios quanto mais de destruir dos outros)e quando conseguem enfim o montante que achar necessário ao invés de curtir o momento chega a hora do merchandising, acordos com empresas, fornecedores, a TV, as revistas, o livro, as festas e eventos dos quais ficam indispensáveis e... ...loucura incessante. Tudo bem que a grana extra ajuda a fazer o que querem nas horas livres e garante a aposentadoria quando saírem da voga mas a verdade é que manter o status (e as tais estrelas) custa caro em vários sentidos.
Quando descobri que um restaurante três estrelas Michelin não tem lucro pois precisa dos melhores ingredientes do mundo e o mesmo número de funcionários que clientes para poder manter o status quo, desanimei (o lucro vem de royalties e acordos, entrevistas e blá,blá...) será que devo correr feito louco para no final de tudo não poder sentar à minha cadeira e ver as pessoas gastando no meu maravilhoso restaurante ? Será que depois de tudo vou ter pique para correr atrás da fama ? Parece muito trabalho, mesmo para pessoas que customeiramente trabalham 14 horas por dia.

Às vezes, a vontade é de ter um bistrozinho de trinta lugares, aconchegante e com uma área de jardim fresca no Verão e que possa ser aconchegante no inverno (aquecedores a gás fazem milagres)aonde não se tenha pressa, a comida é sua e é boa (apenas para poucos) e seus amigos possam parar para bater papo na boqueta da cozinha ao menos para dizer oi, após servidas as refeições, naquela folguinha, você possa sentar-se à mesa deles e tomar uma limonada que seja. Sonho.

O que vi acontecer por exemplo, é o chef da Sal Gastronomia (chef revelação Veja 2008) que fez mais ou menos isso e com sua pequena cozinha ganhou o prêmio e agora começõu a ampliar o espaço e logo, logo... ...vai estar em seu restaurante de cem lugares ligando para sua relações públicas para saber sobre aquela matéria e : cair no mesmo rumo dos que quiseram essa vida em primeiro lugar. Sucesso acidental, ou simplesmente porque ele criou espaço e tranquilidade para cozinhar o que quis no tempo que quis ? Acho que nunca vou saber, talvez eu pergunte um dia.

Mas quando descobri a história por trás de grandes restaurantes estrelados, todo o trabalho envolvido, vidas privadas se tornando públicas e brigadas pequenas e íntimas se tornando times grandes e impessoais que sequer consideram tomar uma cerveja após o trabalho juntos, sim, aqueles caras em uniforme com apelidos e vidas passam a ser "o eficiente", "o problemático", "aquele assistente" e a partir daí, naturalmente a rotatividade aumenta junto com a impersonalidade da equipe. Uma pena.
Acho que alguns chefs não sabem os nomes de quem trabalha atualmente para eles mas jamais esquecerão o nome daquele primeiro lavador de pratos que fazia ele rir durante o serviço (e que depois era o primeiro a sentar-se no boteco e pedir as cervejas), do souz-chef que diziam ter matado uma pessoa mas que ninguém sabia se era verdade, daquela garota que se trocava no depósito de secos sem se importar se os caras estavam olhando ou não. Devem suspirar ao lembrar disso, eu aposto.
A grana era curta, o aluguel pago de raspão este mês (e o próximo ?) mas tudo bem, chegava-se para trabalhar e o time estava a sorrir, brincar (sacaneando uns aos outros) ao som do rádio engordurado tocando punk-rock. Agora, tudo que tem é o metálico "marcha-e-sai" e ainda tem de gritar para fazerem silêncio pois se 100 pessoas falarem ao mesmo tempo, vira caos.

As domas não tinham nomes bordados e eram herdadas de antigos funcionários (a minha primeira foi, e tenho ela até hoje) os sapatos eram tênis de skatista cheios de silver tape, as calças xadrez arroxeadas pelas constantes lavagens à cândida e ao invés de toques, bandanas com caveiras e tribais adornavam as cabeças suadas além de esconder longos rabos-de-cavalo. Piercings então, quem tinha mais ganhava. Bem diferente da monotonia branca-e-xadrez daquele exército que se move não com a música mas com os bipes constantes de fornos combinados hi-tec. Eles se movem em um constante mover de troncos e braços mas nunca como o ballet de piratas da primeira brigada. Beliscões, toalhadas na bunda, assédio e imoralidades comuns às brigadas pequenas agora não são toleradas por precaução (assédio sexual, toda grande empresa tem que se precaver). As coisas mudam, e a vida desse chef também mudou.

Ele tem dinheiro, carro, casa própria e o caramba, mas não pode tomar um porre com os lavadores de prato para não afetar a moral do restaurante - também não pode encher a cara nos eventos pois os fotógrafos iriam adorar, resta beber em casa sozinho ou chamar os poucos amigos que restam (aqueles, de verdade) para um churrasco mas chegar carregado em casa, entregue à porta e amargar aquela ressaca no trabalho no dia seguinte definitivamente está fora de questão (e a RP falou que iria ser um desastre). Deve sentir falta até da ressaca, da limonada feita às pressas pelos cúmplices para disfarçar a tragédia humana em uniforme amassado e barba por fazer (não era sempre, só de vez em quando) e dos cafés pretos contrabandeados do salão. Hoje, não toma nenhum café que não saia de uma máquina italiana e que não tenha sido feito para ele, há quanto tempo não senta em uma padaria e pede aquele, com pó de serragem que por algum milagre continha alguma cafeína necessária ? Aposto que nem lembra.

Dá para ser feliz sem estrelas ? Pode ser - manter simples, dicreto e familiar pode ser uma opção para os não tão talentosos que vão passar a vida lembrando daquele colega que sucedeu e agora tem as tais na parede, vê as fotos nas revistas e pensa em como seria se fosse ele, antes de despertar com o acorde de "California Uber Alles" dos Dead Kennedys (a molecada da cozinha não conhece mas adora) e marchar o especial do dia bem alto, para se certificar que os idiotas vão mandar a coisa certa desta vez. Suspira antes de alertar sobre o steak que está a caminho de ser carbonizado e pensa "feliz é ele".

O outro não trocaria de lugar, jamais, mas que deve sentir uma pontinha de inveja, e até trocaria algumas estrelas pela simplicidade, isso até poderia ser.

Será que alguém consegue parar na primeira estrela ?

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